Uma prisão sem grades: a realidade de um recluso

Uma prisão sem grades: a realidade de um recluso

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Manuel – Nome fictício

Já pensou como seria a sua vida se um erro no seu percurso determinasse que teria de viver privado da liberdade? Já imaginou como seria o seu dia-a-dia se existissem diariamente grades a separá-lo do mundo exterior? Já concebeu a ideia de viver confinado a um determinado espaço durante um certo período de tempo?

O POSTAL foi entrevistar o Manuel, alguém que vive diariamente esta realidade.

Manuel é natural de Angola, tem 47 anos e entrou no Estabelecimento Prisional de Silves a 20 de abril de 2013. Está condenado a uma pena de prisão de 9 anos e 6 meses.

“Durante este tempo em que estive na prisão existiram muitas coisas que mudaram. A experiência de vida, a idade e a maneira de encarar os acontecimentos”, começa por referir Manuel ao POSTAL, de forma bastante tímida.

“Quanto se é mais novo é mais fácil, mas quando começamos a avançar na vida, começamos a pensar como vai ser o nosso futuro”, complementa.

Manuel foi preso pelo consumo e tráfico de estupefacientes

Manuel já esteve preso duas vezes anteriormente. O motivo é sempre o mesmo: consumo e tráfico de estupefacientes.

O recluso recorda como tudo começou. “Foi através de amigos. Na altura vivia em Tunes e trabalhava em Vilamoura que era longe e depois começaram a aparecer certas companhias, começou a surgir uma oferta daqui, uma oferta dali e decidi experimentar várias coisas. No final, acabei por ficar viciado em heroína. O ordenado já não chegava, vi que não tinha mais condições e deixei mesmo de trabalhar”, recorda.

Manuel refere que “depois começou a aparecer uma proposta em que lhe ofereciam X, o que o levou a começar a traficar para consumir”.

Ricardo Torrão, diretor do Estabelecimento Prisional de Silves também esteve presente ao longo da entrevista que o POSTAL fez a Manuel. O responsável tem acompanhado de perto a evolução deste e dos restantes reclusos.

“A primeira preocupação de uma pessoa viciada em heroína é saber, assim que acorda, onde é que está a dose da substância para iniciar o dia, pois passou-se uma noite de abstinência e esse é o primeiro pensamento matinal de quem consome”, explica Ricardo Torrão.

Manuel está limpo há mais de quatro anos

“O consumo de heroína traz uma dependência física e psíquica enorme. Na década de 2000 sabemos de casos de pessoas que cometiam autênticas loucuras para conseguir as doses da manhã, desde assaltar idosas, farmácias e até situações mais graves”, recorda.

Ricardo Torrão afirma com orgulho que Manuel está limpo há mais de quatro anos.

Durante o tempo de permanência no estabelecimento Manuel frequentou três cursos de formação do Centro Protocolar da Justiça: Pedreiro, Informática e Formar para Integrar.

O diretor da prisão contou ao POSTAL um pouco do percurso de Manuel.

“O recluso iniciou funções de faxina na zona prisional em setembro de 2013 e trabalhou na lavandaria do Estabelecimento Prisional de Silves, onde se manteve e desempenhou as suas funções com grande sentido de responsabilidade”.

A 15 de janeiro de 2016 beneficiou do regime aberto no interior. Depois, após a concessão “do regime aberto no exterior no final do ano de 2016 ingressou no curso de Educação e Formação de Adultos Nível 3º Ciclo do Ensino Básico com dupla certificação de Empregado de Andares no Instituto de Emprego e Formação Profissional em Silves”.

Através deste curso do Instituto de Emprego existia a necessidade da realização de um estágio. Manuel acabou por estagiar no Hotel Colina dos Mouros, em Silves, local onde se desenrolou a entrevista.

Após o término do estágio, a 17 de junho de 2018 o diretor do hotel celebrou um contrato de trabalho com Manuel de seis meses, devido à sua total dedicação, disponibilidade, responsabilidade, empenho e resiliência demonstrados ao longo do estágio”, explica Ricardo Torrão.

