A arqueologia fluvial e marítima do Algarve

A arqueologia fluvial e marítima do Algarve

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Brígida Baptista;
Arqueológa náutica e subaquática

A posição privilegiada da costa algarvia virada ao Atlântico, proporcionou desde a Antiguidade condições ideais à implantação de povos, que a partir do litoral se expandiram pelo território. A sua distinta paisagem cultural marítima, com um barlavento de arribas recortadas e um sotavento de ilhas-barreiras, deu ao Algarve um papel crucial como zona de passagem e confluência de povos numa ligação entre o Atlântico e o Mediterrâneo

Ao longo da costa implantaram-se, desde a Pré-História, povos que construíram importantes complexos portuários, marítimos e fluviais, dando origem a algumas das importantes vilas e cidades, tanto do barlavento algarvio, como Sagres/Vila do Bispo, Lagos, Portimão e Silves, como do sotavento, de que são exemplo Loulé, Quarteira, Faro, Olhão, Tavira, Cacela, Vila Real de Santo António, Castro Marim e Alcoutim.

A arqueologia em meio terrestre tem contribuído para o conhecimento da história destas cidades, porém exclui-se muitas vezes a ligação destes espaços com a sua envolvente marítima e no papel que as “estradas líquidas” tiveram no desenvolvimento destes territórios. O contributo da arqueologia náutica e subaquática é neste sentido crucial para este conhecimento. Contudo, é ainda reduzido o número de estudos e de investigadores debruçados sobre a história marítima e fluvial do Algarve.

Os primeiros trabalhos de arqueologia náutica e subaquática no Algarve iniciaram-se na década de 80 do século XX, com uma equipa do Museu Nacional de Arqueologia, em Salema, Vila do Bispo, com as primeiras intervenções no sítio de naufrágio do L’Ocean, um navio-almirante francês naufragado em 1759. Em 1993, foi criado neste mesmo sítio o primeiro Itinerário Arqueológico Subaquático português que permitiu o usufruto pela visita dos mergulhadores desportivos ao local. Já ao nível da identificação de sítios arqueológicos, a partir de 1995 o IPPC e o Museu Nacional de Arqueologia iniciam a constituição do primeiro esboço da Carta Arqueológica Subaquática portuguesa (1999) com a criação do Centro Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática (CNANS), fazendo aumentar o número de sítios identificados ao longo de toda a costa algarvia. Esse número ascende hoje a cerca de duas centenas de registos de vestígios, entre naufrágios, achados fortuitos, espólio e referências históricas. Porém, existe uma significativa discrepância entre os sítios identificados na região do sotavento e os identificados a barlavento, este último com um número superior de vestígios identificados. Destacando- se assim os concelhos de Vila do Bispo, Lagos e Portimão.

O rio Arade, a barlavento, é uma das zonas mais estudadas, com grande destaque para o seu antigo complexo portuário do Algarve. A investigação e os trabalhos arqueológicos subaquáticos nesta zona têm sido quase em contínuo desde as primeiras ocorrências arqueológicas registadas na década de 70 do século XX até aos dias de hoje. É neste estuário que decorre o único projeto de investigação registado de arqueologia náutica e subaquática no Algarve pelo CHAM (Centro de Humanidades) da Universidade Nova de Lisboa intitulado “Um complexo portuário milenar no Barlavento Algarvio: a arqueologia do estuário do rio Arade”.

Outros importantes exemplos são o de Quarteira Submersa (1999) e a Carta Arqueológica Subaquática do Concelho de Lagos (2006-2010). No sotavento, esta arqueologia traduz- -se em achados fortuitos recolhidos a grandes profundidades por pescadores, estando os trabalhos científicos quase exclusivamente ligadas a ações de salvaguarda patrimonial, prévios às obras portuárias, o que raramente se traduz em investigações ou publicações científicas. Para além do património cultural marítimo e subaquático, não devemos descurar, no âmbito do património cultural marítimo, o que está ligado às vivências das comunidades ribeirinhas e ao património imaterial.

Neste imenso potencial de herança cultural, é importante fomentar não só a ligação da comunidade científica com as comunidades piscatórias, como fomentar o diálogo, a troca de informação e a valorização histórico- patrimonial dessas mesmas comunidades.

E porque, só conhecendo podemos valorizar e proteger o que conhecemos ,consideramos ser crucial que haja mais interesse dos investigadores sobre os temas do mar. São hoje de fomentar os estudos multidisciplinares que podem de algum modo contribuir para uma melhor reconstrução da paisagem marítima algarvia e conhecimento da importante herança cultural e patrimonial marítima do Algarve.

(Artigo publicado no Caderno Cultura.Sul de abril)

(CM)

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