Construtores do Império: uma obra-prima de divulgação histórica

Construtores do Império: uma obra-prima de divulgação histórica

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A OPINIÃO de BEJA SANTOS;
Assessor do Instituto de Defesa do Consumidor;
Consultor do POSTAL

O livro intitula-se “Construtores do Império, Da conquista de Ceuta à criação do governo-geral do Brasil”, por João Paulo Oliveira e Costa e Vítor Luís Gaspar Rodrigues, A Esfera dos Livros, 2017. Tem a maior utilidade o esclarecimento da nota prévia: “Estudo de doze personalidades que viveram nos séculos XV e XVI e que têm em comum o facto de terem contribuído para a construção do Império Português.

Trata-se de uma obra que não é um trabalho académico clássico nem um texto ficcionado. Respeitando integralmente o conhecimento científico sobre os temas e as personalidades abordados, limita-se a transmitir essa informação num formato acessível ao leitor interessado nos temas de História, mas que desconhece os debates entre especialistas e que não está familiarizado com uma linguagem excessivamente técnica”. Na introdução, justifica-se o porquê das escolhas: o infante D. Henrique foi o génio que aproveitou as condições estruturais para desencadear uma revolução imparável, passou-se para lá do Bojador; há que contextualizar o arranque da Expansão a partir da conquista de Ceuta, dando por findo o período de análise a criação do governo-geral do Brasil. Para alguns estudiosos, a questão da escolha suscita várias interrogações, visto haver referência a três períodos imperiais, o do Oriente, o do Brasil e o de África.

Estes autores cingem-se ao primeiro paradigma, é nele que vão intervir, fruto da aventura henriquina, o infante D. Fernando, conhecido por Infante Santo que fica em Fez cativo, nunca os portugueses irão entregar Ceuta, os autores classificam-no como construtor do Império pois o seu sacrifício garantiu que Ceuta, “a chave do Mediterrâneo”, continuasse nas mãos dos Portugueses; a personalidade seguinte é D. Beatriz, neta do rei D. João I e igualmente neta de D. Afonso, filho ilegítimo de D. João I, por via da sua mãe. Tornar-se-á poderosa no senhorio da Casa de Viseu, com domínios na Madeira, Açores e Cabo Verde, ela emerge como a responsável pela consolidação dos domínios atlânticos da Casa de Viseu, fica igualmente na História como a sogra de D. João II e quase septuagenária D. Beatriz era a mãe de D. Manuel I, sempre beneficiando dos produtos exóticos dos negócios ultramarinos onde teve um papel irrecusável.

O leitor interessado pela História do seu país vai sentir-se galvanizado por descobrir nomes que, de um modo geral, não são cimeiros na historiografia portuguesa. É o caso de um capitão flamengo de nome Jos Dutra, teve um papel importantíssimo no povoamento das ilhas atlânticas. Esse mesmo leitor perceberá como Fernão Gomes serviu a Coroa quando contratou com D. Afonso V o exclusivo do comércio da Guiné, local onde nunca terá ido, o seu centro de operações era Lisboa, terá saído do reino para acompanhar o monarca nas suas campanhas marroquinas, passa à história como o responsável pela organização dos negócios ultramarinos. “O período do contrato do arrendamento do comércio da Guiné coincidiu com a descoberta da Mina, o que ficaria ligado ao seu próprio nome, mas o seu maior legado foi a sistematização de processos e o aprofundamento da articulação entre os negócios ultramarinos e os grandes mercados do Atlântico Norte e do Mediterrâneo”.

 

Haverá mais nomes ilustres e referenciados nos livros do ensino secundário como Bartolomeu Dias, Afonso de Albuquerque ou D. João de Castro e outros quase ignorados como D. Vasco Coutinho, ou Bastião Lopes Lobato ou Duarte Coelho, e talvez o leitor tenha ouvido falar em Pedro e Jorge Reinel, autênticos desenhadores de um nome mundo. A viagem de Bartolomeu Dias, entre 1487 e 1488, culminou na passagem do Cabo da Boa Esperança, etapa determinante para a expedição de Vasco da Gama. D. Vasco Coutinho distinguiu-se nas praças norte-africanas, o seu nome está ligado a Arzila; Pedro e Jorge Reinel são sinónimos de um grande salto na cartografia, a sua produção cartográfica consta de arquivos e bibliotecas de entre as mais famosas do mundo pelas suas cartas antigas. Afonso de Albuquerque é o construtor do Estado da Índia, os autores deixam-nos um texto magnífico, bem claro sobre o valor do Terribil, o governador que à beira da morte deixa numa carta o seguinte: “as coisas da índia, elas falarão por mim […]: deixo a Índia com as principais cabeças tomadas em vosso poder, sem nela ficar outra pendência senão cerrar-se, e muito bem, a porta do Estreito”.

É preocupação dos autores chamar a atenção para o esforço de uma imensidão das chamadas figuras menores, é o caso de Bastião Lopes Lobato, ouvidor-geral da Índia. E deixam-nos igualmente um esplêndido retrato de D. João de Castro como cientista, militar e governante, notabilizado na Índia, de todos os construtores terá sido a personalidade mais poliédrica, um verdadeiro humanista, um dotado administrador e um bravo guerreiro. Por fim, Duarte Coelho, que começou como capitão nos mares da Ásia e culminou como colonizador do Brasil. Como observam os autores, “A vida de Duarte Coelho dá-nos testemunho da evolução por que passou o império português durante o reinado de D. João III. Ao contrário das personagens anteriores que tiveram o Oriente como palco principal do seu serviço à Coroa, depois de uma passagem iniciática por Marrocos, Duarte Coelho dividiu a sua carreira entre os mares da Ásia e o Atlântico. Uma vida empolgante de capitão do Oriente, capitão de armadas atlânticas, capitão donatário no Brasil: “Embora nos seus últimos seus decénios de vida Coelho estivesse a contribuir para a afirmação do novo modelo do imperialismo português, ele era um veterano de outras andanças, e sempre viu o poder português afirmar-se pelos confins dos mares sem que a moral cristã tivesse um peso relevante. Vivera um quarto de século num mundo em que conviviam com o odiado Islão e com o Budismo, que só começaram a compreender depois da chegada dos primeiros aventureiros ao Japão. A sociedade pernambucana fundada pelo génio Duarte Coelho assentava no mesmo informalismo civilizacional em que se baseava a propagação da influência lusa pelos mares da Ásia, à exceção de Goa”.

Uma leitura transbordante de emoção, um muito saber de historiadores que asseguram uma aventura pela Expansão Portuguesa.

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