O Humor é coisa séria: Humor judaico

O Humor é coisa séria: Humor judaico

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António Rodrigues Gomes;
Professor de filosofia

Em outros textos, já me referi a humores nacionais/regionais, como o alentejano ou o espanhol de Lepe ou até (incrível pareça) o alemão… Agora, será o humor judaico. Começo por aqui: há mesmo um humor judaico? No seu livro “Caros fanáticos: fé, fanatismo e convivência no século XXI” (D. Quixote), o premiado e influente escritor israelita Amos Oz, falecido no passado mês de dezembro de 2018, defende que sim.

“Caros fanáticos” é um conjunto de três ensaios (aprecio particularmente o primeiro, com o mesmo título do livro) onde Oz faz a análise do fanatismo (religioso, político, cultural) combinada com a apologia da moderação e aborda a atual situação do Médio Oriente. A páginas tantas do segundo ensaio, Oz procura responder à pergunta “O que cabe na cultura judaica?”; para tal, enumera um conjunto de traços “contraditórios e complexos” que fazem parte da cultura de Israel, incluindo “Talvez também um certo sentido de humor e de gracejo caraterístico, que eu não consigo definir mas que identifico facilmente sempre que o encontro”.

De uma sua lista de personalidades em que não é difícil “identificar uma certa sensibilidade judaica”, destaco Cristo e Karl Marx, os filósofos Espinosa e Hannah Arendt, o cientista Einstein e o escrito Kafka… e alguns humoristas de renome, como os comediantes irmãos Marx e o realizador Woody Allen.

O humor, em geral, alimenta-se de traços que ampliam características típicas de indivíduos ou coletividades (que não raras vezes são estereótipos): basta evocar as imagens do alentejano preguiçoso, da mulher loira… e do judeu. Há séculos que o judeu é considerado um bom comerciante (talvez não um comerciante bom), agiota, que nada em dinheiro e… avareza.

Muitas anedotas rodam em torno desta imagem. Esta pode encontrar-se no sítio da web da Comunidade Israelita de Lisboa:

Samuel encontra-se com o velho amigo Jacob:

– E aí, Jacob, quanto tempo! Como vai, meu amigo?

– Vou muito mal!

– Porquê, Jacob, o que foi que aconteceu?

– Minha mãe morreu na semana passada!

– Não diga! Meus sentimentos! O que é que ela tinha?

– Infelizmente, pouca coisa. Uma casa, duas lojinhas no centro da cidade e um terreninho no interior!

Dentro do mesmo espírito:

– Quanto darias pela minha mulher? – pergunta Moisés a Jacob.

– Pela tua mulher? Nada.

– É tua.

Este livro, de Abrasha Rotenberg, é uma coletânea de anedotas judaicas

A piada anterior li-a em “Anedotas de judeus que o meu pai me contou”, de Abrasha Rotenberg (edição de A Esfera dos Livros); é uma coletânea de anedotas judaicas ou antes (na distinção de Esther Mucznik, vice-presidente da Comunidade Israelita de Lisboa, que escreve o prefácio) de anedotas de judeus: “porque na verdade é de si próprio que o judeu se ri”. Defende-se também no prefácio a tese de que o humor judaico reflete uma determinada filosofia, constituindo um modo de sobrevivência, na medida em que é “uma forma de conjurar a adversidade, de não se deixar destruir pelo sofrimento, de se distanciar do infortúnio. Ao rir, o judeu, indefeso perante a violência, mostra o absurdo das perseguições e afirma o seu direito a viver sem restrições”:

numa história muito conhecida e muito apreciada entre os judeus, quando os nazis perguntam a um judeu alemão quem são os responsáveis pela guerra, este responde calmamente: «Os judeus e os ciclistas.» «Porquê, os ciclistas?», questionam intrigados os nazis. «E porquê os judeus?» remata o judeu…

Uma filosofia humanista:

Durante a Grande Guerra, os soldados russos lutam ferozmente nas suas trincheiras contra o inimigo. De pé, com a espingarda sempre em atividade, procuram um alvo na trincheira que está a uma curta distância, em frente deles. O sargento passeia-se satisfeito com o patriotismo e a lealdade dos seus subordinados, até que de repente descobre que Moisés, o único soldado judeu do batalhão, aponta a espingarda para cima e dirige para lá as balas. “Imbecil! – grita-lhe –, tens de atirar em frente”. “Como em frente? – [responde o judeu] –. Não vê que em frente há homens?”.

Acrescenta Esther Mucznik: “O humor judaico ri de todos – inclusive de Deus”. Recorda que a “própria história judaica inicia-se sob o signo do riso”; refere-se ao patriarca Isaac (cujo nome vem de um verbo que significa rir): quando Deus anunciou a Sara que iria “ter” aquele filho, tanto ela como o marido desataram a rir (de Deus). E o caso não era para menos: Sara tinha noventa anos e o marido, Abraão, cem.

O humor judaico ri de Deus, da religião:

Um rabino, um pastor protestante e um padre católico reúnem-se ecumenicamente, seguindo uma tradição local. Falam de Deus, dos seus paroquianos e da difícil tarefa que se propuseram na terra. Comentam também a sua vida quotidiana: o que fazer com as contribuições dos féis?

Eu – diz o padre – resolvi o assunto desta forma: traço um círculo no chão, pego no dinheiro das esmolas e atiro-o para o círculo. O que fica dentro do círculo é para Deus, o que fica de fora, para as minhas necessidades.

Eu – acrescenta o pastor protestante – faço algo semelhante. Traço um risco no chão e atiro o dinheiro. O que for para além do sinal é para Deus; o que não for é para mim. E você, rabino?

Eu? Eu resolvo diretamente com Deus. Junto todo o dinheiro e atiro-o em direção ao céu. O que Deus quer, guarda-o; o que não quer, deixa cair ao chão e fica para mim.

(Este texto está publicado também em http://omeubau.net/humor-judaico)

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