Em caso de seca no Algarve, reservas de água garantem até dois...

Em caso de seca no Algarve, reservas de água garantem até dois anos para o consumo humano [fotogaleria]

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O Dia Mundial da Água, que se comemora sexta-feira, 22 de março, foi pretexto para o jornal POSTAL do Algarve organizar um almoço-debate intitulado “Verde Algarve”.

A iniciativa teve o alto patrocínio da prestigiada empresa Águas do Algarve e contou com a participação de nove convidados especiais que lideram instituições públicas e privadas, de pertinente relevância na área do ambiente na região algarvia.

No debate participaram Francisco Serra, presidente da CCDR Algarve, Alexandra Teodósio, vice-reitora da Universidade do Algarve, Fernando Horta, responsável pelo Parque Empresarial de Tavira, Isabel Gonçalves, administradora da Hubel Verde, João Bastos, director-geral da Sun Concept, Jorge Luz, director-geral da Itelmatis Control System, Juan Pablo Correia, diretor comercial do grupo Algardata, Pedro Madeira, sócio-gerente da Frusoal e Teresa Fernandes, responsável pela Comunicação e Educação Ambiental da Águas do Algarve.

Todos juntos, na mesma mesa de refeição em formato de “U”, debateram várias questões relevantes relacionadas com o ambiente na região algarvia. O debate foi moderado pelo jornalista Henrique Dias Freire, diretor do jornal e contou igualmente com a cobertura de Ana Pinto, diretora executiva, e de Stefanie Palma, jornalista, ambas do POSTAL do Algarve.

O almoço-debate, que contou com o apoio da prestigiada empresa Infralobo, realizou-se num ambiente que se quis de proximidade entre o número restrito de convidados e aconteceu na passada sexta-feira, 15 de Março, no Hotel Dona Filipa, em Vale do Lobo, entre as 12:30 e as 16 horas. O sucesso ditou que mais iniciativas dentro deste formato original são para continuar.

Informalmente, o debate iniciou-se entre alguns dos participantes e viu crescer o entusiasmo de todos à medida que as várias questões iam sendo abordadas. No final da refeição, excelentemente bem servida, todos tomaram café e passaram a refletir sobre o tema proposto intitulado VERDE ALGARVE.

Teresa Fernandes, da empresa Águas do Algarve, iniciou a abordagem ao tema da água esclarecendo que “o Algarve teria, eventualmente, condições para garantir o abastecimento de água durante dois anos, caso as atuais reservas de água fossem apenas para uso exclusivo do consumo humano, o que não acontece”.

Ao que Henrique Dias Freire, diretor do jornal Postal do Algarve, salientou ser certo que o consumo humano tem prioridade sobre a agricultura. Em caso de prolongada seca, a agricultura no Algarve entraria em grandes dificuldades, com cenários de grandes falências.

E Pedro Madeira, sócio-gerente da Frusoal alertou, desde logo, para a tragédia que seria, dando como exemplo a dura realidade de um caso pessoal: “falando no abacate, se o mesmo ficar sem água durante três dias no mês de agosto, a fruta que está em cima da árvore vai acabar por cair para o chão. No ano passado, tivemos uma rotura numa sexta-feira à tarde que só foi possível arranjar na segunda-feira de manhã e que teve como consequência ficarmos com os abacates todo no chão”.

Para Jorge Luz, director-geral da Itelmatis, impõe-se uma pergunta quando se fala numa eventual seca prolongada: “Sabemos que há entidades privadas interessadas em investir em centrais de dessalinização da água e não conseguem obter licenciamentos. E porque é que as coisas não acontecem?”

João Bastos, director-geral da Sun Concept disse haver um excelente exemplo de sustentabilidade no Algarve, ao referir-se à Ilha da Culatra “tem planeado fazer uma central de dessalinização da água”.

Com uma abordagem mais académica, Francisco Serra, presidente da CCDR Algarve, partilhou que uma das suas áreas de investigação desde o final do século tem sido o funcionamento dos ecossistemas. E salientou que “nós aprendemos muito através do funcionamento dos sistemas naturais e dos ecossistemas para poder modelar o nosso comportamento. E a minha perceção é que o homem, nesta altura, não conseguirá manter os níveis de desenvolvimento e de vivência do planeta sem continuar a intervir nos ecossistemas, mas poderia fazê-lo com humildade”.

Para Francisco Serra “devíamos calibrar a nossa capacidade de intervir com o exercício do princípio da precaução” e lança uma questão questionando “em que medida é que nós, avançando no conhecimento, não podemos fazer as coisas de maneira diferente para preservar tanto quanto possível o funcionamento dos mecanismos naturais?”

