“Sr. Ministro, não falhe a quem nunca falha. Sou enfermeira, convivi com...

“Sr. Ministro, não falhe a quem nunca falha. Sou enfermeira, convivi com a miséria, a fome e o frio”

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“Sr. Ministro, não falhe a quem nunca falha. Estamos lá sempre: 24 sob 24 horas, 365 dias por ano. Os enfermeiros estão de luto mas em luta..”, salienta a enfermeira (Foto arquivo D.R.)

Tratou de feridas crónicas, lavou pernas descarnadas até ao osso e ouviu súplicas de doentes, ao longo dos 13 anos. Na primeira pessoa, uma enfermeira escreve uma carta aberta que não deixa ninguém indiferente a propósito dos seis dias de greve.

Aqui os mínimos são máximos. Temos uma missão, que tanto nos exige como nos preenche e desgasta. Sou enfermeira há quase 13 anos, convivi com a miséria, a fome e o frio. Tratei de feridas crónicas e ainda hoje sinto náusea ao recordar a abertura do primeiro penso. Lavei pernas descarnadas até ao osso; trouxe pulgas na farda assim como muito amor de quem tratava. Ouvi súplicas de acamados e rezei por eles.

Chamo-me Sofia. Tenho 35 anos e sempre exerci o direito à greve na prestação de cuidados mínimos. Quando avançamos para esta forma de luta, sabemos que a sobrecarga de trabalho aumenta em serviços fim de linha. No Serviço de Urgência, onde trabalho há sete anos, o número mínimo de enfermeiros é sempre o mesmo.

Durante estes seis dias não podemos ter menos elementos por turno, pois deixaríamos áreas a descoberto. Somos o garante das pessoas. A adesão à greve é total, reflexo do desânimo que nos assola. No caso do meu serviço (como outros com as mesmas características), contamos apenas como número estatístico de aderentes, porque efectivamente nunca fechamos portas nem reduzimos os prestadores de cuidados de saúde.

Sr. Ministro, não falhe a quem nunca falha. Estamos lá sempre: 24 sob 24 horas, 365 dias por ano. Os enfermeiros estão de luto mas em luta, de forma faseada, em marcha lenta e, sobretudo, cívica como é o nosso tom. Fecham-se as portas de alguns serviços que prestam cuidados sem cariz urgente, mantendo-se os imprescindíveis à população. Os colegas são determinados e resistentes. Conferem visibilidade às reivindicações, mesmo não sendo remunerados nestes dias. Facadas no seu orçamento familiar já de si tão magro (em média, recebem 1.000 euros líquidos/mês).

A falta de cumprimento dos compromissos, a ausência de reconhecimento e valorização da complexidade desta profissão atiraram-nos lamentavelmente para uns dias como estes. A tutela sabe-nos cansados disto, é verdade. Aquilo que desconhece é que as adversidades não nos encolhem, endurecerem-nos.

Vidas em risco

Atravessei uma sala de espera em brasa para cumprir o turno da noite. Na recepção não havia macas ou cadeiras de rodas para quem entrava de novo. Percebi pelo choro pouco contido de uma mãe nos braços do companheiro que o filho estava a morrer. Pensei no meu de 2 anos e no quanto o amo. Aquela súplica atingiu-me.

O segurança dirigiu-se calmamente a um homem que lhe gritou que iria entrar (“dê por onde der”). Previa uma noite dura entre o trabalho efectivo e o desactivar de conflitos entre pais e profissionais de saúde. Ensinaram-me pouco sobre isto nos livros, mas os anos são uma ferramenta valiosa. Endurecem-nos.

A urgência estava do avesso, os colegas exaustos e havia alguém no limbo da vida. Esqueçam os cheiros nauseabundos, os excrementos e as tripas de fora que integram esta profissão. Isto é a única coisa que nos abala: a morte.

Houve um colega recém-admitido absorvido entre pedidos de colheita de análises, várias terapêuticas e telefonemas. Percebi pelos traços do seu rosto o pânico, a incerteza, a dificuldade na tomada de decisão. A sala de observações estava caótica. Um enfermeiro tentava orquestrar os cuidados, tranquilizar os pais e domar o telefone imparável com pedidos e exames. O segundo elemento desta sala a rebentar pelas costuras foi ajudar a equipa na sala de ressuscitação. O coordenador de equipa também. Os vivos podiam esperar.

Quando declaram óbito

Segui para a sala de emergência em passos largos. Suspirei. Não consegui abstrair-me daqueles pais que seguravam um terço. Uma tentativa de suicídio num adolescente de 16 anos, filho único, que saltou de um terceiro andar. Abri a porta de chumbo. Entrei no momento em que declararam o óbito.

Os quatro enfermeiros descalçaram as luvas num silêncio aterrador. O mais novo colocou-me a mão sobre o ombro e inexpressivamente sussurrou: “Até amanhã Sofia” (como quem diz “nunca mais”). Vi uma jovem médica a colocar os livros no bolso, compondo repetidamente o cabelo. O nó da garganta sufocou-lhe a vontade de chorar. Compreendi-a tão bem.

Dirigi-me a ele. Questionei-me sobre o que o teria levado a isto, qual seria a sua dor. Encerrei-lhe os olhos, limpei-o. Retirei o máximo de maquinaria invasiva que tinha sobre si. Escondi por baixo de um lençol as fracturas, as hemorragias e qualquer evidência de sofrimento para atenuar a sua última imagem como se coração de mãe não soubesse. Fizemos entrar a família numa passada lenta como quem adia o inadiável. Nunca ninguém se habitua a isto.

