Porque acreditamos em Notícias Falsas?

Porque acreditamos em Notícias Falsas?

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As notícias falsas ganharam recentemente um maior destaque (Foto: D.R.)

Considere as seguintes questões: Um café e um pastel de nata custam um euro e dez cêntimos; sabendo que o pastel de nata é um euro mais caro que o café, quanto custa o café? Uma mancha de humidade duplica de tamanho todos os dias; sabendo que a mancha demora 48 dias a preencher totalmente uma parede, quanto tempo demora a preencher metade da parede? Finalmente, imagine que o seu ordenado é reduzido em 50%; porém, apenas dois meses mais tarde, o seu ordenado é aumentado em 75%; após essas alterações, você aufere um maior ou menor vencimento que no início?

Se respondeu “10 cêntimos”, “24 dias” e “maior” às perguntas anteriores, então pode estar em risco de mais facilmente acreditar em notícias falsas (Fake News), de acordo com um estudo recentemente publicado na revista científica Cognition. O artigo, revisto por pares e baseado nos resultados de um estudo pré-registado, sugere que a susceptibilidade para acreditar em notícias falsas se deve não a um viés partidário, como defendido em diversas fontes, mas a uma diminuta propensão para pensar de forma analítica e sujeitar crenças a um escrutínio cognitivo. A investigação, conduzida por Gordon Pennycook da Universidade de Yale, revela uma correlação positiva entre estilo de reflexão cognitiva e veracidade percebida de notícias falsas, independentemente da afiliação partidária do respondente ou do alinhamento político das notícias. Um estilo cognitivo reflexivo e analítico pode ser avaliado com perguntas como as apresentadas acima e que, tomadas no seu conjunto, constituem o Teste de Reflexão Cognitiva (Cognitive Reflection Test). Esse é composto por várias questões cuidadosamente elaboradas para espoletar uma resposta intuitiva, mas incorrecta, a qual deve ser sujeita a um escrutínio cognitivo e corrigida para que possa ser obtida a resposta correcta.

Aos participantes deste estudo foram mostradas sinopses de notícias constituídas por um cabeçalho, uma imagem e um breve resumo, simulando a forma como essas são tipicamente encontradas no mural do Facebook. As sinopses noticiosas poderiam ser ou reais ou falsas e ideologicamente alinhadas com a esquerda, com a direita, ou de cariz não político. Perante cada notícia, os participantes deveriam indicar o seu grau percebido de veracidade bem como até que ponto estariam dispostos a partilhá-la numa rede social. Adicionalmente, todos os participantes responderam às várias questões do Teste de Reflexão Cognitiva. Os resultados revelaram que respondentes que tendencialmente forneciam as respostas correctas ao teste, revelando assim uma maior propensão para reflectir e corrigir a resposta intuitiva inicial, mostravam uma maior precisão na detecção de notícias falsas, quer estivessem ou não em concordância com as suas convicções políticas pessoais.

Este estudo junta-se a vários outros, publicados na última década, que têm revelado que um estilo cognitivo reflexivo e analítico, avaliado pelo Teste de Reflexão Cognitiva, se relaciona com um maior cepticismo, uma menor tendência para abraçar crenças paranormais, teorias da conspiração e “tretas” pseudo-profundas (Pseudo-Profound Bullshit; conforme revelado num trabalho recente, também da autoria de Gordon Pennycook, o qual granjeou um Ig-Nóbel em 2016). Num panorama mais vasto, estes dados têm sido enquadrados na chamada Teoria de Processamento Dual, popularizada pelo psicólogo e nobel da economia de 2001, Daniel Kahneman, no seu livro “Pensar, depressa e devagar” (2011, Círculo de Leitores). De resto, é também a Daniel Kahneman que se deve a formulação original de várias das questões incluídas no Teste de Reflexão Cognitiva. De uma forma breve, a Teoria de Processamento Dual sugere que uma parte significativa do pensamento e raciocínio humanos se funda em processos automáticos, de cariz intuitivo, baseado em heurísticas que sustentam processos cognitivos e decisionais rápidos, ainda que ocasionalmente erróneos e sujeitos a enviesamentos sistemáticos. Estes processos, denominados de Tipo I, cumprem importantes funções adaptativas, pois possibilitam uma resposta rápida e imediata quando tal é exigido pelo contexto – um exemplo seria decidir se se deve ou não tomar a saída da auto-estrada, uma decisão que deve ser tomada em breves fracções de segundo, sem possibilidade de uma ponderação mais cuidada. Não obstante, os seres humanos dispõem também de capacidades cognitivas capazes de reflexões cognitivas mais elaboradas, abstractas e analíticas que, contudo, tendem a ser mais dispendiosas em termos de recursos atencionais e temporais – estes são designados de Tipo II. Diversos estudos conduzidos desde os anos 1980 têm demonstrado que frequentemente as pessoas tendem a privilegiar respostas obtidas por processos cognitivos heurísticos, de Tipo I, mesmo dispondo de tempo e recursos para recorrer a processos analíticos, de Tipo II, observação que tem sustentado a asserção de que os humanos tendem a ser cognitivamente sovinas (Cognitive Misers).

De entre os vários factores que explicam a falha em recorrer a processos cognitivos deliberativos e reflectivos de tipo II contam-se a pressão temporal e a diluição da atenção. Por exemplo, um estudo já clássico de 1993, de Daniel Gilbert, revelou que quando as pessoas dividiam a atenção entre duas tarefas a realizar em simultâneo, mostravam uma maior probabilidade de acreditar em mensagens explicitamente assinaladas como falsas e erróneas. Isto é, perante a mera exposição a uma mensagem (como, por exemplo, o cabeçalho de uma notícia numa rede social), os humanos acreditam à partida na factualidade da mesma (mesmo dispondo de informação de que essa é falsa), sendo necessária a alocação de atenção e processos cognitivos racionais (de tipo II) para que essa crença seja questionada e corrigida. Obviamente, processos de Tipo II estão sob controlo volitivo e o recurso a esses pode ser fomentado, bastando para tal disponibilidade e motivação para despender os necessários recursos cognitivos.

Ainda que tenham existido, de uma ou outra forma, durante todo o século XX, as notícias falsas ganharam recentemente um maior destaque. A generalização no uso de redes sociais facilitou a sua partilha e divulgação com impacto considerável. Mais, a forma como material mediático é apresentado e consumido nas redes sociais tende a privilegiar uma leitura rápida, pouco atenta, e com reduzidos incentivos a uma reflexão mais cuidada e reflexiva. Assim, investigação contemporânea em Psicologia Cognitiva vem enfatizar o já reconhecido conselho: antes de partilhar uma notícia, pare e reflicta sobre o seu conteúdo – esse é plausível? Poderá ser uma notícia falsa?

Para terminar, aqui ficam as respostas às perguntas colocadas no início: Se o café custasse 10 cêntimos e o pastel de nata custasse um euro a mais, então o preço desta última seria de um euro e dez e ambos em conjunto custariam um euro e vinte – a resposta correcta é, assim, “5 cêntimos”; dado que a mancha de humidade duplica de tamanho diariamente e que em 48 dias ocupa a parede toda, então deverá ter ocupado metade da parede no dia anterior – a resposta correcta é, pois, 47 dias; aumentos/diminuições percentuais são sempre aplicados sobre o valor corrente – imagine que recebe €500; uma diminuição em 50% significa que passa a receber €250; o aumento de 75% deve agora ser aplicado aos €250, resultando em cerca de €438 (€250 + 75% de €250).

Nuno de Sá Teixeira

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