Das cinzas à esperança: o renascer de uma Serra ferida

Das cinzas à esperança: o renascer de uma Serra ferida

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A OPINIÃO de MARIA LUÍSA FRANCISCO Investigadora na área da Sociologia luisa.algarve@gmail.com
A OPINIÃO de MARIA LUÍSA FRANCISCO;
Investigadora na área da Sociologia;
luisa.algarve@gmail.com

“Do alto da Fóia disfruta-se de um dos panoramas mais magníficos do mundo!”
Heinrich Friedrich Link (1767-1851)

Nestes dias em que os nossos corações estão com Monchique e de luto pela Serra mais alta e bela do Algarve, agora em grande parte reduzida a cinzas, aqui ficam umas breves palavras sobre um dos concelhos mais desertificados do Algarve, mas com um enorme potencial turístico e ecológico.

A frase inicial é da autoria do médico e botânico alemão, que entre 1797 e 1799 visitou Portugal e fez uma interessante descrição do Algarve, em particular da Serra de Monchique, que muito o impressionou pela beleza e características naturais.

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A convite do botânico e ornitólogo alemão, conde Johann Centurius von Hoffmannsegg, um conhecedor e activo patrono das ciências naturais, Heinrich Friedrich Link conheceu Portugal e escreveu a obra Notas de uma viagem a Portugal e através de França e Espanha, da qual fica mais uma citação: “Por entre bosques de castanheiros, jardins totalmente cobertos de laranjas e limões rodeada de fundos vales românticos banhados por riachos sussurrantes, encontra-se a encantadora povoação de Monchique. A nossa surpresa nunca tinha sido tão grande em toda a viagem”.

Montanha Sagrada – Santuário Ecológico – Parque Nacional

A Serra de Monchique é considerada pelos especialistas como um verdadeiro “santuário ecológico” devido à sua fauna, flora e vegetação.

Essa montanha sagrada, berço de tanta gente com garra, com Fé e que é testemunho dessa Fé desde tempos ancestrais, tem sido procurada por muitas e diferentes comunidades religiosas para retiros e encontros espirituais. É considerada local de especial energia e onde já estiveram vários líderes religiosos. De referir que o Centro Karuna, espaço budista, ardeu quase na totalidade neste incêndio de 2018.

Monchique faz parte do percurso de muitos e parte do sonho de outros tantos. Partilho o sonho do Professor Manuel Gomes Guerreiro (1919- 2000) para Monchique.

Os estudos ambientais, a floresta e a ecologia foram as temáticas a que este ilustre algarvio se dedicou. Teve importante papel na região e no país e na criação da Universidade do Algarve, da qual foi o primeiro Reitor.

Monchique
Vista a partir da Fóia, o ponto mais alto a sul do Tejo – 902 metros de altitude (Foto: D.R.)

Em 1951 Gomes Guerreiro escreveu: “(…) Monchique transformado em Parque Nacional, com reservas de fauna e de flora (…) imaginemos esta parte serrenha transformada num povoamento florestal contínuo, com bosquetes de pinheiros, acácias, choupos, eucaliptos, salgueiros, estradas a cortarem-se em todas as direcções, pousadas disseminadas pela serra, lagos artificiais de albufeiras à volta dos quais se formariam centros de turismo e de desporto”.

O sonho tem de continuar a comandar a vida, apesar do retrocesso que o recente incêndio representa, neste sonho e no sonho de jovens que procuram criar projectos eco-sustentáveis de valorização do património natural, cultural e ecoturístico da Serra.

O concelho tem muitas e conhecidas potencialidades e depois da regeneração deste território, ainda que morosa, Monchique tornar-se-á mais forte porque:

– Esse solo que tem sido pisado de sol a sol por tantas gerações, é solo fértil com o suor e as lágrimas de tantas famílias que labutaram pelo pão de cada dia.

– Esse solo que tem dado as mais frondosas e monumentais árvores, as mais saborosas frutas e canteiros de verduras bem regadas, voltará a ser o Jardim do Algarve.

– Esse solo onde se produz mel, aguardente, enchidos e artesanato voltará a reforçar a identidade através do saber-fazer de gentes que se orgulham da sua herança.

– Esse solo que é ouro brilhará nos campos de milho e aveia, tornando cada manhã na Serra numa telúrica e renovada epopeia…

Desse comovente silêncio da terra nascerá a esperança de um amanhã melhor, com mais árvores… que nos abracem com tudo o que representam e que as abracemos com todo o nosso sentir. Essas árvores que morreram de pé e que foram parte de nós… despontarão com os ramos ao alto num renovado e emocionado abraço à Serra-Mãe!

(Artigo publicado no Caderno Cultura.Sul de Agosto)

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