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POSTAL associa-se à Festa dos Anos de Álvaro de Campos com um mês de poesia

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O Postal do Algarve participa da FESTA publicando, ao longo do mês de outubro, uma seleção de textos e poemas relacionados com a temática a cada ano explorada pelos artistas e estudantes envolvidos na realização de cada edição.

A Festa dos Anos de Álvaro de Campos decorre até 30 de novembro em Tavira
(Foto Pedro Santos / A|NAFA)

MESTRE, MEU MESTRE QUERIDO! Álvaro de Campos [invocando Alberto Caeiro]

Mestre, meu mestre querido!
Coração do meu corpo intelectual e inteiro! 
Vida da origem da minha inspiração!
Mestre, que é feito de ti nesta forma de vida? […]
Alma abstrata e visual até aos ossos,
Atenção maravilhosa ao mundo exterior sempre múltiplo,
Refúgio das saudades de todos os deuses antigos,
Espírito humano da terra materna,
Flor acima do dilúvio da inteligência subjetiva…

Mestre, meu mestre! 
Na angústia sensacionista de todos os dias sentidos, 
Na mágoa quotidiana das matemáticas de ser, 
Eu, escravo de tudo como um pó de todos os ventos, 
Ergo as mãos para ti, que estás longe, tão longe de mim!

Meu mestre e meu guia! 
A quem nenhuma coisa feriu, nem doeu, nem perturbou, 
Seguro como um sol fazendo o seu dia involuntariamente, 
Natural como um dia mostrando tudo, 
Meu mestre, meu coração não aprendeu a tua serenidade. 
Meu coração não aprendeu nada. 
Meu coração não é nada, 
Meu coração está perdido. […]
Mestre, só seria como tu se tivesse sido tu.
Que triste a grande hora alegre em que primeiro te ouvi! 
Depois tudo é cansaço neste mundo subjetivado,
Tudo é esforço neste mundo onde se querem coisas, 
Tudo é mentira neste mundo onde se pensam coisas, 
Tudo é outra coisa neste mundo onde tudo se sente. 
Depois, tenho sido como um mendigo deixado ao relento 
Pela indiferença de toda a vila.

[…]

Depois, tenho sido eu, sim eu, por minha desgraça,
E eu, por minha desgraça, não sou eu nem outro nem ninguém 
Depois, mas porque é que ensinaste a clareza da vista,
Se não me podias ensinar a ter a alma com que a ver clara? 
Porque é que me chamaste para o alto dos montes  […]
Se eu, criança das cidades do vale, não sabia respirar? 
Porque é que me deste a tua alma se eu não sabia que fazer dela 
Como quem está carregado de ouro num deserto, 
Ou canta com voz divina entre ruínas?
Porque é que me acordaste para a sensação e a nova alma, 
Se eu não saberei sentir, se a minha alma é de sempre a minha?

Prouvera ao Deus ignoto que eu ficasse sempre aquele 
Poeta decadente, estupidamente pretensioso, 
Que poderia ao menos vir a agradar, 
E não surgisse em mim a pavorosa ciência de ver. 
Para que me tornaste eu? Deixasses-me ser humano!

Feliz o homem marçano, 
Que tem a sua tarefa quotidiana normal, tão leve ainda que pesada. 
Que tem a sua vida usual, 
Para quem o prazer é prazer e o recreio é recreio. 
Que dorme sono, 
Que come comida, 
Que bebe bebida, e por isso tem alegria.

A calma que tinhas, deste-ma, e foi-me inquietação. 
Libertaste-me, mas o destino humano é ser escravo.
Acordaste-me, mas o sentido de ser humano é dormir.

15-4-1928                                                                                                

Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. 

NOTA: A FESTA DOS ANOS DE ÁLVARO DE CAMPOS 2019decorre até ao próximo dia 30 de novembro, em Tavira, com poesia, momentos musicais, cinema, jantares vínicos, exposições, entre outros eventos, cujo programa pode acompanhar AQUI.

(CM)

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