Marafado património imaterial

Marafado património imaterial [com fotogaleria]

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Luís Campos;
Cineasta

Deparo-me sempre com uma bicuda questão a cada nova pergunta sobre o meu local de origem. Nasci na Beira Baixa, mas sou um adolescente algarvio. Vivi tantos anos no estrangeiro como em qualquer um dos locais onde me fiz homem. Já tive uns 15 locais de residência em pouco mais de trinta anos de vida, distribuídos por meia-dúzia de países.

A minha proveniência é uma espécie de imaterial definição do termo, mas estou hoje certo, como aliás sempre estive, de que nunca me conseguirei dissociar da minha marafada costela portimonense. Foi com naturalidade que comecei a trilhar um rumo profissional ligado à magia da sétima arte na sequência de uma contínua formação em cinema, a meias entre os deslumbramentos que recolhia dos extintos vídeo-clubes locais, das ainda então salas de romaria popular (quem não se recorda do saudoso Cine-Esplanada na zona ribeirinha de Portimão?) e, mais tarde, dos ensinamentos obtidos pela frequência no ensino superior dedicado à área em questão.

Apesar de nunca ter dado como certo o local onde me poderia achar em casa, sempre soube que o meu lar era algures no espaço que corresponderia ao cinema. Tem sido, aliás e invariavelmente, através do cinema que nos procuro e nos encontro enquanto espécie humana una e indivisa. É nos filmes que consigo encontrar reflexos e significados dos nossos comportamentos; e portanto zelo para que esse espaço não desapareça. Se me tirarem o cinema, fico sem abrigo. Hoje, com relativo distanciamento, percebo que é por essa razão que tenho vindo a aplicar esforços nas iniciativas que tenho promovido – todas elas de directa relação com a componente da escrita cinematográfica. Se a primeira, base de tudo o que seguiria, foi no lançamento do GUIÕES (www.guioes.com), certame que tem contribuído para estimular os índices de escrita cinematográfica em Língua Portuguesa, dar voz aos guionistas lusófonos espalhados pelo mundo que têm histórias por contar e para a aproximação das várias frentes da indústria cinematográfica em torno da prática e das valias da escrita de cinema.

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Mais de seiscentas pessoas já procuraram o GUIÕES
para exibir material que escreveram

Mais de seiscentas pessoas já procuraram o GUIÕES para exibir material que escreveram – todas unidas por um mesmo desejo, o de poder contribuir para a contínua evolução do cinema (e da espécie humana por consequência). Seguiu-se o PLOT (www.plotscriptlab. com), um laboratório profissional de guiões que une profissionais de reconhecido mérito internacional com guionistas, realizadores ou produtores com projectos em desenvolvimento. Passadas três edições – a partir da última das quais em parceria com o renomado festival IndieLisboa -, mais de vinte pessoas já puderam aprimorar e reflectir sobre os projectos nos quais têm vindo a dedicar toda as suas fontes de criatividade e de energia. Para além da minha própria experiência enquanto guionista e realizador e das aulas/palestras que fui dando em instituições da Holanda, Brasil e Portugal, os últimos anos da minha vida foram repartidos nas actividades que vieram a permitir o nascimento e a subsistência das iniciativas acima descritas. Os complexos tempos que decorrem incidem cada vez mais na pertinência do cinema não poder cair em desuso; é cada vez mais essencial continuar a pensar-se, discutir-se e a promover-se o cinema.

O intrínseco desejo de partilhar os ensinamentos que fui adquirindo sobre o mundo da escrita cinematográfica e essa contínua missiva da promoção da arte e do ofício cinematográfico levou- -me a desenvolver um sonho antigo: o DRAMA.pt, ou seja, uma actividade de formação em escrita cinematográfica ao longo de duas semanas que pudesse combinar o tema com o património cultural da região Portimonense. A ideia foi bem acolhida pelo município, pelo Museu de Portimão e por uma dezena de entidades locais cujas parcerias permitiram o nascimento da actividade neste último Julho de 2018.

Doze participantes de diferentes origens tiveram a oportunidade de aprofundar o seu conhecimento sobre a escrita cinematográfica à medida em que iam descobrindo as paradisíacas propostas culturais e paisagísticas de Portimão. Entre passeios de bicicleta, aulas de surf, passeios de kayak na Ria de Alvor, caminhadas por praias deslumbrantes e pela Serra de Monchique, sessões de cinema com cineastas internacionais convidados, aulas de ioga, degustações da gastronomia da região ou passeios de barco com visita às características grutas do Barlavento, o DRAMA.pt constituiu-se num imediato sucesso para quem com ele se cruzou. Está já prevista uma segunda edição, que irá decorrer em Junho de 2019, na qual se procura aperfeiçoar a lógica das dinâmicas a estabelecer entre visitantes e património regional.

Os portugueses são caracterizados por uma inata capacidade de bem receber e eu sempre estive convicto de que a melhor forma de conseguir proporcionar uma inexcedível e memorável experiência aos participantes do DRAMA.pt seria através da demonstração daquilo que de melhor existe em mim: o mundo cinematográfico onde resido e esta marafada amiga costela que nunca m’empatará.

(Artigo publicado no Caderno Cultura.Sul de Novembro)

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