Cultura e Santidade III: Clarice Lispector

Cultura e Santidade III: Clarice Lispector

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A OPINIÃO de MARIA LUÍSA FRANCISCO
Investigadora na área da Sociologia
luisa.algarve@gmail.com

“Clarice Lispector veio de um mistério e partiu para outro.”
Carlos Drummond de Andrade

Clarice Lispector nasceu a 10 de Dezembro de 1920 e morreu a 9 de Dezembro de 1977 na véspera de completar 57 anos, devido a doença oncológica. O seu país de origem é a Ucrânia e com um ano e dois meses foi com os pais para o Brasil, onde viveu a maior parte da vida. O seu corpo está sepultado no Cemitério Comunal Israelita do Rio de Janeiro.

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Deixou uma vasta obra com contos, romances, novelas e crónicas em jornais. Escreveu em todas as fases da vida, mesmo nas mais dolorosas.

Escolhi esta escritora não só pela coincidência da data do seu nascimento e morte se comemorar perto do dia da publicação desta crónica, mas principalmente porque na sequência das anteriores escritoras sobre as quais escrevi (Etty Hillesum e Edith Stein) Clarice também era judia e vítima de anti-semitismo. Os seus pais fugiram do anti-semitismo do leste europeu.

Clarice Lispector é um dos maiores nomes da literatura brasileira. O escritor e historiador americano Benjamin Moser considera a obra de Clarice a maior autobiografia espiritual do século XX.

Nos livros que li há sempre um enigma. Clarice mostra-nos uma vida em metamorfose constante. A sua literatura é um mergulho profundo nos mistérios da condição do ser.

Não fiquei e creio que ninguém fica indiferente, porque Clarice mexe com o leitor, porque procura uma alternativa com dimensão mística e através da sua transformação interior, leva-nos a uma viagem até ao fundo da alma.

Era isso que eu queria encontrar nela, porque gosto de descobrir a experiência mística, o que facilmente aconteceu nos textos das escritoras que referi nas crónicas anteriores, aliás, são claramente consideradas místicas.

Maria Luísa Francisco junto à estátua de Clarice Lispector no Rio de Janeiro (Foto: D.R.)

Vejo em Clarice Lispector alguém que fez do sofrimento uma iniciação ao mistério espiritual. No último livro que escreveu, já perto de morrer, intitulado A hora da estrela, diz: “Cada dia é um dia roubado da morte (…). Juro que este livro é feito sem palavras. É uma fotografia muda. Este livro é um silêncio.”

Na contracapa dos seus livros publicados na Editora Rocco, pode ler-se: “Uma escritora decidida a desvendar as profundezas da alma. Essa é Clarice Lispector, que escolheu a literatura como bússola em sua busca pela essência humana.”

Clarice Lispector constrói uma obra de carácter tão profundo quanto universal

Há cerca de um ano, depois de ter apresentado uma comunicação na Universidade Federal do Rio de Janeiro, percorri o calçadão de Copacabana até chegar à Praia do Leme. No muro dessa Praia está a estátua de bronze que representa Clarice Lispector, em tamanho real. Sentei-me ao seu lado e fiquei no envolvente silêncio daquele fim de tarde.

Anoiteceu, voltei a caminhar pensando nos passos e nas palavras de Clarice. O que mais me marcou no Rio de Janeiro, por estranho que pareça, foi o silêncio que vivi durante alguns dias.

“Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite”, escreve Clarice em A hora da estrela. Livro adaptado ao cinema.

Um outro livro, esse considerado místico, é A paixão segundo G.H., embora não seja evidente numa primeira leitura, a dimensão mística está lá. Refere nas primeiras linhas: “Este livro é como um livro qualquer, mas eu ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de alma já formada.”

Não foi fácil ler este inquietante livro, em que a personagem principal tem um enigmático monólogo interior.

Há tanto a interpretar nele, que já deu origem a teses de mestrado e doutoramento em várias universidades.

Em Clarice há a procura do Divino, há incursões por temas bíblicos, há um questionar constante, “há claridade (de Clarice) e há espectro luminoso (de Lispector)”!

A obra de Clarice tornou-se conhecida na Europa através da professora da Univ. de Paris VIII, Heléne Cixous, autora do ensaio A hora de Clarice Lispector.

Esta autora refere que Clarice era o que Kafka teria sido se tivesse sido mulher.

O espaço para escrever está aprisionado pelos caracteres, mas Clarice permanece livre no tempo!

Deixo-vos uma das suas frases mais poderosas: Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome”.

(Artigo publicado no Caderno Cultura.Sul de Dezembro)

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