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Dos Templários à Ordem de Cristo no Algarve: Um património com potencial turístico a valorizar

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A OPINIÃO de MARIA LUÍSA FRANCISCO Investigadora na área da Sociologia luisa.algarve@gmail.com
A OPINIÃO de MARIA LUÍSA FRANCISCO
Investigadora na área da Sociologia
luisa.algarve@gmail.com

Neste artigo farei um breve enquadramento da presença Templária e da Ordem de Cristo no Algarve. Farei também algumas sugestões para actividades de valorização patrimonial e turística associadas ao legado templário e da Ordem de Cristo.

Os Templários caracterizam-se como um dos maiores fenómenos da história ocidental, inclusivamente a temática templária tem sido um fenómeno literário.

Desde o surgimento dos Templários como Ordem Militar internacional em 1119 até ao declínio, alcançaram a condição de maior força bélica e religiosa da Europa medieval.

A Ordem do Templo (Templários) introduzida em Portugal a partir do ano 1126, para além da presença no campo de batalha contribuiu para a consolidação do espaço geográfico do território português.

Os Templários tiveram um papel importante desde a fundação do país com D. Afonso Henriques até aos Descobrimentos, nessa altura já transformados em Ordem de Cristo.

Os Templários fazem assim parte da história de Portugal. No que diz respeito ao Algarve a sua presença remete para Castro Marim e Tavira.

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A Ermida de Nossa Senhora de Guadalupe (concelho de Vila do Bispo) tem placa alusiva à presença do Infante D. Henrique (Fotos: DR)

Quanto à Ordem de Cristo a presença remete para Castro Marim, Lagos e Vila do Bispo.

Trata-se, por isso, de localidades que têm potencial para desenvolver actividades de valorização histórico-patrimonial e turística associadas ao legado templário e ao legado da Ordem de Cristo. Existem muitos factos históricos e muitas histórias que podem fazer parte de uma narrativa orientada para a informação a viajantes e turistas.

Os Templários foram os primeiros a, em nome do Rei de Portugal, guardar a entrada do Rio Guadiana.

Foi uma zona de grande importância estratégica, tanto que D. Afonso III ordenou o repovoamento de Castro Marim, em 1272, para lhe conceder, em 1277, carta de foral, com o objectivo de atrair população para esta localidade. Nesta altura já o Algarve tinha sido conquistado aos mouros, por D. Paio Peres Correia, com a ajuda dos Cavaleiros da Ordem de Santiago, da qual chegou a ser Grão-Mestre.

O Castelo de Castro Marim foi construído em 1274. Em 1279 já no reinado de D. Dinis, foi construída a cerca medieval, que protegia o casario exterior. Este Castelo tornou-se um dos mais importantes do Algarve e foi a sede da Ordem de Cristo entre 1319 e 1356.

Castro Marim, pela sua localização geo-raiana, conseguiu atrair, com a ajuda do rei D. Dinis e pela bula papal instituída pelo papa João XXII, a Ordem de Santiago. Ordem que terá herdado alguns bens dos Templários extintos em 1312, mas foi a Ordem de Cristo a principal herdeira.

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Peça escultórica alusiva aos Templários com inscrição ‘Cavaleiro da Ordem’ situada na rotunda principal de Castro Marim

Em Castro Marim, tal como já foi referido, estiveram os Cavaleiros Templários, também conhecidos por Cavaleiros da Ordem do Templo. Nesta vila foi criada, em 1319, a primeira sede da Ordem de Cristo, posteriormente transferida para Tomar em 1356.

O facto de uma Ordem de matriz nacional ter tido implantação regional, ou seja, em Castro Marim, valorizou este território, no entanto, com a ida da Ordem de Cristo para Tomar a importância do Castelo foi diminuindo e a vila começou a despovoar-se, apesar dos privilégios atribuídos pelos monarcas.

O legado no Algarve

Com este forte legado, Castro Marim poderia valorizar mais o seu património criando uma Rota Templária, que atraísse visitantes entusiastas do turismo religioso e militar.

Poderia promover por exemplo umas Jornadas sobre Templários e/ou sobre Ordem de Cristo. Por exemplo os encontros, retiros ou investiduras das Ordens que têm por base a Cavalaria Espiritual Templária, poderiam realizar-se em Castro Marim.

A peça escultórica existente na rotunda principal e entrada da vila, com a inscrição “Cavaleiro da Ordem”, chama a atenção para a presença das Ordens de Cavalaria e abre o desejo ao visitante de conhecer algo mais neste âmbito.

O facto de o Castelo estar classificado como Monumento Nacional (desde 1910) poderia ser “explorado” com mais actividades para além da Feira Medieval, designada por Dias Medievais em Castro Marim, que irá este ano para a sua XXI edição.

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Documento da Fundação do Convento de S. Francisco em Tavira pelos Templários

Em Tavira a presença templária está associada ao antigo Convento de São Francisco, que foi fundado pelos Templários. Existe um Documento, na Torre do Tombo, que refere a Fundação deste Convento.

O Infante D. Henrique e a Ordem de Cristo

Em Maio de 1420, o Infante D. Henrique foi nomeado Grão-Mestre da Ordem de Cristo, cargo que deteve até ao fim da vida.

Com D. Henrique a Ordem teve um cunho internacional, nacional e regional a partir do Algarve.

O Infante passou uma importante parte da sua vida no Algarve e foi o único príncipe português que morreu nesta região, a 13 de Novembro de 1460.

A Ermida de Nossa Senhora de Guadalupe (situada entre Budens e Raposeira – Vila do Bispo), segundo alguns historiadores, foi construída aquando da presença templária, para outros está associada ao Infante D. Henrique. Existe uma placa na Ermida que refere que o Infante rezava naquele local. Este espaço tem sido utilizado para concertos e também poderia ter um percurso ligado à presença do Infante D. Henrique, aos feitos associados aos Descobrimentos como reforço da identidade regional.

No mês passado decorreram em Lagos Jornadas Templárias. O tema destas Jornadas foi – Esperança e Caridade – na perspectiva da corrente doutrinária, filosófica, sociológica, espiritual ou religiosa professada por cada um dos convidados.

Por ter sido investida em 2016 numa Ordem Internacional de inspiração templária apreciei esta iniciativa e espero que mais Jornadas e Celebrações aconteçam para maior conhecimento, aceitação e partilha, caminhando para um mundo melhor, mais fraterno, em que os valores cristãos sejam uma bandeira a elevar bem alto.

(Artigo publicado no Caderno Cultura.Sul de Maio)

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