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POSTAL associa-se à Festa dos Anos de Álvaro de Campos com um mês de poesia

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Postal do Algarve participa da FESTA publicando, ao longo do mês de outubro, uma seleção de textos e poemas relacionados com a temática a cada ano explorada pelos artistas e estudantes envolvidos na realização de cada edição.

A Festa dos Anos de Álvaro de Campos decorre até 30 de novembro em Tavira
(Foto Cláudia Perdigão / D.R.)

CHUVA OBLÍQUA II. Fernando Pessoa. 8-3-1914

 “E o que há de mais admirável na obra do Fernando Pessoa é esse conjunto de seis poemas, essa Chuva Oblíqua. Sim, poderá haver ou vir a haver, coisas maiores na obra dele, mas mais originais nunca haverá, mais novas nunca haverá, e eu não sei portanto se as haverá maiores. E, mais, não haverá nada de mais realmente Fernando Pessoa, de mais intimamente Fernando Pessoa. Que coisa pode exprimir melhor a sensibilidade sempre intelectualizada, a atenção intensa e desatenta, a subtileza quente da análise fria de si mesmo, do que esses poemas-intersecções, onde o estado de alma é simultaneamente dois, onde o subjetivo e o objetivo, separados, se juntam, e ficam separados, onde o real e o irreal se confundem, para que fiquem bem distintos. Fernando Pessoa fez nesses poemas a verdadeira fotografia da própria alma. Num momento, num único momento, conseguiu ter a sua individualidade que não tivera antes nem poderá tornar a ter, porque a não tem.”

Álvaro de Campos 

Ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia, 
E cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça… 

Alegra-me ouvir a chuva porque ela é o templo estar aceso, 
E as vidraças da igreja vistas de fora são o som da chuva ouvido por dentro… 

O esplendor do altar-mor é o eu não poder quase ver os montes 
Através da chuva que é ouro tão solene na toalha do altar… 

Soa o canto do coro, latino e vento a sacudir-me a vidraça 
E sente-se chiar a água no facto de haver coro… 

A missa é um automóvel que passa 
Através dos fiéis que se ajoelham em hoje ser um dia triste… 
Súbito vento sacode em esplendor maior 
A festa da catedral e o ruído da chuva absorve tudo 
Até só se ouvir a voz do padre água perder-se ao longe 
Com o som de rodas de automóvel… 

E apagam-se as luzes da igreja 
Na chuva que cessa…                                                         

1ª publ. in Orpheu, nº 2. Lisboa: Abr.-Jun. 1915.

NOTA: A FESTA DOS ANOS DE ÁLVARO DE CAMPOS 2019decorre até ao próximo dia 30 de novembro, em Tavira, com poesia, momentos musicais, cinema, jantares vínicos, exposições, entre outros eventos, cujo programa pode acompanhar AQUI.

(CM)

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