Homem amputado perde consulta em Lisboa porque ambulância só tinha um tripulante

Homem amputado perde consulta em Lisboa porque ambulância só tinha um tripulante

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José Manuel Sacramento não tem, até ao momento, data de nova consulta (Foto D.R.)

Um homem amputado, de 59 anos, residente em Santa Luzia, Tavira, está a ser acompanhado no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, na especialidade de Cirurgia Vascular devido a ferimentos numa perna, no entanto, foi obrigado a falhar à última consulta, no passado dia 27, porque o transporte por ambulância agendado apenas contava com o motorista.

A mulher de José Sacramento disse ao POSTAL que na véspera da consulta a Associação Humanitária das Ambulâncias de Quarteira confirmou o pedido de transporte e que ela referiu que tem por hábito dizer que mora no segundo andar e que o marido não pode descer as escadas porque a outra perna está ferida e é por esse mesmo motivo que está a ser seguido em Lisboa.

“A pessoa que me contactou por parte das ambulâncias disse-me que não tinha ninguém para descer o senhor, perguntando se não existiria ninguém que pudesse ajudá-lo a descer e a subir do segundo andar, ao qual eu respondi que não”, explica.

A esposa referiu ainda que perguntou “o que haveria a fazer? Responderam-me que a única alternativa que existia seria arranjar alguém para ajudar a descer ou subir o senhor para o 2º andar, ou tentar passar a consulta para outro dia, pelo que tive de anular a consulta por falta de transporte”.

É diabético e está quase cego

José Manuel Sacramento é diabético, está quase cego e devido a problemas de saúde foi amputado. A outra perna tem ferimentos, o que o obriga a deslocar-se todos os meses a consultas em Lisboa.

José Sacramento disse ao POSTAL que “a perna direita foi amputada há três anos e em novembro fui operado, para o desentupimento das veias da perna esquerda. Aqui no Algarve pouco mais podem fazer”.

“A pele do pé já foi fora, o calcanhar já está bom, mas ainda não consigo meter o pé no chão. Agora é só a parte dos dedos, no entanto, no Hospital em Faro têm algum receio de fazer alguns cortes para tirar as peles velhas, pelo que estou a ser acompanhado em Lisboa por um especialista”.

O doente está a ser seguido no Hospital de Santa Maria. É o próprio hospital que requisita o serviço de transporte. Ao que o POSTAL apurou, existiram várias corporações do Algarve que rejeitaram fazer o transporte de José Manuel Sacramento devido à falta de recursos humanos. A única que aceitou fazer o serviço foi a Associação Humanitária das Ambulâncias de Quarteira.

Segundo Eduardo Sousa, membro da Associação Humanitária das Ambulâncias de Quarteira, explicou ao POSTAL, “nós não tínhamos mais ninguém para poder mandar uma ambulância com dois tripulantes”.

O mesmo acrescentou que “às vezes as pessoas têm uma certa mobilidade e com uma pequena ajuda consegue fazer-se o transporte nesse tipo de viatura, o que não é o caso, uma vez que o senhor é amputado, pelo que o transporte deveria ter sido feito por uma tripulação completa de duas pessoas numa ambulância, daí não termos tido capacidade de responder a esse pedido”.

A associação sublinha ainda que “um colega nosso que estava em Lisboa foi ao serviço solicitar a alteração da data da consulta, que só poderia ser feita com o médico, pelo que informámos o Hospital de Santa Maria que não teríamos disponibilidade de efetuar o serviço”.

Por sua vez, Luís Fernandes, assistente administrativo do serviço de transportes do Hospital de Santa Maria, referiu ao POSTAL que “o transporte foi atribuído aos bombeiros da residência (Tavira) que recusaram o serviço e dentro da zona do Algarve temos de arranjar solução para trazer o doente.Dentro da área quem aceitou foi a Associação Humanitária das Ambulâncias de Quarteira. Já tínhamos contactado várias entidades perto que não tinham aceitado. Ligámos para todas as corporações da zona e a única que aceitou foi efetivamente Quarteira”.

No segundo contato do POSTAL, outro assistente, Bruno Matos, disse que “todas as formas possíveis já tinham sido esgotadas, daí o contacto ao doente para informar a situação para que pudesse, no mínimo, discutir com o médico e tentar arranjar uma alternativa, fosse de data ou de tratamento, por exemplo”, acrescentou.

“É uma distância muito grande e um espaço de tempo muito curto, pelo que mesmo a nível particular seria difícil de resolver. Há poucas entidades que façam transportes para Lisboa na zona e há menos entidades ainda que tenham acordos com o hospital, por decisão própria e isso faz com que em cima do acontecimento e com poucas oportunidades de alternativa isto aconteça”, concluiu.

Até ao momento, o paciente José Manuel Sacramento não tem data prevista para nova consulta.

(Stefanie Palma / Henrique Dias Freire)

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