I Congresso Internacional em Portugal sobre a escritora Etty Hillesum

I Congresso Internacional em Portugal sobre a escritora Etty Hillesum

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A OPINIÃO de MARIA LUÍSA FRANCISCO
nvestigadora na área da Sociologia
luisa.algarve@gmail.com

Depois de ter escrito sobre esta escritora e sendo sua leitora, não poderia deixar de participar no primeiro Congresso Internacional sobre Etty Hillesum, que se realizou em Lisboa.

Foram dois dias (18 e 20 de Maio) em dois locais diferentes com registos distintos e muito intensos. A organização coube ao Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. O primeiro dia, na Capela do Rato, contou com a presença de D. José Tolentino Mendonça, o português que mais deu a conhecer a obra da escritora e mística no nosso país, tendo escrito o prefácio do Diário publicado pela editora Assírio & Alvim.

A holandesa Esther Hillesum, mais conhecida por “Etty”, redigiu várias cartas e oito cadernos que viriam a ser o seu Diário. Nesses textos descreve as suas inquietações e reflexões espirituais, bem como as perseguições do nazismo aos judeus em Amesterdão, de que foi vítima, ao ser deportada e morta no campo de concentração de Auschwitz, em 1943, com 29 anos.

Arte e Cultura na abertura do Congresso

Luís Miguel Cintra e Maria Rueff participaram com a leitura de textos extraídos do Diário e das Cartas de Etty Hillesum. Estes momentos foram intercalados com momentos musicais e pela estreia de uma peça do compositor João Madureira, com interpretação de Maria José Barriga (cravo) e Ana Sofia Sequeira (guitarra).

Um momento alto desse primeiro dia foi a apresentação do livro Nos passos de Etty Hillesum, com imagens do fotógrafo Filipe Condado, que resultou de uma peregrinação à Holanda, coordenada pelo arcebispo D. Tolentino Mendonça, então capelão da Capela do Rato.

A holandesa Esther Hillesum redigiu várias cartas e oito cadernos
que viriam a ser o seu Diário (Foto D.R.)

O livro evoca visualmente alguns dos lugares da vida de Etty Hillesum e conta com textos de D. José Tolentino Mendonça, em que reflecte sobre o percurso espiritual desta judia holandesa, que cada vez é mais conhecida e estudada.

Escreve o actual arquivista e bibliotecário da Santa Sé no referido livro: “aquilo que a bloqueava teria de ser identificado e abraçado, teria de ser objecto de uma reconciliação, teria de ser assumido como a geografia mais oportuna para o seu reflorescimento. Deus poderia entrar na sua vida pela única porta que ela consentia nessa época: o erotismo. Essa talvez a primeira lição de Etty, como mestra espiritual. O divino frequentemente chega à nossa vida através do humano demasiado humano que experimentámos, isto é, através do eixo mais vulnerável de nós próprios. (…) O nosso grande e único obstáculo é não percebermos a necessidade de trabalharmos espiritualmente a vida para que nos tornemos adultos também a nível espiritual”.

O segundo dia do Congresso decorreu na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e entre os diversos oradores portugueses e estrangeiros esteve o Professor Doutor Klaas Smelik da Universidade de Ghent. Um grande conhecedor da obra etiana e director do Etty Hillesum Research Centre (EHOC) em Middelburg, cidade holandesa onde Etty nasceu.

O pai do Professor Klaas Smelik, cujo nome do filho é igual, foi amigo de Etty e contribuiu para que os diários chegassem ao conhecimento público. Antes de ir para o campo de concentração Etty pediu à amiga Maria Tuinzing que os guardasse e os entregasse a Klaas Smelik, que era amigo e escritor. Etty sentia-se segura de que ele tomaria conta dos diários e lhes daria o melhor destino.

Klaas Smelik fez uma intervenção, também no primeiro dia, onde falou sobre o processo de tradução dos diários de Etty Hilesum para 18 línguas, incluindo português. O Congresso contou com a presença das tradutoras das cartas e diários para português e houve uma mesa redonda intitulada “tradutores reflectem sobre tradução”.

O Congresso foi muito rico e permitiu conhecer melhor a dimensão da obra de Etty Hilesum e os processos de transformação que viveu. “Para Etty, a espiritualidade foi uma experiência unificante e inteira, em que a descoberta de Deus ou das práticas orantes eram indissociáveis do ardente encontro consigo mesma”.

O seu sonho era ser escritora. Chegou a escrever “Ó Deus, faz de mim uma escritora (…) segura-me na mão”. Não era cristã e certamente nunca imaginaria que fosse  considerada uma mística. No entanto, com a sua escrita podemos compreender as raízes da espiritualidade e a abertura necessária à transcendência do coração humano.

Etty sabia que tinha de sofrer múltiplas transformações, dizia que as suas lágrimas brotavam de uma imensa gratidão interior e que essas lágrimas eram orações mudas que se fazem com os olhos!

(Artigo publicado no Caderno Cultura.Sul de junho)

(CM)

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