Sandra Matinhos e Fernandinho: Amor, reciprocidade e partilha

Sandra Matinhos e Fernandinho: Amor, reciprocidade e partilha

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“Conheci o Fernandinho numa saída que fiz propositadamente para encontrar sem-abrigos na cidade de Faro. Depois ter lutado contra um cancro senti um apelo muito grande para ajudar pessoas que se encontrassem em situação de vida muito delicada. Então, na manhã do dia 1 de dezembro de 2013 saí de casa e fui palmilhar algumas ruas da cidade. Acabei por ir à porta do cemitério a fim de procurar alguém que pudesse lá estar a pedir dinheiro ou comida. E foi aí que o encontrei”, começou por dizer Sandra Matinhos ao POSTAL.

Sandra Matinhos, de 46 anos, é uma presença assídua na vida de Fernandinho. Acompanha-o há cinco anos. Quando o encontrou Sandra disse que, “fui dar com ele deitado no chão, muito sujo e com as roupas todas rasgadas. Estava embriagado, tinha fome e estava com a pele do rosto muito vermelha e os pés e mãos muito inchados”.

Para além de ajudar, Sandra deixou-se envolver. Criou laços, que acabaram por desgastá-la tanto física como psicologicamente. Assim, e de forma a proteger-se a si mesma, afastou-se daquela realidade, no entanto, nunca deixou de prestar apoio e ajuda.

Caminhar ao lado do Fernandinho tem sido um verdadeiro carrossel de sentimentos

Juntos, Sandra e Fernandinho, constroem histórias, criam memórias e experiências que nos marcam enquanto pessoas e seres humanos. “Tenho vivido momentos muito bonitos, emotivos, sofridos e de angústia… Caminhar ao lado do Fernandinho tem sido um verdadeiro carrossel de sentimentos e, em simultâneo, uma grande aprendizagem. Este senhor para mim não representa somente ser o Mestre mas representa também a Escola, uma verdadeira escola da vida!”, desabafou.

A vida não é apenas feita de necessidades básicas como comer, beber e tomar banho. Proporcionar momentos e partilhar amor e carinho sem esperar nada em troca também faz parte da essência que torna o Homem especial e diferente de qualquer outro ser. “No primeiro aniversário dele, após nos termos conhecido, organizei um almoço com alguns amigos que me davam apoio nesta minha causa. Então, nesse dia, levei-o ao banho, cortei-lhe o cabelo e a barba, vesti-lhe roupas novas”, contou Sandra ao POSTAL. Acrescentou, ainda, que “antes do almoço, levei-o a ir ver o mar na Ilha de Faro. Coisa que ele me disse que não fazia havia muitos anos… Depois, fomos almoçar a um restaurante onde lhe foi oferecida uma verdadeira festa com direito a abrir prendas, a ser-lhe cantado os parabéns, a soprar velas de um bolo de aniversário e, naturalmente, a receber muito carinho e respeito de todos nós”.

Fernando sentia-se um homem invisível na sociedade

Fernando sentia-se um homem invisível na sociedade. Sem documentos, sem teto, sem nada que fosse dele. Sandra levou-o a fazer um cartão de cidadão sendo que, ela e o seu marido, tornaram-se testemunhas para o efeito.

Ao mesmo tempo, e ao longo destes cinco anos, Sandra Matinhos já levou o Fernandinho para diversas instituições de forma a tratar o seu problema com o álcool. “Mas, infelizmente, o Fernandinho após algum tempo de estar ausente das ruas começa a manifestar vontade de sair”, disse ao POSTAL.

No entanto, esta relação não é apenas feita de boas experiências. “O pior momento de todos que vivi com ele foi o de o ir buscar a uma instituição, em Beja, e vir deixá-lo na rua à porta do cemitério. Recordo-me que eu chorava e ele consolava-me dizendo para não ficar triste pois ele estava feliz, sentia-se novamente livre. As suas palavras ainda ressoam dentro de mim: ‘Não chore senhora, não chore!’”.

