Leitura da semana: Modos de Ver, de John Berger

Leitura da semana: Modos de Ver, de John Berger

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A rubrica Leitura da Semana é publicada semanalmente à terça-feira;
Paulo Serra é doutorado em Literatura na Universidade do Algarve e investigador do CLEPUL

John Berger (1926-2017), crítico de arte, pintor e escritor inglês, é considerado um ícone da contra-cultura e um dos pensadores mais influentes da actualidade. Exilou-se na França rural por mais de meio século como forma de escapar ao capitalismo e aos abusos do governo. Modos de Ver, agora publicado pela Antígona, foi escrito em 1972 e é o seu ensaio mais famoso, escrito na sequência do êxito obtido com a série homónima da BBC, transversal a vários públicos, e quase 50 anos depois permanece uma referência na crítica de arte como objecto de estudo dos académicos. Na «Nota ao Leitor» explicita-se, contudo, que o livro é produto de cinco autores: John Berger; Sven Blomberg; Chris Fox, Michael Dibb e Richard Hollis. Partindo de algumas das ideias contidas na série, aqui aprofundadas, o livro compõe-se de sete ensaios numerados mas que não implicam uma leitura sequencial. Três desses ensaios são visuais, isto é, compostos exclusivamente por imagens de obras de arte e a informação sobre as reproduções surge apenas no final do livro, para não «distrair o leitor do que aí se pretende enfatizar» (pág. 15).

John Berger é considerado um ícone da contra-cultura e um dos pensadores mais influentes da actualidade (Fotos: D.R.)

No primeiro ensaio, um pouco mais genérico, aborda-se a imagem, nomeadamente na pintura, e a forma como esta comunica com o espectador, porque apesar de o acto de ver ser algo natural ao ser humano, e um dos primeiros sentidos a desenvolver, o olhar é um gesto voluntário, reflexivo, e enquadrado por aquilo que conhecemos e em que acreditamos: «Ver vem antes das palavras. Mesmo antes de saber falar, a criança olha e reconhece.» (pág. 17); «Só vemos aquilo para que olhamos. Olhar é um acto de escolha.» (pág. 18)

No terceiro ensaio (dos quatro ensaios compostos por palavras e imagens ilustrativas), aborda-se especificamente a nudez feminina na pintura e como esta serve a fruição estética e sexual de um espectador que se subentende masculino, além de que os produtores dessa arte foram eles próprios homens – seria aliás interessante contemplar a existência ou não de uma nudez no feminino representada por mulheres pintoras.

Livro, escrito em 1972, foi produzido por cinco autores

No sétimo ensaio, analisa-se como a sociedade contemporânea (relembre-se que falamos do início dos anos 70) vive rodeada de imagens como nunca antes aconteceu. A pintura outrora ao serviço das elites deu lugar a uma popularização da imagem publicitária que invadiu o nosso campo de visão e absorvem a nossa atenção mesmo que involuntária ou inconscientemente. É neste último ensaio que se sente a posição crítica de John Berger ao capitalismo e aos valores que passaram a ditar a sociedade, já prenunciados aliás com o mercantilismo e a burguesia que assistiu, e contribuiu, para a expansão da pintura a óleo como forma de representação do património e de um certo modo de vida daqueles que surgem retratados na arte.

Os vários ensaios deste interessantíssimo livro, escrito de forma escorreita, servem para olhar a arte de uma forma diferente da que tem sido prática, e daí a polémica destes ensaios, além de que se reconhece que o espectador ou observador de hoje não pode percepcionar uma obra de arte do modo como esta subentende o seu visionamento, através de pistas que o próprio pintor espalha pela imagem.

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