Leitura da semana: A Mulher, de Meg Wolitzer

Leitura da semana: A Mulher, de Meg Wolitzer

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A rubrica Leitura da Semana é publicada semanalmente à terça-feira;
Paulo Serra é doutorado em Literatura na Universidade do Algarve e investigador do CLEPUL

Depois de Os Interessantes, que virou um filme da Amazon, a Teorema publicou A Mulher, que estreia esta semana nas salas de cinema portuguesas no que promete ser mais uma grande interpretação de Glenn Close. Foi ainda publicado recentemente pela Teorema outro livro da autora, A Persuasão Feminina.

A leitura de A Mulher é extremamente aprazível devido ao humor e à ironia da autora, capaz de arrancar um sorriso mordaz enquanto vamos virando as páginas num ápice, completamente envolvidos na história. Joan Castleman está a trinta e cinco mil pés de altitude a acompanhar o marido que se prepara para receber o Prémio de Helsínquia – uma clara alusão ao Nobel – quando decide finalmente divorciar-se do marido.
A escritora Meg Wolitzer, autora do livro “A Mulher” (Foto: Nina Subini)
Num jogo de alternância entre esse momento decisivo em que Joe se prepara para receber o prémio que é o culminar da sua carreira de escritor e o passado do que foi a sua vida em comum, desde o momento em que Joan o conheceu nas aulas de escrita criativa, em 1956, a autora tece um retrato de um casal que vive com um segredo – as pistas estão lá desde o início, pelo menos eu sempre senti que havia algo sob a superfície –, em que uma mulher, como tantas outras na História da Humanidade ou, melhor dizendo, da Mulher, se anula em prol do marido, de forma a lhe garantir o conforto e até mesmo o sustento para que ele se possa lançar na sua almejada carreira de escritor:

«Ela nada sabia acerca desta subcultura de mulheres que ficavam, de mulheres que não eram capazes de apresentar uma explicação lógica para as suas lealdades, que se aguentavam porque isso era o mais confortável, a coisa de que realmente gostavam. Ela não compreendia o luxo do familiar, do conhecido (…). O marido. Uma figura rumo à qual nunca avançávamos, nunca nos entusiasmávamos, mas ao lado da qual simplesmente vivíamos, estação após estação, que começava a acumular-se como tijolos grossos, unidos por uma argamassa desleixada. O muro do casamento erguia-se entre nós, uma cama conjugal, na qual nos deitávamos com gratidão.» (pág. 106).

A capa do livro de Meg Wolitzer

É particularmente interessante a análise que a autora faz da impossibilidade de uma mulher escritora vingar por si mesma no mundo literário, sem ser abafada num mundo dominado por homens – isto durante a segunda metade do século XX – e é igualmente intrigante o retrato que a autora faz dos escritores como figuras tantas vezes mesquinhas, muitas vezes apáticas para com as famílias, como em dois retratos de colegas escritores de Joe em que quase sentimos reconhecer alguns escritores como Roth ou Le Carré.

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