O Algarve

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O Algarve, para mim, é sempre um dia de férias na pátria. (…)” “A ideia que tenho dum paraíso terrestre, onde o homem possa viver feliz ao natural, vem-me dali”. (Miguel Torga)

Alexandre Ereira Bastos, arquiteto (Foto D.R.)

Salvo os núcleos urbanos, a arquitectura no barlavento (o extremo ocidental do Gharb al-Andaluz) é dispersa e a plataforma da casa vira- -se contra o vento tanto no barrocal como no litoral, a planície, e a sua frente mais protegida dos ventos de sudoeste e norte aconchegam a entrada da casa a nascente-sul ou sudeste.

Normalmente esta arquitectura popular de que falamos aqui, não é raro vermos os poiais afeiçoados à fachada principal, lugar sendo assim mais protegido, que no fim da jorna, incita à convivência. Uma arquitectura de fracos recursos mas nem por isso menos competente. Aliás, quem olha para o matagal vindo de Vila do Bispo e passando em Sagres não pode deixar de reparar nas tortuosas árvores e arbustos vencidos pela ventania constante, dobrados e inclinados para oriente. A casa também se defende desta constante. Normalmente em Taipa e adobe por dentro, o recurso a esta matéria é inevitável; barata, incombustível, estrutural, isolante às temperaturas ou muito frias ou muito quentes, acaba por ser também a economia do gesto e dos fracos recursos. Esta característica do material vai até ao Sotavento percorrendo toda a planície, barrocal e mesmo a serrania, sendo que esta última zona aproveita a pedra e o xisto nos palheiros circulares e de telhado de colmo na proximidade da casa.

Neste litoral ventoso e agreste surge por vezes aqui e ali a platibanda e tanto pode surgir na urbe (Aljezur como em Sagres e Lagos como na habitação isolada e com muito mais frequência no Sotavento.

Na zona Central (perto do Algarve-calcário) a casa é mais requintada, sobretudo em Silves, Loulé, os pormenores são aperfeiçoados, as platibandas com baixo-relevo, esgrafitos ou muito geometrizados e em quaisquer delas a cor fá-los sobressair e também a escaiola e os fingidos. Surge também com mais frequência a gárgula (que já desapareceu do léxico da construção civil) as açoteias e abóbadas que tomam a sua dimensão e profusão no litoral com especial relevo em Olhão e Fuseta (conhecem bem a cola de peixe que misturada com a cal dá uma espécie de grude, facilitando o manuseamento dos lambazes, tijolo ‘burro’ e tijoleiras) e sem dúvida a chaminé de balão quadrangular e mais rara a sextavada e a profusamente disseminada a chaminé ‘algarvia’ mais pequena na sua secção onde as grelhas sempre diferentes (ponto de honra dos pedreiros que tentam não repetir o seu desenho de casa para casa).

Faro, Olhão e Fuseta marcam a zona de charneira entre o Mediterrâneo e o vasto Atlântico sem fim à vista e mais tenebroso. As casas de ‘pedra e cal’ só tiveram grande incremento e autorização a partir de 1757 pela Casa da Rainha, de forma a substituir as cabanas de colmo situadas na praia. Fotografias há da coexistência entre estes tipos de construção – A Rua da Praia. O fumo da casa “cubista” é importantíssimo porque mais que a emoção vinda do lar que é um sentimento, companhia e afecto de quem se encontra no mar representa um aviso aos pescadores e contrabandistas. É a mulher que desempenha esse papel entre a horta e a preocupação do seu homem. (Deveras interessante os ‘Pescadores’ de Raul Brandão que toma apontamentos em amena cavaqueira com o contrabandista, e que, não pelo Algarve mas sim pelo País, tem sido quase esquecido).

Chegados a Tavira surgem telhados que parecem estranhos e cuja masseira dos tectos faz lembrar o ‘baú’, o tesouro, mas não o telhado, que ora termina no cume ora se prolonga na curta cumieira – é a Tesoura. As habitações são mais ricas, as cantarias trabalhadas com motivos florais e as portadas em rotulados ou melhor, em reixas. Assim temos a janela ventilada (que oculta quem está dentro e deixa ver quem está fora), semi em sombra debaixo de um Sol abrasador, cálido, que no seu auge impede quase a percepção do céu azul. Olhamos na horizontal e vemos bem definida ‘a curva da sela’ do telhado-beirado português que só tem paralelo no Japão (como dizia Orlando Ribeiro, extremo-oriente).

Vila Real de Santo António é pombalino numa arquitectura-construção de recurso como sempre foi, mas desta vez mais pobre e cuja malha continua a ser ortogonal. Outrora chamava-se (Santo António de) Arenilha de pedra e cal e cabanas e foi varrida pelo terremoto e marmoto em 1755. Pombal quis apagar tal triste memória e mudou-lhe o nome. Do que é relatado, enfim com algumas dúvidas, emergiu um vulcão ao largo e submergiu algum tempo depois, formando vagas às acrescidas pelo tremor das placas téctonicas ao largo do Cabo de S. Vicente.

Duma coisa é certa, toda a arquitectura, genericamente falando, é rebocada e quase sempre a cal, seja por cima da taipa, seja por cima do adobe e em finas camadas sobrepostas. E toda a arquitectura é pintada assim como a caixilharia.

Os elementos arquitectónicos e características que aqui são descritos servem de estímulo na recriação da habitação, mesmo que seja (e tanto quanto possível deve ser) em taipa ou adobe (ao contrário de outrora, hoje constrói-se em terra por opção e não por necessidade), material reaproveitado que retorna à Natureza e que ao contrário do que se pensa é completamente contemporâneo. Não se trata de fazer o cliché ou mimetismo mas de interpretar a realidade, expressão e actualidade na liberdade do espírito e da História que romanos, visigodos, berberes, almorávidas, almoadas e tantos outros povos nos deixaram, indelével, a memória com a sua cultura.

Construir é colaborar com a terra; é pôr numa paisagem uma marca humana que a modificará para sempre; é contribuir também para essa lenta transformação que é a vida das cidades. Quantos cuidados para encontrar a situação exacta de uma ponte ou de uma fonte, para dar a uma Estrada na montanha a curva ao mesmo tempo mais económica e mais pura…” ” …colaborar com o tempo sob o seu aspecto de passado, apreender- lhe ou modificar-lhe o espírito, servir-lhe de muda para um mais longo futuro; é reencontrar sob as pedras o segredo das origens.“ (Memórias de Adriano – Marguerite Yourcenar)

(Artigo publicado no Caderno Cultura.Sul de agosto)

(CM)

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