Alerta para a violência

Alerta para a violência

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Sónia Pires;
Jurista e co-coordenadora do Grupo de Cidadã(o)s “Por uma Tavira MAIS Amiga dos Animais”

Nos tempos que correm, em grande parte devido à criminalização destes factos no ordenamento jurídico português, são noticiados casos de atos de violência perpetrados por pessoas a outras que lhe são próximas e correm informações na comunicação social e nas redes sociais sobre maus tratos e abandono de animais.

Estas notícias que nos fazem vezes sem conta tremer de assombro seja pela proximidade do agressor com a vítima e a vulnerabilidade desta última, pela premeditação da pessoa agressora e pelos pormenores com requintes de malvadez, não estão de forma alguma dissociadas e devem ser observadas numa abordagem sistémica.

A violência sobre animais não humanos é grave e censurável, mas também é um indício de que aquelas ações podem escalar de amplitude e serem dirigidas a pessoas humanas ou de que, em paralelo, alguém mais está a ser vítima no contexto de intimidade familiar do agressor.

Diversos estudos têm vindo a documentar a existência de uma forte relação entre os maus tratos a animais e a violência sobre as pessoas, ao que se chama teoria do Link (The Link).

Os maus tratos contra animais são um dos indicadores da existência de violência doméstica, até porque os animais também são vítimas da violência doméstica.

Os animais de companhia são considerados membros da família, por isso, em famílias onde pode existir violência sobre pessoas também podem existir maus tratos a animais e o inverso também é verdade.

No contexto de violência doméstica, sabe-se que os animais não são só vítimas como também são utilizados para infligir sofrimento a outrem humano, ou seja, diversas formas de ameaça ou agressão sobre os animais de companhia são um dos meios utilizadas pelo agressor para controlar as suas vítimas humanas.

Mais, conforme documentado em alguns estudos, as vítimas de violência doméstica, em maioria mulheres, afirmam que um dos motivos para não terem saído de casa prendia-se com o facto de não quererem deixar para traz os seus animais de companhia, pois não conheciam locais onde pudessem ser acolhidas levando consigo esses membros das suas famílias, que corriam também eles perigo.

A violência sobre animais manifesta-se em várias formas, como é consabido, por ação ou omissão, agredindo, lesando fisicamente bem como privando de alimentação, abrigo ou cuidados médico-veterinários.

Os relatos ou suspeitas de maus tratos a animais devem ser levados com muita seriedade por todos e todas nós, trabalhemos ou não nesta ou em áreas conexas e, em vez de virarmos a cara para outro lado desejando que seja “apenas impressão nossa”, ao atuarmos ou denunciarmos a tempo, podemos salvar a vida não só àqueles animais, mas a outras pessoas que com eles coabitam.

A violência sobre animais é um flagelo da sociedade e contra toda a sociedade, pois não são só eles as únicas vítimas e neste sentido, em todas as esferas de intervenção possível, deve ser objeto de melhor preocupação e atribuída maior importância.

Alertando para estes factos, um projeto norte-americano aborda esta problemática e tem sensibilizado e encorajado a população em telefonar para as autoridades quando suspeitam de maus tratos a animais, de forma quebrar o ciclo de violência e a reduzir casos de violência doméstica.

Um projeto que vale a pena conhecer em www.spotabuse.org e que apresenta um vídeo de campanha simples e curto mas com a mensagem mais clara possível.

Veja o vídeo da campanha AQUI.

(CM)

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