Leitura da semana: Outras Pessoas, de Martin Amis

Leitura da semana: Outras Pessoas, de Martin Amis

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A rubrica Leitura da Semana é publicada semanalmente à terça-feira; Paulo Serra é doutorado em Literatura na Universidade do Algarve e investigador do CLEPUL
A rubrica Leitura da Semana é publicada semanalmente à terça-feira;
Paulo Serra é doutorado em Literatura na Universidade do Algarve e investigador do CLEPUL

Quando Mary acorda num hospital de Londres – sabemo-lo porque a contracapa acaba por o explicar, pois na verdade o leitor apenas encontra sugestões –, começa um périplo pela cidade em que percebemos que, primeiro, Mary se depara com as outras pessoas, através das quais tenta perceber o mundo que a rodeia, como se o visse pela primeira vez, e, segundo, tenta recuperar a memória da sua vida anterior, pois Mary afinal é uma «amnésica», num mundo que parece estar em chamas.

A perseguição da memória de Mary Lamb, aliás Amy Hide, surge como uma alegoria e reflexão da vida, feita de parâmetros ditos normais (um emprego significa vender o tempo), feita da rotina, feita de pessoas, e feita substancialmente de livros (para Mary e para grande desconcerto dos que a encontram): «Uns quantos livros estavam mortos – estavam vazios, não tinham realmente nada dentro. Mas alguns estavam vivos: expandiam-se para nós parecendo conter todas as coisas, como oráculos, como alefes. E quando ela se orientava para acordar cedo, eles estavam ainda abertos na mesa, bem conscientes do seu poder, aguardando friamente.» (pág. 133)

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Martin Amis autor do livro ‘Outras Pessoas’ (Fotos: D.R.)

Há ainda laivos de distopia neste livro, como acontece, por exemplo, com os corpos dessas outras pessoas com que Mary se vai cruzando: «Havia muitos corpos realmente maus à volta de onde viviam, com falta de bocados ou bocados acrescentados, ou torcidos, ou esticados. Portanto, Mary estava satisfeita com o seu; e era tudo muitíssimo interessante.» (pág. 66)

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Martin Amis, autor publicado pela Quetzal, faz ainda, como não podia deixar de ser, uma crítica subtil ao mundo na era do capitalismo, um mundo que vive essencialmente de sexo e de dinheiro, os principais bens a oferecer: «Pensava que era a vida que era pobre. Agora sabe que não precisa de ser – pobre, pobre, não, nesse sentido. Pensava que o dinheiro só acontecia nos livros. (…) A vida é interessante, a vida tem muito que se lhe diga, mas a vida pode ser tremendamente pobre. Agora Mary sabe isso. Viu o suficiente das pessoas abastadas, mal-encaradas nas lojas e nos carros. Não quer o dinheiro delas; só quer o tempo delas. E a mudança da luz diz-lhe qualquer coisa sobre os pobres e o inverno.» (pág. 182-183)

Outras Pessoas
A capa da obra de Martin Amis

Intrigante, enigmático, desconcertante, são muitos os adjectivos que se podem aplicar a este livro também rotulado de «thriller metafísico», mas é certo que cativa e seduz o leitor, mantendo-o preso.

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