CASA FARO: a arte de ajudar quem nada tem

CASA FARO: a arte de ajudar quem nada tem

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São mais de 350 as famílias carenciadas ajudadas no concelho de Faro através do CASA – Centro de Apoio ao Sem-abrigo.

“Centramos a nossa atividade na ajuda direta a quem nada tem, através de alimentação, vestuário, utensílios domésticos, material escolar, produtos de higiene, entre outros géneros de primeira necessidade, para além de lhes proporcionar apoio nas áreas do aconselhamento técnico que visa a sua integração social, profissional e melhoramento das condições de vida”, refere a associação.

O CASA funciona com base numa filosofia assente no voluntariado, subsistindo através de várias atividades de angariação de fundos e de apoios concebidos por empresas e particulares.

O POSTAL falou com Kaique Bucci, um jovem de 25 anos, natural de São Paulo – Brasil , e que está a fazer estágio voluntário na associação.

“Eu estou a realizar um estágio voluntário que conta para o estágio obrigatório da universidade. Tinha outras propostas remuneradas para trabalhar noutros locais mas escolhi vir para aqui por uma questão ideológica minha”, referiu.

No CASA em Faro existem três funcionários efetivos, um aluno em estágio profissional, dois alunos em estágio curricular do liceu e cerca de dez voluntários efetivos, “muitos dos voluntários são também utentes”.

O jovem voluntário explica que “o centro de apoio ao sem-abrigo começou como uma forma de ajudar os sem-abrigo, no entanto, com o passar do tempo foi abrangendo mais pessoas carenciadas”.

O CASA ajuda atualmente mais de 350 famílias

O CASA “atende, atualmente, mais de 350 famílias, sendo uma grande parte idosos e crianças que precisam de ajuda básica”, acrescenta Kaique Bucci.

Os alimentos que são doados pelo CASA são maioritariamente provenientes do Banco Alimentar e alguns de outras instituições.

A associação ajuda pessoas em situação de sem-abrigo e também pessoas que tenham dificuldades básicas notórias. “O serviço social encaminha os casos mais críticos como, por exemplo, pessoas que estão desempregadas, doentes ou impossibilitadas de trabalhar. Estes dois grupos recebem mantimentos básicos duas vezes por semana”.

É o serviço de ação social que cede uma lista com os dados referentes a cada pessoa ajudada. “Geralmente o perfil da pessoa já vem mais ou menos definido. Às vezes a pessoa é diabética ou, por exemplo, não gosta de certo tipo de comida e nós temos acesso a esse tipo de informação”.

O voluntário explica que “fazemos uma triagem duas vezes por ano dessas pessoas para ver se elas precisam de continuar a receber esses mantimentos, se a sua situação atual se alterou ou se, por exemplo, já conseguiram emprego. Outras vezes existem casos em que a pessoa tinha emprego e deixou de ter, apresentando dificuldades maiores. Analisamos esses aspetos”.

No CASA existe uma loja de serviço social

Kaique Bucci salienta que “nós temos uma loja de serviço social e cada utente tem direito a quatro peças por pessoa na família. Se o agregado for constituído por três pessoas, essa família tem direito a 12 peças, sejam elas roupa, sapatos ou coisas de banho, por exemplo”.

“A loja é um dos principais meios de arrecadação de fundos mas como está fechada não tem forma de angariar esses mesmos fundos. Às vezes só precisávamos de voluntários para ficar na loja, para fazer esse trabalho, nem que fosse duas ou três horas por dia”, complementa.

O voluntário salienta ainda que “tudo aquilo que temos na loja, está lá com um preço simbólico”.

“Temos vários artigos. Chegaram, por exemplo, sapatos da Nike ou da Adidas de tamanho 42, que muitas vezes abatemos por dois/três euros. Nós também temos muitos peluches da Disney que, por vezes, compramos a 20/30 euros por dois ou três euros. Tudo aquilo que é “comprado” aqui reverte para a manutenção do CASA: água, luz, renda, gás, etc.

Para além da loja solidária, o CASA Faro tem ainda um balneário e uma cozinha que os utentes podem utilizar”. O CASA, coordenado pelo empresário Ricardo Mariano, “foi criado para ser mesmo uma casa e então os utentes têm a possibilidade de tomarem um banho ou aquecerem a comida”, sendo que “nós oferecemos essa estrutura organizada e limpa para eles terem acesso àquilo que toda a gente deveria ter”.

Kaique Bucci disse ao POSTAL que vem de São Paulo no Brasil e escolheu Faro para viver, “vim para a Universidade e tirei o curso todo aqui e decidi juntar-me a esta associação para ajudar as pessoas”.

O CASA apresenta duas grandes dificuldades: por um lado a arrecadação de fundos e por outro a falta de voluntários.

