Fernandinho: realidade de um sem-abrigo sem teto há 20 anos em Faro

Fernandinho: realidade de um sem-abrigo sem teto há 20 anos em Faro

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Eram três e meia da tarde quando o POSTAL foi ao encontro do Fernandinho. Estava sentado à porta do cemitério de Faro, o seu porto de abrigo. Fomos perceber o que o senhor Fernando tem de tão especial para ser tão adorado por todos.

Recebeu-nos com um boa tarde e uma boa disposição fora do comum. Deu-nos confiança e fez-nos querer ficar a ouvir a sua história.

Fernando Manuel da Silva Afonso, natural de Odemira, tem 59 anos e vive nas ruas há mais de duas décadas. É do Sporting desde pequenino, sem esquecer o seu clube do coração: o Farense! Em tempos, foi pasteleiro no hotel Atlantis em Vilamoura. Quando questionado acerca do álcool, Fernandinho disse que, “isso faz mal… mas passo tanto tempo sozinho que acaba por ser a minha única companhia”.

Passou alguém e deixou-lhe uma moeda. O Fernandinho agradeceu fazendo uma reza à sua maneira. Percebemos que ele não o fazia apenas com alguns, mas com todos aqueles que o ajudavam.

Fernandinho contou-nos o seu dia-a-dia

Foi com a sua simpatia e  simplicidade que nos foi contando um pouco do seu dia-a-dia. “Às 10 horas vou comer qualquer coisa ao CASA (Centro de Apoio aos Sem Abrigo). Depois venho para o cemitério e estou aqui até à hora do almoço. A seguir vou até ao mini preço e vejo se consigo comer um bolinho e depois volto para aqui até às 17:30 horas. A seguir vou para o hospital”, respondeu Fernando Afonso.

Fernando diz que tem muitos amigos e que sabe quem o ajuda e quem quer ajudar. É feliz. Nota-se na sua expressão e maneira de estar, no entanto as suas noites nem sempre o são. “Uma vez expulsaram-me [outros sem-abrigo], empurraram-me, bateram-me e atiraram-me com pedras. Outras vezes, vou guardar comida e roupa que os amigos me dão atrás de uns caixotes do lixo e depois roubam-me. Roubam-me tudo”, desabafou o ex-pasteleiro.

Contou-nos que o seu maior sonho não era ter um carro nem uma mulher bonita, mas sim um teto para morar. “Eu não durmo. Descanso… Eu gostava de ter um teto, de conseguir dormir numa casa… eu, ou durmo nos bancos do jardim ou nos bancos das urgências do hospital”.

O POSTAL decidiu apoiar Fernando com alguns alimentos

O POSTAL ficou sensibilizado com a situação e decidiu contribuir com alguns alimentos. No final, depois de lhe mostrarmos tudo o que havíamos comprado, o Fernandinho abriu o saco que tinha consigo, tirou uma boneca e disse: “Encontrei-a ao pé de uma árvore. Tomem”. Um gesto simples, no qual o senhor Fernando ofereceu a única coisa que trazia consigo.

Ao despedir-se, o Fernandinho pediu-nos para voltarmos dizendo “estou sempre aqui, voltem sempre que quiserem. E se eu já cá não estiver é porque já me mataram…”.

Apesar de toda a sua história, ele não deixa que o seu destino e que os dissabores da vida o dominem. Isto é visível na sua forma de viver e de estar com os que o rodeiam. Fernando transmite uma energia contagiante, que nos inspira a ser mais e melhor.

(Eunice Silva / Henrique Dias Freire)

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