Leitura semana: Longe de Casa, de Peter Carey

Leitura semana: Longe de Casa, de Peter Carey

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Em 1768 uma expedição deixou a Inglaterra sob o comando do capitão James Cook e regressou em 1771, depois de fazer o reconhecimento de várias ilhas do Pacífico e visitar a Austrália e a Nova Zelândia. Nos cem anos subsequentes, as terras mais férteis foram retiradas aos seus ocupantes, os aborígenes na Austrália e os maoris na Nova Zelândia, cuja população decresceu em 90 % e foram racialmente discriminados.

A rubrica Leitura da Semana é publicada semanalmente à terça-feira; Paulo Serra é doutorado em Literatura na Universidade do Algarve e investigador do CLEPUL

Na Tasmânia, os nativos depois de viverem 10.000 anos em isolamento, foram completamente exterminados. Não sobrou ninguém. Mesmo depois de mortos, os seus corpos foram profanados e estudados por antropólogos e curadores de museus.

Neste magnífico novo romance, publicado pela Sextante, talvez um dos melhores da carreira de Peter Carey, autor nascido na Austrália que vive actualmente em Nova Iorque, duas vezes premiado com o Booker Prize, a intriga remonta a 1954, depois da Segunda Guerra Mundial portanto. Em capítulos alternados na primeira pessoa, entre Irene Bobs, a mulher de Titch, o melhor vendedor de carros do sudoeste da Austrália, e Willie Bachhuber, um jovem alemão, louro e bonito de 26 anos, em fuga à justiça, um mestre-escola suspenso, rato de biblioteca e vencedor (sem prémio) de um conhecido concurso radiofónico de cultura geral, o autor faz uma longa circunvolução na primeira parte do romance, isto é, em 160 páginas, o que constitui quase metade do livro.

Peter Carey foi duas vezes premiado com o Booker Prize (Fotos D.R.)

Percebemos, gradualmente, e conforme as personagens vão sendo despidas e reveladas na sua densidade psicológica, que a narrativa nos prepara para a eminente viagem em torno da Austrália, pois Titch quer a todo o custo entrar na Prova Redex Trial, ao ponto de convencer a mulher a juntar-se-lhe, para o poder controlar neste seu arroubo, se bem que ela própria percebe de carros e é boa condutora. E é também imediatamente antes da narração da viagem, uma corrida em volta do continente australiano à velocidade de 50 milhas por horas a que poucos carros sobrevivem, ficando atravessados na paisagem inóspita como carcaças, que percebemos afinal o segredo que Willie guarda. Note-se quando logo no início do romance ele se apresenta a Irene Bobs, sua vizinha: «Eu sou Willie Bachhuber, disse eu, porque a guerra tinha terminado há menos de dez anos e era melhor arrumar logo com a questão alemã.» (p. 20) Mas não é esse o segredo do nosso Willie, um jovem que fugiu à mulher e aos pais, a partir do momento em que o médico num esgar lhe mostra o filho, que nasceu negro e de cabelo preto.

Na última parte do romance, que se chama justamente «Uma bifurcação na estrada», temos 140 páginas de desfecho, em que a prova Redex – que primeiro serviu para apresentar o continente na sua magnitude e nos seus perigos, assim como o seu tecido social complexo e racista – é quase esquecida, conforme o romance dá uma guinada súbita para algo que foi sendo indiciado muito subtilmente, e apanha todos de surpresa, o leitor e a própria personagem que desconhecia as suas verdadeiras origens. Há pistas, naturalmente, como quando Irene Bobs encontra a caveira de uma criança na terra e tenta entregá-la às autoridades.

A capa do livro de Peter Carey

O narrador declarou em entrevista que há muito tempo que evitava abordar o tema do racismo, pois achava que não era essa a função de um escritor branco, mas neste seu décimo quarto romance, e o mais ousado, percebeu que não podia continuar a fugir à evidência de ser um escritor australiano branco beneficiário de um genocídio.

O final do romance tem alguma coisa de mito, e o próprio título ganha um sentido que vai além da corrida Redex, na forma como depois de descobrir a sua verdadeira origem étnica, aparentemente óbvia para todos os outros com que se confrontava, um mestiço que em criança foi levado por uma águia passa a viver como um aborígene, enquanto procura preservar o legado cultural desse povo em extinção, a «registar a verdade e manter o segredo» (p. 396) e educar a geração mais nova de puros nativos.

«O meu pai pode ter sido, como tantos deram a entender, um bem-intencionado antropólogo amador abelhudo, mas era também um homem instruído e muito culto, um intelectual cuja alma tinha sido seriamente deformada devido à prática de limpeza étnica do seu país.» (p. 391)

(CM)

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