Emissor Regional do Sul: Querem vender património histórico do Algarve

Emissor Regional do Sul: Querem vender património histórico do Algarve

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Ramiro Santos
Jornalista, funcionário e um dos impulsionadores do projecto da RDPSul
e Rádio Algarve, e fundador da TSF e jornalista da Agência Lusa

Quando se olha para a história da Rádio, em Portugal, é difícil ignorar o papel que os centros emissores regionais tiveram no Plano Nacional de Radiodifusão no país. No caso do Algarve, o Emissor Regional do Sul, que teve a sua emissão experimental em 1949, assumiu-se sempre como um instrumento fundamental para o desenvolvimento e afirmação dos interesses e valores da região junto dos poderes em Lisboa.

Por coincidência ou não, há duas personalidades algarvias que estão entre os grandes impulsionadores da rádio no nosso país: Duarte Pacheco, ministro das Obras Públicas e Comunicações, e Manuel Bívar, que foi presidente de sucessivas comissões administrativa e diretor dos serviços técnicos, tendo assumido ainda um papel decisivo no lançamento da televisão em Portugal.

O primeiro foi ainda o grande dinamizador do plano de expansão da então Emissora Nacional e ao segundo coube- lhe também a orientação técnica e concretização, no terreno, desse mesmo projecto. A ambos, fi cou o Algarve a dever-lhes a instalação, em Faro, da delegação da Emissora que era, à época, disputada por Évora.

Hoje, a concretizar-se a intenção da administração da RTP em alienar o terreno e o edifício onde funciona o serviço público de rádio e televisão, o Algarve corre o risco de perder um pouco da sua história e da sua alma. Porque o Emissor Regional do Sul representa um património que faz parte da memória cultural e colectiva da sua população.

A sua destruição, constitui não apenas um retrocesso na afirmação dos valores regionais. Representa também o corolário de um desinvestimento progressivo de sucessivos governos nesta área, em contra corrente com o discurso político de aprofundamento da descentralização e da regionalização.

Indissociavelmente ligada à produção de uma informação regional de referência, as antecessoras da RTP assumiram-se sempre como um meio de aproximação da sua população aos centros de decisão e um instrumento fundamental para o desenvolvimento e afirmação do Algarve no país.

Memória colectiva do Algarve

O imóvel, que tem sido desde sempre, a casa da rádio no Algarve, e que recentemente acolheu também a televisão do Estado, dispõe, com pequenos investimentos, de todas as condições para que a RTP ali possa prosseguir a sua atividade de interesse público.

Pelo valor cultural que encerra, o edifício, mais do que objecto de negócio imobiliário que não resolve problema nenhum da televisão pública, deve merecer da parte do município de Faro, uma atenção especial e ser integrado na rede de edifícios classificados de interesse regional ou municipal.

O terreno envolvente, com uma área de 13.600 metros quadrados, apesar de muito apetecível e cobiçado, não pode servir para promover a especulação imobiliária e a massificação urbana, devendo antes ser valorizado como espaço de lazer para usufruto da população.

Governo não pode lavar as mãos

Ao invés da sua destruição, o Algarve tem de reclamar do Estado, outra atenção para o serviço público de rádio e televisão, defendendo a criação de condições, em recursos humanos e técnicos que permitam o reforço da sua produção informativa e a redefinição do papel do Centro Regional com um projeto de emissões locais, à semelhança do que já teve no passado.

A tutela e o Governo não podem continuar indiferentes e lavar as mãos do que se está a passar no domínio do áudio visual no Algarve, tendo a obrigação de intervir no sentido de acautelar e evitar a delapidação de um património inestimável para os algarvios e para o país.

Ao mesmo tempo, compete ao Governo definir uma política de comunicação social de proximidade, que contribua para o reforço da coesão social e para esbater os desequilíbrios existentes entre um litoral populoso e rico e um interior pobre, a caminho da desertificação.

Um dos objetivos de uma empresa como a RTP é, seguramente, o de procurar valorizar os seus activos patrimoniais, mas sem nunca perder de vista o seu grande desígnio, que é o de assegurar a prossecução de um serviço público de rádio e televisão de qualidade, ao serviço das pessoas.

Neste contexto, a alienação do património existente como parece pretender a administração da RTP, apresenta-se como mais uma investida centralista, lamentavelmente, ao que se presume, com a cumplicidade de alguns agentes locais, com objectivos meramente contabilísticos que não protege os interesses da cidade, da região e dos trabalhadores e, a prazo, nem os interesses da própria empresa. Ficaríamos todos a perder.

(CM)

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