O Humor é coisa séria: Escárnio e maldizer

O Humor é coisa séria: Escárnio e maldizer

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António Rodrigues Gomes;
Professor de filosofia aposentado

Ficou famoso um poema satírico de Natália Correia, lido na Assembleia da República, entre gargalhadas que obrigaram à interrupção dos trabalhos.

Era 1982 e na Assembleia debatia-se a despenalização do aborto; o deputado João Morgado, do CDS, defendeu que «O ato sexual é para ter filhos». Na tribuna, Natália comentou-o com esta jóia da literatura:

 

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Já que o coito – diz Morgado
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino;
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.
Sendo pai só de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou – parca ração! –
uma vez. E se a função
faz o órgão – diz o ditado –
consumada essa exceção,
ficou capado o Morgado.

Penso que este Truca-Truca se insere com toda a justeza na tradição das cantigas trovadorescas, mais exatamente, das cantigas de escárnio e de maldizer; decida o leitor se assim é, após leitura dos parágrafos seguintes.

As cantigas trovadorescas galego-portuguesa remontam à Idade Média. Foram feitas por trovadores da corte (quase sempre fidalgos, podendo mesmo ser reis) ou jograis (membros do povo que vão à corte para divertir os cortesãos e com isso obter lucro, de que viviam).

Estas cantigas pertencem a três géneros: nas cantigas de amigo, o sujeito é uma voz feminina, que apresenta os seus sentimentos relativamente ao seu amigo, que pode estar longe; nas cantigas de amor, é uma voz masculina que se dirige à sua amada, habitualmente casada, a quem presta vassalagem amorosa; e cantigas de escárnio e maldizer.

Às cantigas de escárnio e maldizer poderíamos chamar hoje “textos de intervenção”: são sátiras, onde se diz mal, se ri, se criticam usos, costumes e tradições da sociedade. Satirizam-se a Igreja, os reis, o mundo boémio, as cantoras de vida fácil que às vezes acompanham as expedições militares…

As cantigas de escárnio satirizam de um modo mais subtil, com linguagem ambígua, de duplo sentido, sem revelar a identidade de quem se critica. É o caso desta divertida sátira a um par composto por uma freira e um tabelião de Braga, feita a partir das suas apropriadas alcunhas (Camela e Bodalho/Leitão); é de D. Pedro, Conde de Portugal, com transcrição para português moderno por Natália Correia:

É próprio dos animais
que da mesma espécie são
fazer filhos; para a função
têm órgãos naturais.
Mas vejo eu um caso raro
o qual não cuidei que visse:
que emprenhasse e que parisse
a camela do bodalho.

Os de idêntica natura
juntam-se em certos momentos
para engendrar seus rebentos;
mas eis que uma criatura
vejo onde não cuidei vê-la
e com tal me maravilho:
Bodalho fazer um filho
naturalmente a camela.
 

Esses a que a natureza
deu igual conformação
unem-se e nessa união
fazem filhos com justeza.
Mas não vi em minha vida
camela que se juntasse
com bodalho, engravidasse
e dele fosse parida.

Ou esta bem-humorada sátira de Joan Airas de Santiago, cujo alvo de zombaria é uma mulher adúltera, aparentemente piedosa, baseada numa série de equívocos sobre o “corvo” (um padre?) que a teria convencido a substituir a missa pelo…. truca-truca.

Uma dama não digo qual
não agoirou este ano mal
pelas oitavas do Natal:
ia ela a missa ouvir
e ouvindo um corvo carniçal
já de casa não quis sair.

Ia a dama com devoção
ouvir a missa e o sermão.
Mas não podendo à tentação
carnal do corvo resistir,
logo mudou de opinião:
já de casa não quis sair.

Diz a dama: “mal me virá!
Paramentado o padre está
e a maldição me lançará
se na igreja não me vir.”
Diz o corvo: “vem cá! vem cá!”
Já de casa não quis sair.

Eis os agoiros que com espanto
este ano ouvi; nunca durante
a vida ouvira semelhante:
ia à Igreja mas ao sentir
em cima dela o rapinante,
já de casa não quis sair.

Ao contrário das anteriores, as cantigas de maldizer são diretas, identificando explicitamente os alvos, e numa linguagem clara. Em algumas, essa linguagem recorre a calão e pode parecer violenta ou mesmo obscena a alguns leitores contemporâneos:

Fernand’Escalho é apresentado numa cantiga como, em sua mocidade, “[…] cantar bem / que poucos outros vi cantar melhor”, mas porque “ouve sabor de foder, e fodeu […] / perdeu todo o cantar […]”.

O final de outra cantiga lança uma divertida flecha contra este mesmo Fernando, homossexual:

“Fernand’Escalho me pique…”. 😉

Numa sátira bastante obscena, o clérigo impotente D. Domingos é “gozado” pela sua “grossa pixa misquinha [miserável]”, que não satisfaz a sua amiga Marinha.

Termino com uma cantiga, pequena e maliciosa, do trovador Rui Pais de Ribela:

A donzela de Biscaia,
nunca ao meu encontro saia
de noite, ao luar!

Se ela agora me desdenha,
nunca ao meu encontro venha
de noite, ao luar!

Se ela agora me amesquinha,
que me apareça sozinha
de noite, ao luar!

Concluindo… caro leitor, o Truca-Truca de Natália inserir-se-á na tradição das cantigas trovadorescas?

[Este texto está também publicado em http://omeubau.net/escarnio-e-maldizer]

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