Mouras encantadas e tesouros. Encantamentos no Algarve

Mouras encantadas e tesouros. Encantamentos no Algarve

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Catarina Oliveira, arqueóloga, Sócia da AGECAL

Mouras, moirinhas ou bichas mouras, as mouras encantadas, aparecem belas e enigmáticas, junto a fontes, ribeiras, penedos ou ruínas penteando os longos cabelos, com preciosos pentes de ouro. Encantadas em serpentes, touros ou leões, em certos casos meio mulheres e meio cobras, guardam tesouros nas entranhas da terra, que oferecem a quem lhes quebrar o encanto. No Algarve, ficaram imortalizadas por nomes como Cássima, Fátima, Floripes, Zuleima, Alíria, Tomasina,…

No Sul, onde a presença muçulmana foi mais longa e intensa, as mouras encantadas apresentam-se como lindas princesas, que por não poderem fugir durante a reconquista cristã, aqui ficaram encantadas. Muitas das lendas referem-se também a fugazes encontros com pequenos mourinhos de gorros vermelhos na cabeça. Mas a permanência de mouros e mouras na memória e imaginário popular, também no Norte de Portugal, não se pode explicar apenas pela duração da presença islâmica no nosso território. Segundo muitos estudiosos, as mouras parecem vir substituir antigas divindades ligadas à fertilidade.

No Algarve ficaram imortalizadas as mouras Cássima, Fátima,
Floripes, Zuleima, Alíria e Tomasina (Foto António Teixeira)

Onde vivem? Dizem as lendas que habitam em fontes, poços, rios, grutas, minas, antas, castros e ruínas, e aí guardam os seus tesouros. Há quem diga que vivem na moirama, um mundo maravilhoso e labiríntico debaixo da terra, com túneis que desembocam em palácios de ouro e cristal.

Por aparecerem frequentemente em fontes, poços, ribeiros, há quem as interprete como sobrevivências de antigas divindades e génios femininos ligados à água, elemento sagrado, cujo culto se perpetuou no tempo até aos nossos dias, tendo sido mais tarde substituídas por invocações de santos cristãos

Quando aparecem? Dos espaços de reclusão, onde cumprem encantamentos de muitos séculos, as mouras apenas podem sair em momentos mágicos, como a meia-noite, o nascer do sol ou o meio-dia. É especialmente na noite de S. João que deixam a forma de serpentes e, em figura humana, vêm pentear os seus cabelos de ouro, aguardando pela manhã para estender, no campo sobre esteiras, os seus tesouros: figos, meadas de ouro… A noite de S. João, com raízes nos antigos festejos pagãos do solstício de Verão, de que as tradicionais fogueiras – substituindo de noite o próprio sol – são a expressão mais conhecida, assinala o mais alto grau de vitalidade do sol, fecundador por excelência. E não remetem os atributos das moiras – cabelos, pente, tesouros de oiro – para o próprio Sol, símbolo de vida e fertilidade?

E que tesouros guardam? Segundo o povo, quando os mouros, pela força das armas cristãs, largaram as nossas terras, deixaram lindas mouras em guarda dos seus tesouros. São de ouro, prata e pedras preciosas, mas aparecem disfarçados em coisas banais, como carvão, tijolos, figos. O afortunado que os acha ou recebe da moura, despreza-os sem suspeitar do encanto, ou conquista-os provando ser merecedor da riqueza que tem nas mãos, por se mostrar paciente, discreto, honesto e corajoso. Nas lendas, a conquista do tesouro implica provações de ordem moral e espiritual: o cumprimento de um pacto, o controlo de impulsos como a curiosidade, ou o seguimento das regras ditadas por um sonho sonhado três vezes.

Como desencantá-las? É com os seus tesouros que as Mouras Encantadas tentam seduzir os homens para que lhes quebrem o encanto. Deve o homem submeter-se a provas de força ou, sobretudo, de coragem. Não deve demonstrar medo perante a investida da Moura, que pode aparecer sob a forma de um touro ou de uma serpente que o abraça e beija. Se vencer as provas, quebra o encantamento, se falhar redobra-o. Nas lendas recolhidas no Algarve são diversos e exigentes os preceitos a seguir para o desencantamento: enfrentar um touro e uma cobra sem manifestar medo e ser beijado pela moura donzela que lhe tira os santos óleos do baptismo; ser três vezes engolido e três vezes vomitado por um leão, três vezes abraçado por uma serpente e finalmente beijado na fronte pela moura; apanhar o rouxinol que vier cantar em noite de véspera de S. João na árvore junto ao tanque onde está a moura; regar a área do terreno onde está a moura com água de massa amassada em noite de S. João; roçar o mato de uma courela, semear orégãos e a seguir plantar uma vinha; comer filhoses amassadas com água do rio na véspera de S. João;…

No Algarve, Ataíde Oliveira foi um dos grandes compiladores desta riquíssima herança. Devemos-lhe o registo de dezenas de lendas oriundas de várias regiões do Algarve, compiladas em 1898 na obra “As Mouras Encantadas e os Encantamentos do Algarve”. A sua obra foi recentemente reeditada pela Apenas Livros e abre com uma introdução da autoria de Fernanda Frazão e Gabriela Morais sobre o Mito da Moura Encantada.

(Artigo publicado no Caderno Cultura.Sul de julho)

(CM)

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