Cultura e Santidade II: Etty Hillesum e Edith Stein

Cultura e Santidade II: Etty Hillesum e Edith Stein

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A OPINIÃO de MARIA LUÍSA FRANCISCO
Investigadora na área da Sociologia
luisa.algarve@gmail.com

“Os céus dentro de mim são tão vastos como os que estão por cima de mim”.
Etty Hillesum (1914-1943)

Começo com uma frase da mística em destaque na crónica do mês anterior, porque não me canso de a reler e de me surpreender. A beleza do que escreve no meio da dor, a capacidade de viajar no seu mundo interior, como forma de lidar com o horror do holocausto e deixar escrito um dos maiores testemunhos humanos e espirituais do nosso tempo, é algo arrebatador.

No meio do maior abismo do século XX, ela não revela nem ódio, nem ressentimento, lança-se em voo livre nos braços de Deus e escreve: “vou ajudar- te, Deus, a não me abandonares”.

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Não é considerada uma santa, mas é uma mística, porque foi uma mulher com sede do Absoluto e através do seu sentir poético e da sua apurada sensibilidade aproximou-se do Divino. No seu diário partilha diálogos extremamente belos com Deus.

Etty Hillesum e Edith Stein são duas grandes intelectuais do século XX, que para além de serem judias, morreram em Auschwitz. Viram-se uma única vez. Etty refere no seu diário que viu Edith e a irmã no campo holandês de Westerbork, precisamente antes da deportação para o campo de extermínio. A anotação no diário é muito breve, provavelmente não trocaram palavras, só os olhos e os rostos falaram!

Há um ensaio de Cristiana Dobner, intitulado O rosto. Princípio da Interioridade em que a autora imagina e descreve o que Etty e Edith teriam visto no rosto uma da outra. Reconstruiu o que os rostos disseram. “Um olhar que, sobretudo num momento tão dramático, sem dúvida era capaz de ler dentro, de captar o significado essencial daquele olhar-se recíproco”.

Edith Stein – de filósofa e discípula de Husserl a Santa

Desde muito cedo que comecei a ler hagiografias (descrição da vida dos santos). A primeira que li foi de Santa Teresa de Lisieux, depois Santa Teresa d’Ávila, São Francisco de Assis, entre outros, e só mais tarde li Edith Stein. Curiosamente no mesmo ano em que comecei a dar aulas na Universidade.

Chamou-me a atenção uma santa que foi profundamente intelectual e académica. Foi educada na religião judaica, teve uma crise de fé e seguiu um percurso agnóstico. A forte transformação do percurso de vida, tal como a sua fé e coragem, impressionou- me muito.

Edith frequentava na Universidade de Göttingen o círculo intelectual liderado por Husserl (seu orientador de doutoramento), que agregava pensadores de renome como Martin Heidegger e Max Scheler.

Foi uma das primeiras mulheres a doutorar-se em Filosofia na Alemanha. Um dia leu a autobiografia de Santa Teresa d’Ávila (1515-1582) e a sua vida mudou radicalmente. Esta leitura teve um impacto profundo e levou-a a converter-se ao catolicismo, exercendo intensa actividade no meio católico, como professora, conferencista, tradutora e escritora.

Ao mesmo tempo tornou-se cada vez mais contemplativa e mais despojada. A contemplação, como refere o Padre Tolentino de Mendonça, “não é uma sabedoria onde nos instalamos: é antes uma forma de exposição desarmada do olhar, uma colocação sem reservas, uma aprendizagem sempre a ser refeita, um despojamento dos porquês face aos instantes.”

Em 1933, leva a sua conversão às últimas consequências e tornou- se freira, entrando para a austera Ordem das Carmelitas Descalças.

Na clausura, escreveu o seu livro mais importante, Ser Finito e Ser Eterno, no qual procurou aproximar as filosofias de Husserl e de São Tomás de Aquino (1225-1274).

Foi capturada pelos nazis quando foi do Convento na Alemanha para outro na Holanda, onde estava a sua irmã. Foram enviadas para Auschwitz, onde morreram numa câmara de gás. Edith tinha 50 anos.

É habitual as Irmãs Carmelitas optarem por um outro nome, que tenha a ver com a sua vivência espiritual e Edith escolheu este simbólico nome: Teresa Benedita da Cruz.

A sua última obra intitulada A Ciência da Cruz ficou inacabada…ou talvez a tenha acabado de corpo e alma na sua cruz, a câmara de gás!

Em 1998, a mártir e filósofa foi canonizada pelo papa João Paulo II, precisamente como Santa Teresa Benedita da Cruz, padroeira da Europa, pelo contributo cristão que deu não só à Igreja Católica, mas especialmente à sociedade europeia através do seu pensamento filosófico.

A sua obra é estudada por investigadores de todo o mundo pelos seus contributos originais na área da filosofia, antropologia, psicologia, pedagogia e fenomenologia. Continua a ser inspiradora pela dimensão mística e por dar voz ao mais profundo de nós!

(Artigo publicado no Caderno Cultura.Sul de Novembro)

 

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