O mistério da Primavera

O mistério da Primavera

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A OPINIÃO de MARIA JOÃO NEVES Ph.D
Consultora Filosófica
filosofiamjn@gmail.com

A Sagração da Primavera (Le Sacre du Printemps) do compositor russo Igor Stravinsky estreou a 29 de Maio de 1913 no Teatro dos Campos Elísios em Paris. Os Ballets Russes de Sergei Diaghilev apresentaram no seu máximo esplendor a coreografia de Vaslav Nijinsky e a música de Stravinsky. Em Mestres da Música podemos encontrar uma descrição deste histórico debutar: “logo após os primeiros compassos, a sala rebentou num violento confronto entre defensores e detratores daquela música.

Uma senhora esbofeteou um jovem que pateava, o que deu origem a que o jovem e o acompanhante da referida senhora se desafiassem para um duelo; a condessa Portalós foi vista a gritar do seu camarote que, em sessenta anos, nunca ninguém tinha zombado dela como naquele dia. Stravinsky, nos bastidores, viu Nijinsky que, de pé em cima de uma cadeira, gritava uns números a uns bailarinos que estavam em cena para que pudessem interpretar a coreografia, apesar de que, dada a algaraviada geral, não se conseguia ouvir a música”.

O espectáculo foi recebido com indignação e tumulto tanto pelo público como pelos críticos. Camille de Bellaigue escreveu que a composição era “qualquer coisa de bárbaro, um esforço para derrubar toda a civilização musical”! Outros críticos referiram-se-lhe ironicamente como “le massacre du printemps” (o massacre da primavera). Afinal, que fizeram Stravinsky e Nijinsky de tão escandaloso?

Nesta composição cujas dissonâncias, assimetrias e politonalidades foram levadas a um extremo até então desconhecido, a Primavera não aparece como chilrear de passarinhos, desabrochar de flores e amor no ar…

Em La Grande Revue num artigo de Junho de 1912 tentou preparar-se o público para este ballet religioso que estrearia no ano seguinte: “é a vivacidade eterna da terra que inspira esta música e leva o frenesi triunfante ao ponto do terror; então, no inquieto silêncio da noite, há uma longa perseguição na escuridão, a captura, a homenagem à vitima escolhida, e, finalmente, a mediação que precede o sacrifício libertador”. Apelida-se a música de Stravinsky de “super- -humana” por conseguir revelar os poderes elementares, “os labirintos, os remoinhos, os clamores, as vozes distantes, a respiração das coisas vivas, as emoções do espaço, a agitação, o êxtase, as iniciações cruéis e as celebrações misteriosas”. Finalmente conclui-se que com as ousadas inovações musicais de Stravinsky o culto da natureza “encontrou a sua liturgia”. Contudo, não apenas a música mas sobretudo a coreografia originaram as maiores hostilidades!

A Sagração da Primavera, de Stravinsky, estreou a 29 de Maio de 1913 no Teatro dos Campos Elísios em Paris (Foto: D.R.)

Cerca de um ano após a estreia, em La Revue Musicale, consta que A Sagração da Primavera era agora ouvida e vista num silêncio respeitoso e acolhia aplausos sem fim. Todos, sem excepção, reconheciam o seu poder e virtuosismo inédito. Stravinsky é então considerado o grande mestre dos sons e do ritmo, capaz de escolher e conjugar timbres de tal maneira que todos os ruídos da natureza são evocados. “São os terrores da noite, um leve toque de asas, os gritos, os lamentos no espaço, o rosnar de monstros, galopes implacáveis, animais que rastejam, sobressaltos, indícios de agonia, lutas, angústia, delírios, prostrações, triunfos sangrentos, e a indissolúvel união de vida e morte”.

O efeito do inovador ritmo stravinskiano é descrito como um furacão capaz de desnudar a alma, romper-lhe os escrúpulos, a modéstia, o controle. “É embriaguez, êxtase, aniquilação, e quando a música pára, a audiência está para lá de si própria, presa de um entusiasmo que só poderia ser melhor descrito como pânico”.

Com A Sagração da Primavera de Stravinsky podemos sentir na carne as palavras que Nietzsche escreveu em A Origem da Tragédia ao referir-se à independência da música da imagem e do conceito. “Na sua liberdade plena a música não precisa nem de um nem de outro, apenas os tolera”. Neste livro, Nietzsche, que era filólogo de formação e levou uma vida dedicada ao estudo da linguagem, rende-se à inexorável superioridade da música afirmando que é impossível à linguagem esgotar o simbolismo universal desta. Escreve que a música é “expressão simbólica do antagonismo e da dor universais que estão no coração do Uno primordial, superior a todas as aparências e anterior a todos os fenómenos”.

Com as sonoridades da Sagração somos como que transportados para um ritual dionisíaco no qual o êxtase arrebatador surge perante a falência do princípio da individuação. Após a beberagem narcótica, assenhora-se a embriaguez e é a entrega “à força despótica da renovação primaveril”. É a “exaltação dionisíaca”, através da música e da dança, é a aniquilação, o total esquecimento de si próprio.

Pensar poeticamente implica “repartir bem os jogos pelas entranhas” (Empédocles), ou “dar um pouco mais de luz ao sangue” (Cervantes). Trata-se da descida aos “infernos da alma” (María Zambrano), às raízes do humano, às entranhas – esse fundo obscuro onde padece o ser escondido sonhando. Desentranhar-se. Será este, afinal, o mistério da Primavera?

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(Artigo publicado no Caderno Cultura.Sul de março)

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