“Falando por exemplo da água, eu fiz a minha tese de doutoramento no ano 2000 e desenvolvi um modelo dinâmico do sistema turístico. Fiz a calibração desse sistema para o Algarve. Tive de monitorizar, por exemplo, o sistema da água. Nessa altura, já existiam os dois sistemas de barragens, o do sotavento e o do barlavento, e já haviam as estações de tratamento de água. Mobilizei a região baseado nessa capacidade de recurso e na capacidade de estrutura desse recurso. Tive em conta as áreas de rega, nomeadamente do barlavento e da Costa Vicentina e estimei os consumos de água para os diversos usos, portanto, águas para golfe, regas e água para consumo humano”.

“Na altura, nós tínhamos como único sistema de abastecimento de água os aquíferos subterrâneos e substituímos o uso dos aquíferos pelo uso da água de superfície, embora a água de superfície concorra não só para usos de consumo humano, como para outros usos, nomeadamente para usos de agricultura. Não sei se a capacidade disponível para a rega está a ser utilizada na totalidade, mas perguntava se numa situação de crise, podemos usar os aquíferos subterrâneos ou os aquíferos subterrâneos têm estado a ser usados para água de rega e outras necessidades secundárias? Ou se simplesmente esses aquíferos são reservas estratégicas de água, que nós podemos vir a utilizar no futuro?

Francisco Serra aproveitou para colocar outra questão pertinente: “temos feito manutenção para, havendo uma emergência, recorrer a essas captações em boas condições?

Água vai ser um dos principais problemas

Das questões levantadas por Francisco Serra, Teresa Fernandes respondeu que “não tenho dúvidas que a água vai ser um dos principais problemas dos próximos anos e das gerações vindouras. Relativamente à disponibilidade de água doce, nós somos um planeta azul onde existe muita água, mas é água salgada”.

Para enquadrar a pergunta feita sobre os aquíferos, Teresa Fernandes referiu que “antes da criação das Águas do Algarve, em 1995, o Algarve era abastecido apenas e exclusivamente por águas subterrâneas. Os municípios faziam as captações exclusivamente em origens subterrâneas, inclusivamente para a agricultura. Essas captações que existiam sofreram intrusões salinas de ordem tal que nós começámos a ter informação de que a água estava a ficar imprópria para consumo humano.

A criação da Águas do Algarve foi também uma resposta, digamos assim, a esse problema gravíssimo que se estava a verificar na região. Criada a empresa Águas do Algarve, foram criadas infraestruturas para fazer face a essa situação. Atualmente, temos como principais fontes de captação da água as barragens de Odeleite e Beliche. E em 2005, devido à situação de seca, construímos a barragem de Odelouca. Odeleite e Beliche são para fins múltiplos: consumo humano e para a agricultura e a Barragem de Odelouca é apenas para consumo humano.

Relativamente às captações subterrâneas, os aquíferos ficaram de tal forma danificados desaconselhando-se as captações de água desta origem, sendo necessário dar tempo para a recuperação dos aquíferos.

A preservação do aquífero é fundamental em caso de necessidade sendo uma reserva estratégica. Para além disso, a agricultura depende ainda desta água. Em caso de seca, quando começarmos a bombar essa água, como aconteceu em 2005, “secamos” tudo aquilo que está à nossa volta e que foi o que aconteceu.

Temos muitos furos em toda a região, cuja manutenção é efetuada e não estão esquecidos. Os furos das autarquias passaram todos para a Águas do Algarve, estão todos mapeados e são alvo de cuidada manutenção para garantir que eles estejam funcionais em caso de necessidade. Alguns destes estão localizados em alguns dos melhores aquíferos da região. Evitamos tirar água, como já referi, para preservar a água enquanto reserva. Todos os furos a nível da região estão em funcionamento. Se for necessário também é um dos recursos que se encontra disponível”.

Já sobre a questão da dessalinização, Teresa Fernandes afirma não ser um projeto que esteja esquecido. “Nós não decidimos sozinhos e a nível governamental, quanto à dessalinização, ainda se está longe de avançar, embora hajam estudos a decorrer. Ainda temos muita água que se perde e há que aproveitar a água de forma útil.

Existem ainda alguns municípios com perdas acima dos 70%”.

Para Francisco Serra “é mais um desafio à criatividade e inovação. Como renovar sistemas complexos de abastecimento de água sem prejudicar o turismo?”

