Pode a Filosofia ser um guia para o prazer?

Pode a Filosofia ser um guia para o prazer?

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A OPINIÃO de MARIA JOÃO NEVES Ph.D Consultora Filosófica
filosofiamjn@gmail.com

Ao arrepio da tendência filosófica ocidental prevalecente, Epicuro coloca a seguinte questão: Não sei como poderei conceber o Bem se prescindo dos prazeres do gosto, se abnego do prazer sexual, se me privo do prazer de ouvir, se me abstenho de todas as doces emoções induzidas pela contemplação de formas belas!

Nascido na verdejante ilha de Samos em 341 a.c., Epicuro dedicou-se à filosofia desde os 14 anos de idade, viajando para estudar com proeminentes professores como o platonista Pânfilo ou o atomista Nausífanes, discípulo de Demócrito. Contudo, o jovem filósofo não conseguia concordar com a maioria dos ensinamentos, e antes de cumprir 30 anos decidiu compilar os seus próprios pensamentos sobre a filosofia da vida. Calcula-se que escreveu cerca de 300 livros sobre os mais diversos temas: amor, música, natureza, vida humana, etc. Infelizmente, quase toda a obra se perdeu e acedemos ao seu pensamento apenas através de alguns testemunhos de discípulos e epístolas, entre elas, a Carta para a Felicidade, escrita a Meneceu.

Aquilo que imediatamente distingue Epicuro dos outros filósofos é o seu ênfase na importância dos prazeres sensuais: “o prazer é o princípio e o objectivo de uma vida feliz”. Epicuro confessa abertamente o seu apreço pela boa culinária: “o princípio e a raiz de todo o bem é o prazer do estômago”. No seu entender, até a sabedoria e a cultura se lhe deveriam referir. A filosofia teria a incumbência de se converter num guia para o prazer.

Muito poucos filósofos admitiram tão abertamente o seu interesse num estilo vida prazenteiro. De facto, este reconhecimento chocou imensa gente! Reacções adversas não se fizeram esperar quando constou que Epicuro atraiu o apoio de algumas famílias ricas, e utilizou o dinheiro que lhe foi dado para criar uma instituição dedicada à promoção de felicidade. A sua escola admitia tanto homens como mulheres ― foi, provavelmente, um dos primeiros estabelecimentos de ensino misto de que se tem conhecimento no Ocidente ― e encorajou-os a viver e a estudar o prazer em conjunto. O seu impacto percorreu todo o espectro, desde o grande entusiasmo à condenação moral.

Se procurarmos no Facebook “Epicurean Life” encontraremos a página do Alexander Group onde pode ler-se: “A nossa página do Facebook irá mantê-lo a par do mais alto luxo: Restaurantes, Viagens, Moda, Automobilismo, Artes, Interiores e muito mais…” Tudo aquilo que o dinheiro pode proporcionar!

Fotos D.R.

Já o slogan da capa da revista Epicurean Life  ― “Um mundo de luxo… para quem tem bom gosto!” ―, aponta para o facto de que não basta ter dinheiro, é necessária alguma erudição estética para ascender aos prazeres propostos por uma vida epicúrea. O dinheiro é um requisito prévio, mas apenas aqueles com classe, com estilo, poderão aceder ao que a revista propõe. A Epicurean Life não apenas divulga prazeres refinados, ela promete conferir um status social ao alcance de poucos.

Mas seria realmente isto que Epicuro tinha em mente? O filósofo adverte para as rasteiras muito comuns em que se pode cair nesta busca do prazer e da felicidade. Allain de Botton realiza um interessante estudo sobre publicidade e ideias epicúreas. Vejamos alguns exemplos:

Neste anúncio da Bacardi promove-se uma bebida alcoólica, mas, na verdade, em termos epicúreos, o que se pretende obter são amigos.

Aqui anuncia-se um spa de luxo mas, para Epicuro, o que se busca realmente, é relaxamento e calma… Um corpo sem dor, e paz de espírito.

Na realidade, a casa que Epicuro comprou, com a ajuda de alguns amigos com os quais vivia em comunidade, não era grande. No terreno em seu redor cultivavam vegetais e plantaram um harmonioso mas modesto jardim. As refeições eram simples. Bebia-se água, não vinho. Estava-se saciado com um pouco de pão e um punhado de azeitonas. “Enviem-me um pote de queijo para que eu possa fazer um festim quando quiser”, admoestava o filósofo!

Ao sol do nosso Algarve que nos beija a pele cada dia, vai-se com amigos à praia e traz-se de lá a refeição, pois as conquilhas saltam ao rodar do calcanhar na maré baixa. Haja um pouco de azeite e alho e algum fogo para as abrir. Tempera-se com o sumo de um limão apanhado dum ramo que se estende para nós, oferta de um quintal qualquer a caminho de casa, e colhem-se a salsa e os coentros que crescem no canteiro improvisado na varanda, ou no parapeito da janela. Alguém pega numa guitarra e canta-se e ri-se e celebra-se a vida! É a felicidade, que ao contrário daquilo que nos querem fazer acreditar, é acessível a bem modesto custo.

Influenciáveis, sucumbimos à publicidade falsa e massacrante de que se não tivermos uma casa grande, um carro último modelo, uma conta bancária choruda, se não vestirmos a última moda e tivermos um status social elevado, ninguém gostará de nós e jamais poderemos ser felizes! Há muito quem lucre com a estimulação de desejos desnecessários em pessoas que desconhecem as suas verdadeiras necessidades. A sociedade de consumo ruiria se nos déssemos conta disto! Não vemos em nenhum lado publicitados os prazeres simples a que qualquer um pode ter acesso: brincar com um cão, conversar com um amigo, apanhar um banho de sol, ouvir no rádio aquela canção favorita, comer um pãozinho fresco com um pouco de manteiga barrada… Lucrécio, articulando os valores epicúreos, chegaria à conclusão de que a humanidade é perpetuamente vítima de um martírio fútil, afligindo a vida em preocupações infrutíferas por não conseguir distinguir quanto a aquisição é limitante a respeito do crescimento do prazer genuíno.

Se Epicuro quisesse casar seria impossível encontrar uma loja onde deixar a sua lista de presentes, pois para o filósofo a vida prazenteira baseia-se nestes 3 ingredientes fundamentais:

1. Amizade

Os verdadeiros amigos não nos julgam de acordo com os valores mundanos. O seu amor por nós não é afectado pela nossa posição social, riqueza, fama ou sucesso. Respeitam-nos, tratam-nos bem, simplesmente… Apreciam-nos pelo que somos!

2. Liberdade

No jardim de Epicuro vários foram aqueles que trocaram os seus bons empregos por uma vida mais simples mas, sobretudo, uma vida com tempo. Preferiam cultivar a sua própria comida, ainda que escassa, a ter de passar os dias obedecendo às ordens de algum chefe tirano.

3. Pensamento

Ao escrever sobre um problema ou ao conversar sobre ele fazemos com que os seus principais aspectos emirjam. Se o problema não se dissolver neste exercício, pelo menos alguns dos seus efeitos secundários tendem a diminuir, tais como a confusão e o sofrimento que esta provoca. No jardim de Epicuro encorajava-se acima de tudo o pensamento. Talvez existam poucos remédios para a ansiedade tão eficazes como este!

No próximo Café Filosófico vamos exercitar-nos da felicidade epicúrea. Venha daí!

Inscrições: filosofiamjn@gmail.com

(Artigo publicado no Caderno Cultura.Sul de julho)

(CM)

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