Culturas natalícias

Culturas natalícias

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A OPINIÃO de JORGE QUEIROZ
Sociólogo e membro da Direção da AGECAL
jorge.queiroz1@gmail.com

“O não-lugar é o contrário da utopia: existe e não alberga sociedade orgânica alguma. De dia para dia, acolhe cada vez mais pessoas… O espaço do não-lugar não cria nem identidade singular, nem relação, mas solidão e semelhança”.
Marc Augé, Antropólogo francês

As identidades são construções/ reconstruções culturais determinadas por necessidades, conjunturas, influências, ideias e valores que as comunidades utilizam, modificam ou preservam.

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Estas expressões culturais reconfiguradas são determinantes nos comportamentos sociais e individuais a que chamamos Cultura. É o caso do Natal.

Os rituais pagãos, há mais de dois mil anos cristianizados, seguiam os movimentos astrais, os ciclos naturais, agrários e sociais, estão na origem das festividades existentes por quase todo o mundo, extraordinária riqueza cultural.

O hemisfério norte assumiu nos últimos séculos supremacia económica e acabou por tentar definir comportamentos culturais “globais” relacionando-os com o mercado. Estes valores são fundamentais, dado que, usando simbologias da cultura herdada, promovem produtos, alterando as formas originais e conteúdos do relacionamento.

As tradições e festividades foram e continuam a ser mercantilizadas. O próprio gosto é construído através dos media e da publicidade, as “indústrias culturais” e de lazer favorecem a adopção massiva de determinadas preferências e excluem a diversidade de culturas.

O Natal representa actualmente o pico anual de vendas, as estatísticas mostram que em 2017 representou em Portugal 50% do consumo total anual no ramo alimentar.

Com quase mil anos de existência autónoma, ruralizado até há poucas décadas, Portugal guarda ainda tesouros das expressões natalícias ancestrais.

No Algarve sobrevivem várias tradições populares como a do “altarinho” de Natal com “searinhas” (Foto: D.R.)

Desde logo os principais símbolos, o fogo, o presépio e a árvore.

Para os romanos o Natal era o dia do sol e acendiam fogueiras, as “saturninas” ocorriam entre 17 e 23 de Dezembro. A luz e o fogo estiveram durante muitos séculos nas aldeias portuguesas representados pelo madeiro comunitário, que ardia na véspera de Natal no adro da Igreja até ao Dia de Reis. O galo, ave ligada ao nascer do sol, deu origem à designação “missa do galo” e à ceia subsequente, a Consoada, que se relaciona com o culto dos ausentes.

Foi no século passado substituído pelos enfeites industriais eletrificados, colocados nas praças e ruas das cidades e pelo fogo-de-artifício da passagem do ano. A descoberta da electricidade e o argumento ecológico acabaram por se tornar aliados desta transformação, evitando o corte de milhares de árvores, mas padronizando comportamentos e introduzindo outras formas de desperdício.

O presépio, simbolicamente o nascimento do Messias na nova religião, foi atribuído a iniciativa em 1223 de São Francisco de Assis em Itália. Muito divulgado pelos franciscanos proliferou durante a Idade Média acompanhado pelos autos de Natal, teatralização popular da Natividade com intervenção de “presépios vivos”.

Tem vindo a perder importância nas simbologias natalícias. No Algarve, os Bombeiros de Tavira e a autarquia de Vila Real de Santo António são bons exemplos de preservação deste património.

No Algarve, como no resto do País, sobrevivem várias tradições populares como a do “altarinho” de Natal com “searinhas”, muito ligadas à actividade agrícola e aos votos de boas sementeiras e colheitas no Ano Novo. Armar o Deus-Menino num “trono”, dias antes do Natal, com a germinação das sementes, cercando-o de searinhas, frutos secos, alfarroba, laranjas,…

A árvore de Natal como tradição natalícia tem origem no Norte da Europa, por razões climáticas e o tipo de floresta de abetos. O formato triangular da árvore remete para a Santíssima Trindade. Em Portugal foi introduzida em meados do séc. XIX por D. Fernando II, de nacionalidade alemã, esposo da rainha de Portugal D.Maria II.

São Nicolau ou o Pai Natal, promovido pelos países industrializados da Europa do Norte e Estados Unidos da América, foi um bispo de Mirna na Turquia que gostava de ofertar os bens herdados a crianças e adultos. Para os americanos vive no Polo Norte e para os ingleses na Lapónia. É o principal “promotor de vendas” nesta época do ano…

Sobre a gastronomia algarvia de Natal há um universo fantástico de saborosas atracções: pastéis de batata- doce, papas mouras, carnes de porco e aves, doçaria de figos, amêndoas e ovos,…

Estudar, reabilitar e promover os valores genuínos das culturas natalícias portuguesas é uma atitude humanista, necessária e benéfica para o País.

Como é tradição positiva e esperançosa, desejamos a todos um Bom Natal e Feliz 2019!

(Artigo publicado no Caderno Cultura.Sul de Dezembro)

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