Em defesa do Algarve

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“Os povos afirmam-se através da sua cultura e da sua história,
do orgulho nas belezas da sua terra e dos seus monumentos,
das suas proezas sociais e artísticas”.
Fernando Silva Grade (1955-2019)

A OPINIÃO de MARIA LUÍSA FRANCISCO Investigadora na área da Sociologia luisa.algarve@gmail.com

O Algarve tal como o destruímos foi o título dado por Fernando Silva Grade ao livro no qual em 2014 reuniu os seus textos e reflexões, num exercício de cidadania na defesa do património e do ambiente de Faro e do Algarve. 

O autor, biólogo de formação e pintor por vocação, referia que se expressava sobretudo através de imagens, e que durante muitos anos escreveu visualmente o Algarve. O seu livro foi o resultado dessa escrita visual, desse sentir e reagir ao que via na região onde nasceu.

Nos seus artigos, no blog, em posts e no referido livro, Fernando Silva Grade era muito pragmático e apresentava soluções. Valorizava profundamente a natureza e um modo de vida com menos desperdício. Considerava o turismo de natureza e o turismo cultural como alavancas para o futuro, sendo para isso importante preservar o património, a paisagem e as raízes culturais.

Indignava-se contra a facilidade da “betonização” do Algarve, considerava-se um lutador pela preservação da identidade algarvia e incluía-se, como refere no início do livro, na “geração de charneira que ainda vivenciou o Algarve impoluto, pleno de extasiantes e indescritíveis sortilégios”. 

Percebia-se que era genuíno, uma pessoa de sorriso sincero, mas também aguerrido, inquieto e inconformado: “aquilo que os meus olhos vêem todos os dias, condenou-me ao desassossego permanente”.

Refere a sua batalha contra a iniquidade do “genocídio cultural em curso no Algarve”, citando no livro esta expressão do historiador algarvio António Rosa Mendes (1954-2013).

Fernando Grade indignava-se contra a facilidade
da “betonização” do Algarve 

Fernando Silva Grade recebeu em Setembro de 2018, um ano antes da sua morte, a Medalha de Mérito Grau Ouro da Câmara Municipal de Faro, principalmente devido aos seus esforços pela defesa do património e do ambiente.

Defendeu entusiasticamente o património arquitectónico, tendo protestado contra a demolição de vários edifícios, tanto em Olhão como em Faro. O seu activismo passou também pela escrita de vários artigos em jornais regionais e nacionais e por várias entrevistas na televisão e na rádio.

Enquanto artista plástico, pintou principalmente os temas do património e da natureza algarvia. Participou em várias exposições desde 1988, tanto a nível individual como colectivo, no país e no estrangeiro. Em 2016 visitei a sua exposição antológica, Trajectos na Galeria Arco, em Faro, que muito apreciei pela riqueza dos pormenores em cada quadro e pelos contrastes de luz e sombra com que retratou paisagens da região.

Ao voltar a pegar no livro O Algarve tal como o destruímos, que apresentei no Sotavento e no Barlavento, em 2014, ano em que foi publicado pela Escritório Editora, encontrei esta anotação manuscrita: “Fernando Silva Grade sonha com um Algarve onde as casas no meio rural ainda possam continuar a ser caiadas e com a brancura a contrastar com a pedra, em vez do uso de tinta plástica. Casas onde as portas e janelas de madeira não sejam substituídas pela caixilharia de alumínio.”

Tinha uma sensibilidade artística e ambiental que o tornaram um dinamizador de várias iniciativas contra a descaracterização da região e a favor de um Algarve mais genuíno.

Acredito que essas iniciativas terão continuidade, porque temos neste território gente atenta e empenhada em construir um Algarve tal como o idealizamos! 

(Artigo publicado no Caderno de Artes Cultura.Sul)

(CM)

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