“Os comboios do Algarve estão no estado em que está o país”

“Os comboios do Algarve estão no estado em que está o país”

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Os passageiros queixam-se do cheiro nauseabundo que se sente no apeadeiro da Conceição de Tavira (Foto: Maria Simiris)
Os passageiros queixam-se do cheiro nauseabundo que se sente no apeadeiro da Conceição de Tavira (Foto: Maria Simiris)

Passam 20 minutos das 15 horas e o POSTAL, a convite da Deco, Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor, deslocou-se ao apeadeiro da Conceição de Tavira, perto da Praia de Cabanas, com o objectivo de perceber as condições em que os passageiros do Algarve viajam.

À primeira vista deparamo-nos com um apeadeiro ao abandono, com dois bancos degradados, desprovido de casas-de-banho ou de balcão de atendimento, rodeado de lixo.

Maria Clara Garcia é a primeira a chegar à estação. Vem do trabalho e espera o comboio das 15:59 para se deslocar a Tavira. A algarvia conta ao POSTAL que no dia anterior o comboio atrasou-se 15 minutos, o que a fez perder uma consulta. “Acontece inúmeras vezes. Depois, aqui não há altifalante nem balcão de informação, logo a única alternativa é ligar para o número de apoio da CP. A chamada é paga e nunca me dão respostas. Tive de desistir de telefonar”, afirma. “Eu tenho de estar às 16:30 horas em Tavira, muitas vezes não consigo. Até já aconteceu ter de ir a pé. É um caminho que leva uma hora”, acrescenta Maria Clara.

Porém, o maior problema, segundo a mesma, não são os atrasos dos comboios. O maior problema está dentro do apeadeiro. No pequeno espaço lateral do edifício, que à primeira vista parece abandonado, habita um senhor. Nesse anexo não existe casa-de-banho e no apeadeiro também não, escusado será dizer que as opções que sobram são escassas. Maria Clara queixa-se que o cheiro que muitas vezes se sente no local “é nauseabundo”.

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Williy chegou no comboio que veio de Faro. É da Bélgica e está por pouco tempo no Algarve. Confirmou ao POSTAL que os comboios do seu país são diferentes. “Aqui eles atrasam-se sempre. Hoje chegou a horas, na segunda-feira foram 45 minutos depois. Para quem está de férias é aborrecido, mas suporta-se. Não consigo imaginar quem vive aqui”.

José Silva encontra-se sentado no banco, é um homem de poucas palavras, mas deixou escapar ao POSTAL que: “o estado destes comboios é igual ao estado em que está o país”.

Também sentado no banco encontra-se o colombiano Ernesto Calderón. Habita em Vila Real de Santo António e trabalha em Faro. Apanha o comboio todos os dias. Apesar de no seu país natal não existirem comboios, a sua opinião sobre os algarvios não podia ser mais negativa. “Já me aconteceu de tudo. Já aconteceu o comboio não aparecer, atrasar-se ou até ficar parado no meio do caminho. Nunca sabemos com o que podemos contar. Já cheguei atrasado ao trabalho”.

A sua pior experiência aconteceu em Olhão: “o comboio parou, não sei porquê e tive-
mos de esperar que viesse um autocarro para nos vir buscar. Quando o autocarro chegou, não havia espaço para todos. Os que iam viajar tiveram prioridade, eu ia para o trabalho, por isso tive de esperar que arranjassem o comboio”.

Dentro do comboio, as condições também não são as melhores, segundo o colombiano: “o ar condicionado funciona às vezes. No Inverno a carruagem pode estar gelada e no Verão nem se aguenta. Mais do que uma hora nestes comboios é demais”.

“A Paragem da Vizinha é Melhor que a Minha”

Em 2016 surge a primeira campanha nacional da Deco relacionada com os transportes públicos, “Queixa dos Transportes”. Esta campanha veio originar uma plataforma online, ainda existente, onde para além de uma carta com os direitos dos passageiros, se encontra um formulário para se apresentar qualquer queixa relacionada com os transportes públicos.

No ano seguinte, a associação contabilizou 205 queixas. Este ano, e até ao dia 12 de Agosto, o número encontra-se nos 114.

Tânia Neves, jurista da Deco da delegação regional do Algarve, explica ao POSTAL que desde que criaram a plataforma as queixas têm vindo a aumentar: “a Legislação que existe sobre os transportes é dispersa e temos a ideia de que os próprios passageiros não têm noção de quais são os seu direitos e talvez por isso não apresentavam reclamações. Desde aí notámos que as reclamações nos transportes aumentaram. Ficámos satisfeitos por isso e realmente fez a diferença”.

Seguindo o mesmo mote, a Deco do Algarve traz para a região a campanha “Faça Greve ao seu Carro, estes Transportes não nos servem”, no ano de 2017. “Denunciámos os horários, as condições do material circulante, os preços, os tarifários desadequados e reivindicámos junto das autoridades competentes, pelas alterações que entendíamos ser convenientes”, esclarece a jurista.

E como a rede não se fica apenas pelos meios de transporte, também as suas infra-estruturas, nomeadamente apeadeiros, paragens ou estações, são alvo de críticas pelos passageiros no Algarve. Neste sentido, a Deco Algarve cria a campanha “A Paragem da Vizinha é Melhor que a Minha”. Tânia Neves explica o objectivo da mesma: “o nosso projecto pretende alertar para a necessidade de reabilitar a rede de infra-estruturas de apoio aos transportes públicos na região e por isso continuamos a apelar à contribuição dos consumidores que podem apresentar as suas reclamações, sugestões, experiências, na plataforma online. Isto, para que nós possamos da melhor forma reivindicar os seus direitos que já estão consagrados e até para exigir melhorias no sector”.

(Maria Simiris / Henrique Dias Freire)

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