Montechoro, Albufeira, Lagos, Sagres (1)

Montechoro, Albufeira, Lagos, Sagres (1) [fotogaleria]

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A OPINIÃO de BEJA SANTOS;
Assessor do Instituto de Defesa do Consumidor;
Consultor do POSTAL

Tratava-se de uma visita de cortesia, grandes amigos vinham do condado de Oxford com filhos e netos, impossível não descer ao Algarve para os abraçar e estar ali uns dias em bom convívio. Tinham escolhido um hotel denominado Júpiter, em Montechoro. Logo à entrada, deu para ver que era o Hotel Montechoro onde ocorrera, uns bons anos atrás, um assassinato inacreditável, que assim passou à História.

Em Abril de 1983, à saída do Hotel Montechoro em Albufeira, no decorrer de um congresso da Internacional Socialista, Assam Sartawi foi barbaramente assassinado por um comando extremista palestiniano da Organização Abu Nidal. Médico e político palestiniano, Sartawi foi fundador da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) em 1967, e membro do seu conselho de guerra. Na qualidade de conselheiro de Arafat para as questões externas, advogou o diálogo com a esquerda israelita. Impossível não fotografar o local do crime, há várias décadas atrás.

 

O visitante faz-se acompanhar de um livro de um grande poeta algarvio, Nuno Júdice, alguém que vai bramando contra as destruições desse Algarve que tem serra, figueiras e amendoeiras, uma costa esplêndida, com um recorte único, onde uma ganância descontrolada produziu estragos, talvez irreparáveis. O livro chama-se “A Geografia do Caos”, é um libelo onde não se esconde a amargura por ver partir casario, por ver amontoadas monstruosidades em cima de falésias, centros históricos praticamente desfigurados. E ele escreve, com a nostalgia da identidade perdida:

“Aqui houve bosques, colheu-se o figo
e apanhou-se amêndoa, e nas eiras as mulheres
trocaram segredos e histórias, enquanto as suas
mãos se dedicavam a fabricar cestas e
esteiras. A cabeça de pedra guarda essa
imagem, que se manteve inalterável enquanto
um glúten de lágrimas juntou os pobres
no caminho comum do Inverno (…) ”

Eis a praia de Albufeira, quem aqui exibe o corpo ao sol, vindo de Narkiv, Helsínquia, Manchester, não faz a menor ideia do que se lapidou para tornar os lugares infinitos centros comerciais de grelhados, recordações de fancaria, bifanas e churros, turismo para múltiplas posses, muitas casas de álcool pelo caminho. E, no entanto, esta nesga de mar numa fresta de colinas é de uma beleza inexcedível.

 

 

Sobe-se para a velha Albufeira, irresistível não entrar na Igreja da Misericórdia, tem pequeno museu. O viandante fixou-se em duas peças, foi atraído pelo insólito, aquele Cristo em Ressurreição ou está na moda, corresponde a estes tempos de musculação e temos aqui peitorais vigorosos, ou então o artista que desenhou o modelo para a azulejaria não quis a identidade de género, seja o que for é uma peça admirável; e Nossa Senhora da Piedade, provavelmente do século XVI, indicia um panejamento barroco, pode ser arte tosca, saída das mãos de um santeiro anónimo, mas aquela mão acariciadora vale por mil palavras.

Volta-se a Nuno Júdice, poeta de grande mágoa, de saudade contida:

“As casas são como as casas sempre foram. Por baixo
dos prédios, onde há lojas e garagens, as casas estão,
sempre, abrindo a quem só vê prédios, lojas e
garagens, as portas que dão para um chão de
tijoleira gasta, onde cadeiras e bancos rodeiam a
mesa de madeira velha, onde já ninguém se
vai sentar. Mas se nos sentarmos nessa
mesa que não existe na casa que já não há,
alguém nos acompanha, falando dos prédios,
lojas e garagens que escondem aldeias
e vilas feitas de casas que são como as casas
sempre foram, mesmo que essas casas só
existam para quem, olhando prédios, lojas e
garagens, entra na casa que ali esteve, pisa o
chão de tijoleira gasta, puxa um banco para
o pé da mesa, e se senta, como se essa casa ainda
existisse, e alguém viesse do fundo da casa,
com uma bilha de água, refrescar a memória
de quem vive entre prédios, lojas e garagens,
como se estivesse numa casa que fosse
como as casas sempre foram”.

O viandante vai ao Posto de Turismo, quer o mapa da cidade, conhecer os locais dignos de visita. O texto é encomiástico, como se impõe: “Céu, mar, areia macia e dourada. Em seguida, uma falésia ocre coroada pelo branco faiscante das casas. Perspetiva de Albufeira que fica na memória de quem a visita”. Por aqui passaram romanos, o centro de pesca é ancestral, existiram explorações mineiras. Albufeira é nome árabe, prosperou a sua agricultura e o seu comércio com o Norte de África. Em 1250, virou-se a página, tornou-se Portugal. Tem igrejas, uma ermida e sobressai a sua Torre do Relógio.

Vai escurecer, volta-se para o que foi o Hotel Montechoro, um dos temas de conversa serão as férias em 2020, imagine-se, o viandante está ansioso por voltar a lugares de culto e pôr o pé no mar da Irlanda, agora é pôr a conversa em dia, amanhã saem em grupo, alguém fica com as crianças na piscina e centro de diversões, os mais velhos querem perceber o fascínio de Albufeira para os ingleses.

(continua)

(CM)

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