A 31 de janeiro de 2019, o episódio voltou a repetir-se, porém desta vez, a opção de voltar a ter o céu como teto não foi uma opção de Fernando. Sandra contou ao POSTAL que, “ após três meses de internamento, devido a um acidente grave de atropelamento, o senhor teve de voltar para as ruas. Neste caso em concreto não foi porque ele assim o quisesse. Mas sim, porque não houve resposta de nenhuma entidade que eu tivesse contactado a fim de lhe ser arranjada uma solução de guarida. Mais uma vez, participei neste lamentável episódio e fiquei de coração destroçado!”.

“A minha relação com o Fernandinho define-se muito simplesmente a isto: é de puro amor”

Foram várias as vezes que a solidariedade e afeto de Sandra para com Fernando falaram mais alto. Desde sair de casa em manhãs chuvosas de domingo para lhe levar um termo de leite quente e uma sandes, a sair de casa de pijama nas noites frias de inverno para lhe levar uma sopa e uns agasalhos. “O que mais me surpreende é que, apesar de estar sujeito a estas condições tão agrestes, nunca encontrei este senhor revoltado ou mal disposto, quer comigo ou com a vida”, contou Sandra ao POSTAL.

Não é fácil descrever a relação destas duas pessoas. Uma relação em que se dá o que tem e nada mais se espera em troca. “A minha relação com o Fernandinho define-se muito simplesmente a isto: é de puro amor. Não me pergunte o como nem o porquê, nem eu própria o consigo explicar, só sei que tenho uma grande admiração e respeito por ele e que sinto muito gosto em o ajudar. Não o sinto como um dever, mas sim como uma missão de vida!”, disse a amiga de Fernando.

Quando questionada acerca do senhor Fernando, Sandra respondeu: “O Fernandinho é um homem muito bem-disposto, está sempre a sorrir e tem um sentido de humor muito apurado. É um senhor com valores morais, humilde, vive com grande sentido de gratidão, muito sentimental e sensível. E que, apesar de ser uma franja da sociedade, não vive à margem dos problemas”. Sandra acrescentou, ainda, que “ele questiona sobre as coisas e interessa-se em saber, e eu faço questão em explicar-lhe tudo, nem que para isso tenha de as repetir vezes sem conta, embora, infelizmente (ou felizmente), a sua memória faça-lhe o favor de se esquecer de tudo muito rapidamente. O que ele retém é muito pouco, o que o acompanha são somente nuances das memórias do seu passado e pouco mais”.

A paixão por ajudar traduziu-se na fundação da Associação Partilhas e Cuidados

A paixão por ajudar e querer fazer mais e melhor para os outros e pelos outros traduziu-se na fundação de uma associação de solidariedade: Partilhas e Cuidados. “A Partilhas nasceu precisamente do trabalho de voluntária que fiz ao Fernandinho e a um outro sem-abrigo que se chamava Custoidinho”, contou Sandra, fundadora da associação.

A Associação Partilhas e Cuidados tem como objetivo adquirir bens alimentares e de higiene para doar a quem mais precisa. Ao mesmo tempo, o apoio a doentes oncológicos nas mais diversas variantes é, também, um dos pilares desta associação. “Na Partilhas, o acolhimento é feito na globalidade do Ser, desde o cuidar do físico, amparar e curar a dor emocional, ajudar no equilíbrio psicológico e, não menos importante, alimentar o espírito através da esperança”, avançou Sandra.

Ao concluir, Sandra Matinhos deixou um apelo: “A todos que o acompanham ou que de longe assistem ao desenrolar da sua vida, peço que não o vejam como um desgraçado, mas sim como um homem que vive a vida da maneira que sabe e pode. Aceitem-no sem julgamento, perdoem-lhe algumas falhas e, ao passarem por ele, cumprimentem-no com alegria e tratem-no pelo seu nome. Ele gosta muito de se sentir de igual para igual, afinal, é o que ele é perante todos nós!”

(Eunice Silva / Henrique Dias Freire)

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