Gestão cultural do património: o caso de Tavira (I)

Gestão cultural do património: o caso de Tavira (I)

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A OPINIÃO de Jorge Queiroz Sociólogo e membro da Direção da AGECAL
A OPINIÃO de JORGE QUEIROZ;
Sociólogo e membro da Direção da AGECAL

O reencontro do Algarve com a sua história e património é tarefa cada vez mais necessária. Alguns passos importantes foram dados nos últimos anos mas insuficientes.

A região começou a desenvolver a sua rede museológica após o ano 2000. Este atraso no estudo da herança cultural explica a visão deturpada de região “sem história” ou monumentos significativos, mas excelente local de férias e lazer, com “muita animação”…

O Algarve possui um conjunto de cidades, constituídas em épocas e contextos históricos diferentes, as quais em complementaridade dariam um projecto cultural excepcional. A verdade é que a região não teve um museu nacional e foi até 2013 a única região do país sem inscrição nas listas da UNESCO. A Ria Formosa, o mais extraordinário ecossistema lagunar do País, porque nunca foi candidatada a Património Mundial? 

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A cultura é o elemento de afirmação mais relevante que Portugal possui num contexto de globalização, elemento menos valorizado mas central no desenvolvimento regional. Com um plano estratégico bem estruturado, o Algarve ficará mais qualificado também do ponto de vista turístico.

O que “vende” não são “produtos” mas o que precede, valores espirituais, paisagens, paz, ambiente, herança cultural…

Referirei neste texto o caso de Tavira, mas outras cidades poderíamos também abordar.

Tavira é uma das três cidades patrimonialmente mais ricas e diversas do sul de Portugal, não apenas pela elevada densidade de ocorrências monumentais, 21 igrejas em 66 hectares do centro histórico, castelo, fortalezas, conventos, quartel pombalino, arquiteturas de todas as épocas, telhados de tesouro, armações, salinas, telheiros, mas também pelo património imaterial reconhecido pela UNESCO em 2013 com a inscrição da dieta mediterrânica na lista do PCI da Humanidade.

Na 2ª metade do seculo XIX, Estácio da Veiga, natural de Tavira, pioneiro da arqueologia portuguesa, descobriu Balsa romana e outras estruturas arqueológicas, sonhou e pugnou, sem sucesso, para que o Algarve tivesse uma unidade museológica dedicada à sua história e património. Certamente terá pensado na sua própria cidade…

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Tavira é uma das três cidades patrimonialmente mais ricas e diversas do sul de Portugal

O Museu Municipal de Tavira nascido em 2002, editou em 2013 um catálogo da exposição “Memória e futuro – património, colecções e a construção de um museu para Tavira”, no qual se fundamenta as opções da sua criação que correspondem a aspirações de décadas e percepção da riqueza patrimonial e de um percurso milenar com origem no seculo VIII a. C. confirmada pelos vestígios de um povoamento fenício na “colina genética”.

Em “Geografia e Civilização”, Orlando Ribeiro, referência incontornável da geografia humana, chamou a atenção para a forte presença no Algarve das culturas mediterrânicas da Antiguidade e dedicou um extenso capítulo a Tavira, “cidade-estuário” e porto mais importante da região desde o início da nacionalidade. Descreve que em 1282 o rei D. Dinis concedeu aos marinheiros do porto de Tavira privilégios iguais aos de Lisboa “por ser o de maior movimento para o estrangeiro”.

D. João I esteve na cidade no regresso da tomada de Ceuta em 1415 e armou os filhos cavaleiros na Igreja de Santa Maria, D. João II viveu na cidade com a corte para organizar a armada que foi construir a fortaleza de Larache. Era a cidade portuguesa mais próxima do norte de África, dela partia e chegava gente das praças marroquinas envolvida na construção de fortificações e nos abastecimentos. Segundo fontes históricas citadas em 1508, concentraram-se em Tavira, em apenas cinco dias, 20 mil homens para acudir a Arzila cercada. Hoje seria um número excepcional,…

Frei João de São José na “Corografia do Reino do Algarve” (1577), considerada por Romero de Magalhães “a mais notável corografia do Renascimento em Portugal”, escreveu que Tavira “sem alguma dúvida é, ao presente, e sempre foi a principal do Reino do Algarve”…

Esta riqueza patrimonial interroga de forma crescente um determinado discurso histórico. Obviamente Tavira esteve ligada desde os primórdios às Descobertas Portuguesas do século XV e XVI, o seu esquecimento ou apagamento é injustificável do ponto de vista científico. O fenómeno do “henriquinismo” modelado pelo Infante e o seu cronista Zurara, já após a morte do pai e irmãos, construiu uma versão da história das descobertas que continua influente.

No âmbito da gestão dos recursos culturais, o Museu Municipal de Tavira é um dos instrumentos mais importantes na tarefa de valorizar a herança cultural desta cidade portuguesa, um trabalho que deu frutos com as exposições e catálogos de “Tavira, patrimónios do mar” (2008), “Cidade e Mundos Rurais” (2010), “ A I Republica em Tavira “ (2010), “Fotografar” (2011), “Memória e Futuro” (2013), “Dieta Mediterrânica – património cultural milenar” (2013), também a exposição no Museu Nacional de Arqueologia (2001).

O País e o Algarve devem investir recursos na investigação e nos seus museus.

(Artigo publicado no Caderno Cultura.Sul de Fevereiro)

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