Teresa Fernandes relembra que essa questão das águas não é só ao nível das Águas do Algarve e deixa uma nova questão: “quando é que começamos a refletir em termos de arquitetura das novas construções? Continuamos a ter os nossos autoclismos com água boa para consumo. Até quando? Como é possível que não se vejam estas situações? Como é que nas novas construções não se prevê o reaproveitamento da água da chuva? Estamos aqui a falar num desperdício de água total!”.

Já estamos na era da agricultura inteligente

Na sua intervenção, Isabel Gonçalves, administradora da Hubel Verde, disse acreditar cada vez mais numa agricultura inteligente. “Quanto a mim, toda esta área do ambiente sempre foi muito importante. No local onde eu vivia quando era mais nova, nós fazíamos o reaproveitamento da água da chuva. Tínhamos uma cisterna e tínhamos de cuidar dela e, inclusivamente, na utilização racional dos recursos. Revejo-me muito nisto, porque tem a ver com a génese daquilo que eu vivi, até aos meus dez anos.

Ao nível da utilização racional da água e da energia, não podemos dissociar água e energia, porque para promover a água precisamos de energia, sendo que a água é indispensável.

Hoje em dia os caminhos apontam para aquilo que é a agricultura inteligente.

Eu acredito que no passado se gastava até mais água na agricultura do que hoje em dia regando mais. Porquê? Porque a agricultura está hoje em dia com níveis tecnológicos bastante avançados. Nos dias atuais, utilizamos as tecnologias informáticas, as tecnologias de redes em comunicação e as comunicações via web. Temos informação no momento, como por exemplo, a deteção de pontos de rotura. Hoje em dia, já estamos perante aquilo que é uma agricultura inteligente. Isto para não falar naquilo que é hoje o avançado conhecimento sobre as plantas e de todo o funcionamento das mesmas”.

Ainda referindo-se ao valor do conhecimento, Isabel Gonçalves afirmou que “sempre insisti em pôr o conhecimento dentro da organização e gosto que toda a organização esteja ligada à universidade e às fontes do saber. Nós somos transmissores para as gerações futuras. Não podemos estar aqui a contaminar tudo. Há conhecimento e podemos intervir de várias formas. Li, por exemplo, que o Algarve é a zona que mais se recicla”. Ao que Teresa Fernandes concluiu que “estamos a fazer bem, mas temos que fazer ainda melhor”.

Está em causa a sobrevivência da região

Para Pedro Madeira, “nós temos uma região privilegiada e precisamos que o turismo seja cada vez mais forte e nos traga receitas. Mas precisamos igualmente que a agricultura acompanhe essa evolução e nos traga mais receitas. Precisamos de viver com dignidade. E se calhar vamos ter de abdicar de algumas coisas. A grande questão é: há alternativas às barragens? Se existir vamos aproveitá-las, agora temos de fazer alguma coisa. Não podemos continuar a dizer: se chover temos esta ou aquela possibilidade, porque se a possibilidade se estender muito… ela salga!”

Pedro Madeira alertou que esta questão urge ser pensada com muita seriedade dizendo, “se há possibilidade de aproveitarmos águas residuais, vamos aproveitar as águas residuais. Se as ribeiras trouxerem um pouco menos de sedimentos ao mar, vamos tentar que tragam alguns, porque depois sabemos que essa falta de sedimentos leva a haver menos sardinha; ou então, comemos mais carapaus. Mas alguma coisa temos de fazer porque é a sobrevivência da região. É a sobrevivência do país porque esta situação é transversal ao país.

Por sua vez, Alexandra Teodósio, vice-reitora da Universidade do Algarve, alertou que “a água que chega ao mar não é só necessária à sardinha, é necessária para muitas outras coisas e até para o turismo. Cada vez mais se fala no volume das alforrecas. A nossa costa é privilegiada nesse sentido. Cada vez mais as diferentes espécies de alforrecas estão a chegar de todo o mundo. Nós temos pelo menos 12 referenciadas que não estavam há 20 anos atrás. E estão aqui na nossa costa e algumas são muito urticantes. Os pulsos de água doce, a reduzirem a densidade destes organismos, fazem-nos muito atrativos para o turismo porque há muitas zonas no mediterrâneo que já estão interditas precisamente por causa destes organismos. Nós ainda somos muito privilegiados. A parte terrestre e a marinha estão ligadas por muitas fontes que nós nem imaginamos.

A finalizar esta primeira parte do almoço-debate, Henrique Dias Freire expressou o seu regozijo, em jeito de confissão em alta voz, dizendo: “Meu Deus Henrique, o que é que foste criar hoje? Isto parece um Governo Sombra”.

(Stefanie Palma / Henrique Dias Freire)

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