A falácia da vitória

A falácia da vitória

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A OPINIÃO de ADRIANA NOGUEIRA; Classicista; Professora da Univ. do Algarve adriana.nogueira.cultura.sul@gmail.com
A OPINIÃO de ADRIANA NOGUEIRA;
Classicista;
Professora da Univ. do Algarve
adriana.nogueira.cultura.sul@gmail.com

Havia na casa dos meus pais um livro de contos de Mark Twain (autor sobejamente conhecido por ter criado as personagem de Tom Sawyer e Huckleberry Finn), que eu muito gostava de ler. Ao mesmo tempo que me fascinava algum absurdo que caracterizava aquelas histórias, incomodavam-me outras, que me deixavam a pensar, durante uns tempos, no seu conteúdo. O que não é mau: um pouco de inquietação tira-nos da nossa zona de conforto, como agora se diz, mas isso também é estimulante.

Esse livro tem contos com bastante graça, a roçarem o surreal (como «O criado negro de George Washington», que descreve o nonsense da notícia da morte daquele homem, repetida durante décadas; ou «A entrevista», uma história em que o entrevistado não sabe se foi ele ou o irmão gémeo que morreu afogado em criança), porém, houve um que me perturbou especialmente, por destruir as crenças que me confortavam. Nunca mais me esqueci de «A história do menino que não teve contratempos». É uma narrativa bem-humorada, mas desencantada, que descreve a realidade (ou uma realidade), em confronto com o idealismo a que a Literatura, por vezes, nos leva, ridicularizando um certo tipo de textos piedosos e moralistas. Assim, enquanto, nessas histórias, os meninos maus (normalmente chamados Jaiminho, diz o autor) «têm uma mãe doente, piedosa e tísica, dessas que desejariam estar em repouso no túmulo, se não fosse o grande amor que dedicam ao filho», a mãe deste Jaiminho «nada tinha de tuberculosa, ou coisa parecida. Era, antes, robusta, e muito pouco piedosa. Além disso, preocupava-se muito pouco com o filho. Dizia mesmo que, se ele morresse, não se perderia grande coisa».

Capa de Contos, de Mark Twain
Capa de Contos, de Mark Twain (Fotos: DR)

O narrador dá vários exemplos de como a realidade diverge da ficção, como daquela vez em que, na escola, Jaiminho roubou um corta-papéis ao professor e o escondeu dentro do chapéu de George, um menino bom e excelente aluno. «O professor acusou-o de roubo, ia bater-lhe, mas – coisa estranha! – não apareceu lá nenhum daqueles inverosímeis juízes de paz, de cabelos brancos, a dizer em atitude teatral: “– Perdoai a esse nobre jovem! Ele está a ocultar o verdadeiro culpado! Eu passava casualmente pela porta, e vi sem ser visto, como o roubo foi perpetrado!” Jaiminho não apanhou uns bofetões, nenhum venerável juiz condecorou a comovida escola, ninguém agarrou George pelo braço, dizendo-lhe que um jovem como ele merecia todos os aplausos. (…) Não. Assim está e é nos livros, mas a Jaiminho não aconteceu tal coisa. Nenhum intrometido juiz se interpôs, e George, o menino modelo, apanhou as pancadas, com grande alegria de Jaiminho (…). Mas a coisa mais estranha ocorreu, quando, num domingo, indo remar, não se afogou (…). Podeis procurar e reprocurar nos livros religiosos e nada entrareis de parecido. Qual! Vereis que todos os meninos maus que vão remar aos domingos, invariavelmente se afogam. (…) Jaiminho cresceu, casou-se e teve muitos filhos. (…) Agora é o canalha mais perverso da terra, desfrutando de respeito universal e foi eleito membro do corpo legislativo da cidade.»

