As pessoas realmente mudam!

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Susana Santos, professora

Passamos uma vida inteira a parafrasear aquele velho ditado popular pau que nasce torto, morre torto e até parece ter algum fundo de verdade no que confere à aquisição de determinados valores, mas a experiência veio-me a comprovar exactamente o contrário e, aos 39 anos de idade, a minha opinião mudou drasticamente – as pessoas realmente mudam, quando a vida lhes oferece determinados desafios que, como que um sopro de oportunidade, invade as estruturas iniciais de uma consciência há muito denegrida.

Alguém que me é muito próximo e cuja identidade, obviamente, manterei incólume, constitui a prova viva desta minha transformação de concepção: pessoa austera, extremista e de convicções profundamente fundamentalistas e moralistas, centrou o propósito de toda a sua vida focado naquilo que lhe ensinaram e que este acreditava ser a obrigação do comum mortal, isto é, trabalhar de modo a reunir posses que garantissem uma vida estável e um futuro risonho, livre de qualquer preocupação monetária.

A numerosa família que constituiu entretanto, teria de compreender que todas as suas ausências, bem como, a postura autoritária e ofensiva traduziam-se num meio para atingir esse fim e, que um dia mais tarde, lhe seria dada a razão e os reconhecidos agradecimentos por este comportamento. Associada a esta imponência, a sua condição de homem na sociedade exacerbava a obrigação de salvaguardar a integridade e o bom nome da sua descendência feminina o que, no mínimo, condicionou o futuro destas.

Até aqui, tenho-me referido à sua postura com os da mesma espécie, mas e no que se refere aos animais não humanos? Apesar de até simpatizar com animais e ter tido bastantes ao longo da sua vida, escusado será dizer que, lugar de bicho era fora de casa e que único propósito de um cão seria vigiar a casa, o da galinha ou do porco era de servir de alimento. Porém a vida encarregar-se-ia de o fazer-se debater friamente com o seu passado: os filhos seguiram o seu caminho e saíram de casa, os negócios correram mal perdendo grande parte da sua fortuna, a sua leal e submissa esposa faleceu deixando-o sozinho e sem ter em quem desoprimir a sua vida amargurada.

No momento em que a sua esposa foi levada de ambulância para o hospital já em estado grave, por entre os vários choros e gemidos, a cadelinha que ela tanto estimava teimava em seguir a ambulância antevendo a separação da dona – creio que este terá sido o derradeiro momento de viragem na vida deste homem: a imagem da fiel cadela que se recusou em deixar partir a sua dona e que relutou em alimentar-se nos dias seguintes, tal era o desgosto, fizeram-no perceber que afinal a angústia que estava a sentir naquele momento era partilhada também por aquele pequeno ser, e ao que podia constatar, estes também se emocionavam. Levou-a para dentro de casa e cuidou dela com imensa preocupação, como que pudesse através desta, salvaguardar a memória da sua esposa. É incrível como um fugaz instante nas nossas vidas pode mudar-nos desta maneira! A lealdade demonstrada por aquela rafeira tocou naquele instante o seu coração arrasado, ditando um antes e um depois completamente distintos na sua essência.

A partir desse dia, resgatou gatos do lixo com poucas horas de vida, adotou outro cão, aconchega-os todas as noites no seu sofá com as suas mantinhas felpudas e fala do amor que sente pelos seus patudos com uma imensidão tal que chega a emocionar quem o escuta. O olhar deles é imenso, é puro e genuíno; como passei tantos anos ao lado destes seres e sem os ver realmente?! – refere com alguma consternação.

Esta relato serve para nos alertar que as mentalidades não mudam com atos de violência ou acusação, nem acelerará o processo de metamorfose por apontarmos o dedo a quem quer que seja. A transformação ocorre naquelas ocasiões de profunda emoção e sensibilidade e, temos de compreender que o tempo que necessitamos para despertar para uma nova realidade nem sempre é igual para todos.

Sejamos compassivos e altruístas; alimentemos a compaixão pelos demais; ajudemos o próximo a encontrar o seu caminho sem condená-lo, até porque, um dia este poderá surpreender-nos positivamente com a sua capacidade de regeneração!

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