O poder de uma boa história na visita a um museu

O poder de uma boa história na visita a um museu

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Pedro Pereira; Co-fundador da byAR; www.byar.pt
Pedro Pereira;
Co-fundador da byAR;
www.byar.pt

Albert Einstein dizia “A mente que se abre a uma nova ideia, jamais volta ao seu estado inicial”, eu apenas troco a palavra ideia por história.

Porque razão gostamos tanto de uma boa história? E o que é que define uma boa história?

Todas as histórias podem ser boas, só depende da forma como as contamos. Uma boa história tem emoção, suspense, ritmo e gera interrogações ao espetador. A razão é química, uma vez que o nosso cérebro associa emoções a memórias para tornar o processo de gravação mais rápido e consistente. Quanto mais forte for a emoção, mais forte será a memória. Por esta razão temos dificuldade em decorar listas de coisas, fatos ou ações, mas não temos dificuldade em memorizar uma boa história

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Não acredita? Recorde um evento memorável da sua vida, por exemplo, o nascimento de um filho ou o primeiro beijo. Veja a quantidade de pormenores que vêm à cabeça. Agora experimente fazer o mesmo com a lista de supermercado. Veja o quanto é emocionante recordar a lista de supermercado versus o primeiro beijo. Quantos itens da lista de supermercado se lembra?

Lagoa
Lagoa Experience (Fotos: D.R.)

Entende agora porque gostamos tanto de uma boa história?

Acredito que a visita a um Museu, pequeno ou grande, pode ser uma visita emocionante, memorável e única desde que conte uma boa história/narrativa.

Foi com esta crença que desenhámos e produzimos o ambiente digital do Mercado de Escravos em Lagos; renovámos a exposição da Casa do Administrador de Ourém; produzimos Postais com Experiências Imersivas 360º para Lagoa (do Algarve); estamos a finalizar o BispoGo para Vila do Bispo, o qual contará com uma personagem ternurenta que nos vai guiar pelo território e, nos últimos meses, temos estado a trabalhar em conjunto com a equipa do Museu de Portimão na renovação do Ambiente Digital do percurso expositivo.

museu de portimão
O descabeço, Museu de Portimão

O convite surgiu com a necessidade de acrescentar novos conteúdos, adicionar mais idiomas e tornar a exposição facilmente entendível à maioria dos visitantes. Para cumprir estes objetivos optou-se por criar uma App para smartphone, através da qual adicionámos uma camada digital de conteúdos ao percurso expositivo existente. Com esta App e recorrendo à realidade aumentada, o visitante só necessita de apontar o smartphone em direção às imagens assinaladas ao longo do percurso para ativar os conteúdos. Em cada ponto de interação o visitante tem acesso a imagens, vídeos e principalmente a um áudio-guia que explica o tema tratado naquela parte do percurso.

mercadoescravos
Mercado de Escravos

Do ponto de vista técnico, estaríamos em linha com os objetivos do projeto, mas seria um projeto sem emoção, suspense e poucas interrogações por isso decidimos adicionar alguns “pós mágicos” de emoção e curiosidade: assim que o visitante inicia a visita ouve pela primeira vez a voz da Mónica (a locutora) com um discurso sempre na primeira pessoa, como se a Mónica fosse alguém que habita naquele espaço e o convida a descobrir as origens e a evolução da comunidade de Portimão.

Convidámos duas antigas trabalhadoras da fábrica de conservas a regressar ao local onde hoje é o Museu e ali, no meio de manequins sem vida, estas explicam o processo de descabeço e embalamento, num discurso directo, simples e sem preparação prévia, de modo a captar a genuinidade do momento. Também “convidámos” Manuel Teixeira Gomes para nos contar a sua história de vida. Estamos ainda a produzir um barco romano, uma vila romana e uma casa islâmica, para permitir ao visitante conhecer os “Porta Contentores e respetivos contentores” daquela época, ver como viviam os romanos ou ver como era uma casa agrícola islâmica.

bispogo
BispoGo, Vila do Bispo

A Mónica (a voz) marca o ritmo da visita. As antigas operárias e Manuel Teixeira Gomes geram emoção. Misturámos conteúdos interactivos 3D e criamos a surpresa.

Confesso que gostava de ter ido mais longe, não só ter a Voz da Mónica, mas também a própria Mónica; dar vida aos manequins e criar textos por forma a voz da Mónica criar outro ritmo. No entanto, por um lado foi a própria exposição que definiu o Ambiente Digital a criar e por outro lado, a margem para ficcionar a verdade fatual é limitada. Para entenderem melhor a diferença entre verdade fatual e verdade ficcionada, convido-o a relembrar o filme Titanic e um documentário sobre o mesmo naufrágio. O filme tem duas histórias: a história de amor que agarra o espetador e a história do naufrágio; um documentário sobre o tema vale pela informação histórica que expõe, mas não agarra milhões de espetadores.

ourem
Casa do Administrador de Ourém

Visitar um museu, não é o mesmo que ir ao cinema, mas a história contada ao longo do percurso expositivo pode ter emoção, suspense, ritmo, interrogações, conflitos e finais emocionantes que nos fazem voltar, recomendar e reviver memórias.

É através de emoções que criamos memórias duradouras. Então porque não ir a um Museu para viver, interagir e experienciar uma boa história?

(Artigo publicado no Caderno Cultura.Sul de Julho)

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