O centro do mundo, de Ana Cristina Leonardo

O centro do mundo, de Ana Cristina Leonardo

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A OPINIÃO de PAULO SERRA;
Doutorado em Literatura
na Universidade do Algarve;
Investigador do CLEPUL

Ana Cristina Leonardo nasceu em Olhão em 1959. Estudou Filosofia e colabora semanalmente com o Expresso, onde publica uma crónica regular e também faz crítica literária. O centro do mundo é o seu primeiro romance e esperemos que outros lhe sucedam.

O centro do mundo não é biografia ficcionada nem romance histórico, mas sim uma narrativa pós-moderna que conta as desventuras de um herói pícaro em pano de fundo àquela que parece ser a verdadeira heroína do romance, essa vila cubista do Sul da Europa, de seu nome Olhão, onde Boris chega no dia 18 de Maio de 1935, e que será aqui narrada sem lastro nem verniz.

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O primeiro capítulo é um dos mais magistrais exemplos de um romance que se assume logo de início como pós-moderno e que procura escapar a qualquer catalogação ou definição. As primeiras linhas têm um pendor fortemente descritivo, contudo o que se poderia confundir com um guião cinematográfico rapidamente sofre intrusões claramente literárias: «Da floresta chega uma vibração cava e marcial. A cidade, que desperta sob a sua cadência, sabe que a mortandade está próxima.» (p. 11)

As sensações são sobretudo auditivas, à medida que nos aproximamos de Vilnius e da certeza de que algo iminente está para acontecer. Linhas depois, a escrita parece começar a transformar-se e nela incorrem vocábulos mais oralizantes ou populares, como «derribar» ou «pachorrenta».

Quando chegamos à passagem em que se refere como nasce o nosso herói, o registo parece finalmente o de um romance histórico, não fosse o humor e ironia da narradora: «A jovem Elisabeth vomitou toda noite e jurou que nunca teria filhos. Faltou à promessa. Em 1896 vinha ao mundo Boris Michailowitsch Skossyrev» (p. 14)

O centro do mundo é o primeiro romance de Ana Cristina Leonardo (Fotos: D.R.)

As próximas duas páginas mantêm um registo próximo do que se espera de um romance histórico, não fosse a romancista tomar rapidamente as rédeas da narrativa: «E embora em nenhum documento conhecido Boris Skossyreff o tenha incluído na sua genealogia, não há regra romanesca que nos impeça de invocar a favor de tal hipótese as leis de Mendel. Se, como as ervilhas, os homens não escapam à genética nem à geografia, acrescente-se-lhes a ficção e faça-se jurisprudência.» (p. 16)

Instituída com toda a autoridade a voz narratorial, a narradora não resiste a ir piscando o olho ao leitor ao longo de todo o romance: «Suprimidos a benefício do leitor os lances aborrecidos e chegado Boris Skossyreff aos anos de juventude, atalhe-se-lhe um carácter temerário e grande pendor para as línguas.» (p. 16)

Conhecido como Russo de Andorra ou Mano-Rei, de Vilnius, na Lituânia, passando por Inglaterra, Holanda, e Canárias, preso em Andorra, expulso de Espanha, Boris, de passagem para Marrocos, chega a uma povoação piscatória no sul de Portugal que se distingue pelo cheiro e pelas açoteias:

«Apesar da «Nobre indiferença muçulmana pelo autoclismo, o esgoto, a árvore frondosa e a ânsia de ar das ruas novas» de que falava Aquilino dando razão a Boris, e da falta de pergaminhos que já em 1758 era notada pelo prior Sebastião de Sousa, Olhão mantém um lastro de glória. Industriais, pescadores e vates contrabandistas continuam a partilhar o desrespeito pela lei e o culto do Senhor dos Aflitos, numa vila pródiga em dândis e espanholas, estrangeiros e aventureiros, sardinhas e anarquistas, operários e fedor. Tresanda, resume Raul Brandão. Não exagera o simbolista. Ao peixe que apodrece sob o calor africano junta-se a matéria fecal que escorre a céu aberto, húmus pestilento que Captain Zorra nunca conseguiu olvidar, memória primeva que nos conduz, um pouco abruptamente, é certo, a Marilyn Monroe, actriz que nunca veio a Olhão.» (p. 27)

A capa do livro de Ana Cristina Leonardo

Boris cruza-se com personagens igualmente excêntricas, enquanto numa narrativa paralela que conta a história de Olhão se continua, quase em regime de associação livre, a discorrer sobre outras figuras literárias e históricas, criando ligações por vezes declaradamente remotas ou completamente inexistentes, enquanto se traça um retrato de Olhão no centro de uma conturbada Europa ao longo do século XX, num modo de narrar que é irreverente e único, com um humor negro muito particular.

Depois de terminado o romance, contado em 3 partes, e onde não faltam diversas fotografias a ilustrar a narrativa, nas últimas 50 páginas joga-se ainda com a ideia da veracidade da biografia imaginada deste herói pícaro, através de 5 depoimentos em que a autora regista os testemunhos individuais de olhanenses que se cruzaram com Boris.

(Artigo publicado no Caderno Cultura.Sul de Dezembro)

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