Leitura da semana: Espião na Primeira Pessoa, de Sam Shepard

Leitura da semana: Espião na Primeira Pessoa, de Sam Shepard

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A rubrica Leitura da Semana é publicada semanalmente à terça-feira;
Paulo Serra é doutorado em Literatura na Universidade do Algarve e investigador do CLEPUL

Mais conhecido como actor em cerca de 40 filmes, nomeado para um Óscar em 1984, Sam Shepard foi autor de mais de 40 peças teatrais e de 3 colectâneas de contos. Galardoado, em 1979, com o Prémio Pulitzer, finalista do prémio literário W.H. Smith e foi-lhe atribuído o doutoramento honoris causa pelo Trinity College, de Dublin, em 2012.

A narrativa de Espião na Primeira Pessoa inicia com o narrador a observar um homem de idade, um vizinho do outro lado da rua:

«Não tenho a certeza daquilo que ele está a ver agora, o ar está tão turvo, e também não tenho a certeza daquilo que estou a ver. Se está a falar de si para si ou se está a falar com outra pessoa ou o que está realmente a fazer. (…)

Come queijo e bolachas o dia todo. Chá gelado. Beberrica. Mas tem dificuldade com as mãos e os braços, dei-me conta disso. As mãos e os braços não trabalham muito.» (p. 21)

Sam Shepard foi autor de mais de 40 peças teatrais e de 3 colectâneas de contos (Fotos: D.R.)

Capítulo a capítulo, o leitor percebe que o fio da consciência corre livre, entre memórias soltas, dispersas, incompletas mesmo, até perceber que afinal esse homem no alpendre da casa em frente é afinal o autor que se espia a si próprio. Como quem se vê à distância, como quem procura reencontrar-se, enquanto assiste ao deteriorar do seu corpo cujos gestos lhe fogem e cujo controlo lhe escapa:

«A coisa de que me lembro melhor é de me sentir mais ou menos desamparado e da força dos meus filhos. Um homem numa cadeira de rodas empurrado pelos filhos de um restaurante à cunha para uma rua vazia.» (p. 97)

Esta obra foi publicada um ano depois da morte do autor

Publicado pela Quetzal em Agosto de 2018, um ano depois da sua morte, este livro breve, em pequeno formato (como outros já aqui apresentados), de capítulos muito breves, é a despedida do autor, quase um epitáfio, ou uma revisitação da vida que está prestes a despir. O autor, vítima de Esclerose Lateral Amiotrófica e consciente da sua morte próxima, começou a compor em 2016 os rascunhos iniciais manuscritos, pois já não conseguia dactilografar, até que por fim passou a gravar e depois a ditar o texto, para ser posteriormente transcrito pelas suas irmãs. Ainda chegou a fazer a revisão final do livro com a família e a ditar a sua versão final dias antes de morrer, a 27 de Julho de 2017. O trabalho de edição e revisão do livro foi feito com ajuda da cantora e escritora Patti Smith, antiga amante do autor e sua amiga por mais de 40 anos.

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