A propósito de uma tertúlia

A propósito de uma tertúlia

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Miguel Xavier Sequeira; Professor e escritor
Miguel Xavier Sequeira;
Professor e escritor

No passado dia 9 de Agosto, na Feira do livro de Lagos, assisti a uma pequena tertúlia entre os humoristas Jorge Serafim e Carlos Cunha dos Commedia a la Carte. A propósito dessa conversa apraz-me dizer o seguinte.

Há uns anos o humorista Ricardo Araújo Pereira foi entrevistado pela jornalista Judite de Sousa. No início da entrevista ela perguntou-lhe: “Como apareceu o humor na sua vida?” Ele respondeu o seguinte: “Não querendo fazer psicanálise, a minha avó enviuvou muito cedo e tornou-se numa pessoa muito séria e sisuda. Quando eu era pequeno a minha grande alegria era conseguir fazê-la rir”.

O humorista Carlos Cunha no meio do seu discurso pelas peripécias da sua vida falou da técnica de improvisação dos Commedia a la Carte. Às tantas referiu o seguinte:” Há uns tempos lembrei-me que no início da minha adolescência tinha uns amigos em que as nossas conversas tinham uma forma muito particular e hoje em dia percebo que aquilo foi o início da minha técnica de improvisação que utilizo hoje em dia quando faço comédia”. Ele podia ter começado este assunto dizendo “Não querendo fazer psicanálise…”. Sempre que aprofundamos um assunto ele torna-se em princípio mais interessante.

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De que forma um discurso se pode tornar mais atrativo?

No discurso do Professor Agostinho da Silva a arte, o conhecimento e a história fundiam-se como se de um poema se tratasse. Referiu ele o seguinte: ”Todos nós nascemos com igual possibilidade de criar, só que muitas vezes não acertamos no campo em que podíamos triunfar, ou a vida nos põe em condições, que não permita de nenhuma maneira que a nossa poesia se exprima. E talvez a revolução a fazer-se no mundo seja a revolução salvadora dos poetas. Dar condições materiais de vida, para que cada criança que nasça possa ser o poeta que é até ao fim. Morra poeta”.

A poesia entra normalmente dentro de um discurso para o elevar, para acrescentar brilho, clareza e pureza.

A intelectualização do humor em Portugal é uma realidade, algo que já se tinha verificado noutros países. Ricardo Araújo Pereira numa entrevista referiu o seguinte: ”Descobri muito cedo que gostava demasiado de palavras”. Herman José numa das suas inúmeras entrevistas disse o seguinte:” Penso que me tornei numa pessoa interessante”.

Para ele o conhecimento, a experiência de vida, a capacidade de observação e a sua inata curiosidade fizeram com que o seu discurso se tornasse interessante.

A intelectualização de algo, no fundo, não é mais do que acrescentar cultura ao conhecimento e à experiência.

A escritora Lídia Jorge escreveu o seguinte: “A fala é o perfume da alma”. Ou seja, aquilo que falamos e a sua forma diz muito sobre como e quem somos. O cuidado com que falamos é também uma forma de intelectualização.

Os atores e os humoristas vivem dentro deste processo, pois têm que preparar o texto, aquilo que dizem e como dizem é preparado cirurgicamente. Existe um pensar sobre o que vai ser dito e transmitido.

O grupo humorístico Gato Fedorento assentava a sua genialidade na forma como radiografavam a sociedade portuguesa através do humor. E tinham como premissas a língua portuguesa, a cultura e a palavra. Eu diria que existia um pensar humorístico, que de certa forma o intelectualizava. Só daqui a uns anos vamos poder entender a verdadeira importância deste grupo para a sociedade portuguesa.

A intelectualização de algo só é benéfico se tiver como base a humildade.

A humildade traz mais sabedoria ao nosso viver e aos nossos discursos.

Um bom discurso tem sempre como base o crescimento interior através da cultura.

Alexandre O`Neil escreveu um dia que “À medida que vou avançando na minha obra, vou avançando culturalmente”. Nada me parece mais importante.

Quando na arte da palavra encontramos o amor, a poesia pode nascer na sua forma mais pura. Sandór Marai escreveu o seguinte “A vida não é mais do que um homem e uma mulher que se encontram porque são feitos um para o outro, porque são um para o outro o que a chuva é para o oceano: um volta sempre a cair dentro do outro, criam-se mutuamente, são a condição um do outro. Desse todo nasce uma harmonia, e é isso a vida. Uma coisa raríssima entre os seres humanos”.

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