“No CASA precisamos de pessoas em todas as áreas, como o marketing, comunicação, organização, design e também pessoas que fiquem na loja a atender”, explica o jovem voluntário.

“Basta uma ou duas horas para fazer efetivamente a diferença e muitas vezes as pessoas não precisam de estar presencialmente na associação”, reforça.

Kaique Bucci refere que “não existe um preço monetário que possa pagar a ajuda que damos aos outros” e existem “problemas reais, no entanto, as pessoas não querem ter contacto com essa realidade, não querem ver”.

O jovem refere que “nós estamos a tentar ser humanos. Se fossemos realmente humanos toda a gente ajudaria toda a gente. Eu tenho 25 anos e demorei 25 anos a pensar nisto. Existem pessoas que vão demorar 50 anos”.

“Cada pessoa tem o seu tempo e não devemos julgar quem fez agora, quem fez antes ou quem vai fazer depois”, afirma.

Luís Correia tem 64 anos, já foi utente e atualmente trabalha no CASA

Luís Correia disse ao POSTAL que “comecei a frequentar o CASA em 2008 como utente. Devido à crise de 2008/2009 tive de recorrer à ajuda da instituição”.

“Foi uma ajuda bastante importante porque o apoio era principalmente ao nível da alimentação e a comida é cara”, sendo que “atravessei um período complicado na minha vida, em que fiquei sem ter nenhuma atividade profissional e mesmo que tentasse encontrar naquela altura ninguém empregava ninguém”, recorda.

Luís Correia relembra que “em 2008 quando recorri à ajuda da instituição pediram-me para fazer parte da equipa de rua, que funcionava à segunda e à quinta-feira para dar ajuda às pessoas de idade ou àquelas pessoas que tivessem problemas de saúde”, mencionando que “recorri à associação em outubro e a partir de dezembro tornei-me parte da equipa a título voluntário”.

A partir de 2012 começou a exercer uma atividade profissional na instituição.

“Sou um dos funcionários mais antigos do CASA” e considero que “é uma ajuda importante, no entanto, a cidade e as entidades que gerem o município deviam ajudar mais. É-nos facultado um subsídio anual mas não é fácil manter toda a estrutura inerente ao CASA, complementa.

Carla Simões tem 52 anos e é responsável pela logística do CASA

Carla Simões trabalha há cerca de cinco anos no CASA e é responsável pela parte da logística.
“Eu tento organizar as coisas, as saídas dos alimentos, para dar a mercearia à segunda, à quinta-feira, fazer os sacos para as freguesias que nós temos”.

A responsável salienta que “na quinta-feira, ao final do dia, pelas 17:30 horas, temos a equipa de rua, depois temos a freguesia de Montenegro às sextas-feiras de manhã. Os sem-abrigo recorrem à ajuda às terças e sextas”.

“Ajudamos igualmente Santa Bárbara de Nexe uma vez por mês, São Brás de Alportel de 15 em 15 dias e Conceição todas as semanas”, exemplifica.

Carla Simões nota que existem aspetos que se modificaram ao longo destes cinco anos. “Existem menos pessoas a ajudar mas mais pessoas a necessitar”.

A nível de organização, “o sistema está melhor, mais simples e funcional”, e “todos fazem um pouco de tudo”.

O CASA também recebe pessoas que estejam a cumprir serviço comunitário.

Um dos aspetos que a trabalhadora lamenta é exatamente o facto de não existir um maior envolvimento das pessoas nas causas sociais.
“As pessoas vêm, interessam-se, mas acabam por não dar continuidade”.

Não obstante, existem casos de sucesso. “Temos a equipa de Montenegro constituída por dois voluntários que nasceram para isto. São reformados e ajudam várias instituições nos tempos livres e já devem ter cerca de 70 anos”, refere de sorriso nos lábios.

Carla Simões realça ainda que “muitas pessoas fizeram disto um ciclo vicioso, estagnaram”, pois “existem muitos casos em que as pessoas tinham capacidade para mudar de vida, mas habituaram-se a este registo”.

A responsável conclui salientando que gosta do que faz. “Gostava de não ter de o fazer, o que era um bom sinal”, refere.

Carla Simões realça o facto de “sentir que o CASA é uma ajuda útil quando as pessoas querem, efetivamente, ser ajudadas”.

Se quiser tornar-se voluntário pode dirigir-se diretamente à instituição CASA Faro, que está aberta de segunda a sexta-feira, entre as 9 e as 12 horas e das 14 às 18 horas.

Também poderá fazer a sua inscrição através do site ou através do email.

Por fim, poderá contactar a instituição através das redes sociais (facebook e instagram).

(Stefanie Palma / Henrique Dias Freire)

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