Temos mesmo que começar a tentar salvar o Mundo…

Temos mesmo que começar a tentar salvar o Mundo…

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A OPINIÃO de ANA AMORIM DIAS Escritora www.anaamorimdias.blogspot.com anamorimdias@gmail.com
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Escritora
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anamorimdias@gmail.com

Devia ter dez anos e tinha acabado de entrar para a escola preparatória quando o episódio se deu. Um colega, sem fazer a mínima ideia do que estava a fazer, levantou o braço em ple­na aula e esticou a mão para a frente, à boa maneira nazi. O professor, muito calmo, inter­rompeu a aula e perguntou-lhe se ele conhecia o significado de tal gesto. Depois imprimiu uma dignidade e emoção tão grandes à explicação, que to­dos nos prendemos às suas pa­lavras. Não sei se foi nesse dia que ouvi falar pela primeira do Hitler, dos judeus perseguidos, dos horrores do nazismo e suas ideologias. Mas sei que me fi­cou para sempre na memória a sensação de incredulidade que aquela aula me trouxe.

Tinha dez anos e não conse­gui entender como podia tal monstro ter existido, e pior: ter sido cegamente seguido por tantos.

Seguiu-se o percurso nor­mal: as leituras (três ou quatro se bem recordo) do Diário de Anne Frank, as ‘entrevistas’ a todos os ‘mais velhos’ que me pudessem explicar melhor o ho­locausto; o escutar horrorizado de narrativas em primeira mão que consegui de estrangeiros… E depois a queda do muro de Berlim; a alegria e a esperança de que a Alemanha, a Europa e o Mundo tivessem aprendi­do com tais aberrações; a sen­sação de tranquilidade (quão inocentes podemos ser na ju­ventude…) e confiança de que o Homem não voltaria a permitir tais monstruosidades.

É pena não termos dez anos para sempre.

Ou então não.

Ou então ainda bem que crescemos e percebemos que os monstros do passado, que acreditávamos extintos, deam­bulam ainda entre nós, crescen­do e tomando uma força que jamais julgamos que voltasse a ser possível.

É. Ainda bem que crescemos e que, em vez de nos esgotar­mos em inocências e esperan­ças, passamos a ter a capacidade de agir.

Espero que muitos dos lou­cos que têm recomeçado, por esse mundo fora, a reabilitar os monstruosos desvalores nazis, sejam como o meu colega de aula dessa manhã tão distante: seres inconscientes do que pro­clamam por mera estupidez ou ignorância, reabilitáveis portan­to em caso de esclarecimento.

Quanto aos outros, os escla­recidos convictos… bem, que tenhamos todos calma e força para, um por um, lhes irmos mudando as convicções.

Boa sorte, amigos, e coragem, porque cada vez mais me con­venço que temos mesmo de co­meçar a tentar salvar o Mundo.

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