A linha impossível

A linha impossível

186
PARTILHE

 

Dário Agostinho;
Membro da ALFA
agostinho.dario@gmail.com

Gosto de olhar para uma fotografia e pensar que estou perante uma interpretação da realidade – toda a fotografia é interpretação -, mas que a realidade que se ofereceu à câmera e ao fotógrafo se mantém, nessa imagem, intocada na sua essência. Por outro lado, tenho a tendência de encarar uma imagem substancialmente manipulada como algo que, inevitavelmente, se afastou do que é a fotografia.

O facto de uma imagem ter por base a técnica fotográfica faz dela, sempre e incondicionalmente, uma fotografia?

A manipulação fotográfica existe desde que a fotografia existe porque a arte pictórica, até aí, era uma arte de idealização. Num quadro, o pintor sempre colocou o que quis e sempre excluiu o que não queria incluir. Deste racional, absolutamente arreigado no nosso subconsciente estético coletivo, deriva o gosto, nem sempre muito saudável, das imagens belas, perfeitas, idealizadas, ideal este que, bem ou mal, positiva ou negativamente, contamina inelutavelmente a fotografia.

- Pub -

A realidade, por sua vez, não obstante o filtro da objetiva que, apesar de tudo, segue a tradição pictórica renascentista da perspetiva, contraria a fantasia. Deste modo, a fotografia realista – o fotojornalismo essencialmente – vive, tal como Dâmocles com a espada, com o fantasma da manipulação fotográfica sobre a cabeça.

A manipulação fotográfica existe desde que a fotografia existe (Foto: D.R.)

É, pois, facílimo ficarmos divididos relativamente a esta questão. O mais difícil é termos respostas claras sobre a mesma sem cairmos no mais fácil, que são os extremos. Esta dificuldade advém do facto de que entrámos, sem querer, no domínio do subjetivo, do gosto, da opinião. Não é possível traçar linhas limite. Nunca será.

Resta-nos assim o mais universal dos princípios: o bom senso. E o prazer. O prazer de admirar uma imagem bem construída, que fala connosco, “que te faz ir mais além, que habita em ti…”

(Artigo publicado no Caderno Cultura.Sul de Outubro)

Facebook Comments

Comentários no Facebook