Manuel trabalha atualmente no Hotel Colina dos Mouros. O responsável do hotel decidiu renovar o contrato de trabalho pelo período de um ano a 17 de dezembro do mesmo ano, que vigora até ao presente. Segundo o POSTAL apurou, existem mesmo intenções de ficar com este trabalhador de forma efetiva no futuro.

“Nós só podemos ajudar quem quer ser ajudado. Não conseguimos fazer muito por quem não quer. Tem de existir um trabalho de equipa que permita a definição de uma vida melhor para aquela pessoa, no entanto, tem de existir uma força intrínseca e uma vontade de mudar”, salienta o diretor do establecimento prisional.

Exemplo dessa mesma vontade de mudar é o comportamento “excecional que Manuel tem demonstrado.

Este recluso destaca-se fundamentalmente pelo seu percurso prisional positivo, tendo desenvolvido hábitos de trabalho e demonstrado permanentemente motivação para regressar à sociedade e conduzir a sua vida de modo socialmente responsável e sem reincidir”.

Manuel tornou-se mesmo um exemplo para os restantes reclusos. Ao POSTAL refere que “a prisão foi a minha recuperação. Passei muito mal mas sinto-me cada vez mais forte. Lá fora é que me estraguei, pois tanto tomava metadona como consumia heroína. Tem sido um percurso bastante doloroso”, confidencia.

“Senti que os meus amigos se afastavam de mim e só tinha próximo quem estava na mesma situação, os chamados amigos da onça”.

O POSTAL perguntou a Manuel se ainda mantém algum contacto com essas companhias do passado, ao qual o recluso respondeu de forma basta assertiva: “Não tenho e nem quero! Fujo disso”.

Ricardo Torrão explica que dentro do estabelecimento prisional existe um cuidado redobrado no que diz respeito à droga.“As pessoas têm de aceitar que têm de mudar a vida delas” e é preciso não esquecer que “a prisão é uma coisa má, é o fim da linha. Antes de aqui chegarem já tiveram outras oportunidades”, reforça.

O diretor sublinha que não dá “permissão para que na prisão entre qualquer tipo de substância”.

“Para além da cinotecnia própria, o GOC – Grupo Operacional Cinotécnico, que vem de Lisboa, o Estabelecimento Prisional de Silves tem uma colaboração com a GNR para fazer um controlo e dissuasão aos visitantes, algumas vezes por mês, pois se as pessoas são presas pelo consumo e tráfico de estupefacientes aquilo que temos de garantir é que esse fenómeno não exista dentro das cadeias para provocar uma mudança efetiva nas suas vidas”, salienta o responsável.

Manuel recorda com gratidão o apoio que tem tido por parte do diretor nesta luta contra o vício da droga. “O senhor diretor incentiva-me bastante, pergunta-me sempre se quero frequentar formações e dá-me muita força, tanto a mim como aos restantes reclusos. É um apoio importante”, refere com um caraterístico brilho nos olhos, que o acompanhou ao longo de toda a entrevista.

“Na prisão nunca tive problemas com drogas, era sempre no exterior. Sabe, para perder tudo é fácil mas depois a reconstrução é a parte mais difícil”, refere com uma certa dose de apreensão.

Este é um novo início de vida

Manuel sente-se motivado a escrever uma nova história para a sua vida. “Este é um novo início de vida. Sinto que estou em casa neste hotel. São uma segunda família para mim”, afirma.

A prisão não tem de ser necessariamente “um local negativo”. O objetivo fulcral da permanência nos estabelecimentos prisionais é “que os reclusos se possam restabelecer, possibilitando a sua reinserção na sociedade, de uma forma regrada. Manuel é, sem dúvida, um exemplo de superação”.

O diretor da prisão sublinha que “errar é próprio do ser humano e todos nós temos direito a uma oportunidade, todos!”

Manuel concluiu a entrevista dando um importante conselho a jovens que pretendam experimentar estas substâncias: “o melhor conselho que posso dar a todos aqueles que pensem em ingressar neste mundo é exatamente o de nem sequer experimentarem”.

“A droga leva-nos para caminhos desconhecidos e a substância que eu consumia traz o nome com ela: a heroína é mesmo a ruína”.

(Stefanie Palma / Henrique Dias Freire)

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