Esta história veio-me à memória, há dias, ao assistir a uma palestra de Robert Wallace, docente na Northwestern University (E.U.A.), sobre Tucídides (historiador grego que, no século V a.C., escreveu sobre a guerra que opôs Atenas a Esparta durante 27 anos). A tese do professor Wallace é a de que Tucídides, no fundo, é um moralista, porque apresenta os factos presentes na Guerra do Peloponeso de modo a salientar a ideia de que Atenas perdeu devido às suas más ações, como uma espécie de punição que sempre acontece a quem não age corretamente.

Claro que Tucídides não nos conta tudo, nem o que narra é exatamente fiel aos acontecimentos (a que temos acesso por outras fontes), mas esta leitura do professor Robert Wallace é interessante e, de algum modo, satisfaz a nossa necessidade de explicação para o resultado final. O comportamento dos Atenienses mudou ao longo do tempo. Se, inicialmente, mantêm uma posição de bom senso, afirmando não desejar entrar em guerra e ajudando os aliados, mostram, com as sucessivas vitórias que vão tendo, ser tão impiedosos como os seus inimigos. Um dos momentos mais intensos é a conversa travada entre Atenienses e Mélios (habitantes da ilha de Melos. Curiosidade: foi aqui que foi encontrada a famosa estátua que está no Museu do Louvre, conhecida como «Vénus de Milo». Na verdade, esta obra deveria ser chamada de «Afrodite [porque é o nome grego da deusa Vénus] de Melos»).

Diálogo dos Mélios

Este encontro entre Atenienses e os representantes dos Mélios mostra como aqueles se comportaram quando consideraram ser os mais fortes.

Capa de História da Guerra do Peloponeso, de Tucídides
Capa de História da Guerra do Peloponeso, de Tucídides

Os Atenienses querem que os Mélios se aliem a si, contra os Espartanos. Os Mélios, aliados dos Espartanos, querem manter-se neutrais. Atenas não pode consentir. Os Mélios relembram-lhes que, um dia, poderão estar na mesma situação, mas os Atenienses não se comovem, talvez, porque, diz Tucídides, é «costume dos homens confiar aquilo que desejam vivamente à esperança, que não pensa, e usar raciocínio teimoso para rejeitar o que não querem» (5.108.4). O que eles revelam, sem pejo, é a sua política de manutenção e aumento de poder e o seu envolvimento nessa engrenagem: submetem os mais fracos, receiam os mais fortes, e têm necessidade de apresentar os Mélios como exemplo da sua força, pois, como potência marítima, não podiam permitir que houvesse uma ilha que não fosse sua aliada. O diálogo é cru:

«Atenienses: (…) sabeis, como nós sabemos, que o que é justo na vida humana só é avaliado em circunstâncias equivalentes, e que os mais fortes fazem o que podem, enquanto os mais fracos fazem o que devem. (…)

Mélios: Desta forma vós não permitis que, ao sermos neutrais, sejamos vossos amigos em vez de inimigos, sem sermos aliados de nenhuma das partes?

Atenienses: Não é assim. A vossa hostilidade não nos fere tanto quanto a vossa amizade, porquanto esta será uma prova da nossa fraqueza frente aos que são nossos súbditos, enquanto o ódio é prova do nosso poder» (5. 94-5)

Os Mélios não cederam. Um tempo depois, os Atenienses mataram todos os homens da ilha e escravizaram as mulheres e as crianças.

Contudo, como já os Espartanos lhes haviam dito: «não é normal que […] pensem que a sorte estará sempre convosco» (4.18.3.), no final, Atenas perde a guerra.

Mark Twain acaba por cair na mesma lógica, porque Jaiminho não pode ter tido só sucessos com as suas maldades, assim como Esparta não ficou vitoriosa para sempre, nem Atenas permaneceu como eterna perdedora. Antes pelo contrário. Uns séculos mais tarde, já súbdita do império romano, o poeta Horácio afirma que a Grécia (referindo-se, provavelmente, a Atenas, a mais significativa representante da cultura helénica), mesmo capturada, na verdade, foi ela que capturou o seu feroz vencedor, aludindo ao valor que Roma, apesar de vitoriosa, dava àquela civilização: Graecia capta ferum victorem cepit 

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