Preparei a sala novamente. Carreguei o material de artilharia para as gavetas e confirmei a lista. Cheirava outra vez a limpo. Apaguei as luzes e conversei com Deus e com os meus botões. Voltei à sala de triagem, mas não consegui desligar-me daquela imagem do adolescente. Ainda ouço a mãe gemer.

Comunicar más notícias

Os anos ensinam-nos a desactivar conflitos. Mas somos maltratados. Fui insultada tantas vezes neste trajecto por colocar crianças à frente dos filhos dos outros. Ameaçada também. Era verdade o que alegavam, mas sabia que os seus podiam esperar. O filho desta senhora descansava no seu regaço sem NENHUM sinal de alarme. Voltei para trás e disse-lhe duas como não é meu tom. Coloquei-a no seu lugar e despedi-me dela de forma definitiva:

Há uma criança a morrer. Dê graças por não ser a sua minha senhora.

Tem razão. Não é a minha por isso pouco me importa. Quero um médico para o meu filho.

Bati a porta e procurei calma dentro de mim. Isto não poderia cegar-me ao ponto de não ver o que realmente importava. Observei um homem sentado no chão com a cabeça apoiada nos joelhos, em silêncio no epicentro daquele alvoroço. Aproximei-me dele.

O meu filho está naquela sala. É tudo o que tenho na vida. Vai morrer não vai Sra. Enfermeira? A minha esposa foi a casa, não dorme há quatro dias… ela tem mesmo de dormir. Devo dizer-lhe?

Não sei há quanto tempo estaria ali. Não o vi entre os projécteis de ameaças de que fui vítima. Levantei-o. Um peso morto. Ofereci-lhe um copo de água, sentei-o, escutei a sua dor e mantive-me calada. Recordo as palavras de Carmen Segovia, extraordinária enfermeira espanhola com quem tive formação na área de Comunicar Más Notícias: “Fala somente quando as tuas palavras forem mais poderosas que o teu silêncio.”

Finalmente chegaram as 8h00. Troquei poucas palavras com os colegas da manhã e arrastei as socas nas pernas sem força. Trouxe para casa o sofrimento. Tentei deitar-me enquanto procurei alguma paz no silêncio. E recordei-me das palavras de uma menina cheia de sonhos com leucemia.

Um dia quando for grande quero ser Enfermeira… para poder curar por dentro

Profissão herdada da mãe

Aproximei-me da estante onde guardo as minhas vitórias académicas e fitei-as uma a uma. Custaram-me muitos ordenados, Natais em família e festivais de Verão com amigos. Olhei as classificações da licenciatura, da pós-graduação, das formações avançadas, da especialização e Mestrado – algumas um ponto abaixo dos 20 valores. Estudei não só para passar nos exames, mas por aquele momento em que poderia fazer a pequena diferença entre a vida ou a morte de alguém. E por isso estudei muito.

Relembro-me das palavras assertivas da minha mãe, igualmente enfermeira, quando me candidatei. Foram duras como a sua vida de trabalho e como as noites que passei sem ela, agarrada ao meu pai e irmão. Gostava que eu levasse uma vida diferente da sua quando eu a achava tão especial. Cresci com o seu amor pela arte, a tratar as doenças pelos nomes. Gostava da sua saia sempre imaculada e da forma como cuidava das pessoas. Trazia-as para casa através das histórias que me contava.

Tempos depois fui admitida no Hospital em que sempre quis exercer e no único serviço escolhido e redigido em letras garrafais no questionário: Cuidados Intensivos. Aprendi que os alarmes confirmam o que o nosso saber antecipa. Desconstruí as imagens assustadoras destas Unidades como locais onde os milagres vencem a ciência e as histórias bonitas também têm vez.

Não vou esmiuçar as competências que adquiri. Prefiro recordar-me do jovem de 18 anos de quem cuidei dois meses num quarto de isolamento nos Cuidados Intensivos. Estava em coma induzido e mais perto de lá do que de mim. Fora vítima de um acidente vascular cerebral extenso, sem perspectivas de melhoras. Morreu tantas vezes nas mãos que o cuidavam como quantas foi trazido à vida pelas mesmas. Conhecia bem a sua mãe, o perfume anunciava sempre a sua chegada. Um dia perguntei-lhe se ele gostava de música e ela sorriu…”James!”. “Traga-me um CD, vamos ouvi-lo juntos”, sugeri-lhe. O miúdo despertou uma semana depois. Seguiu-se a fase de reabilitação, que lhe roubou um par de meses no hospital.

Encontrei-o talvez meio ano depois. Perto do Natal, numa sexta-feira de Inverno. Ali estava ele! Magro, cabelo ainda curto permitindo adivinhar as cicatrizes cirúrgicas como marcas de guerra. Lembrava-se de o ter penteado à James Dean quando conservava uma risca ao lado certíssima. Meu Deus, lembrava-se de mim! Dezenas de histórias como esta enraizaram-se como uma árvore centenária e perpetuaram a minha força. Contrabalançam todos os dias com o cemitério que trago do outro lado do coração.

Este artigo foi publicado originalmente na Sábado

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