Leitura da semana: Sobe a Maré Negra, de Margaret Drabble

Leitura da semana: Sobe a Maré Negra, de Margaret Drabble

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A rubrica Leitura da Semana é publicada semanalmente à terça-feira;
Paulo Serra é doutorado em Literatura na Universidade do Algarve e investigador do CLEPUL

Figura de destaque das letras britânicas, com duas dezenas de romances, além de biografias e ensaios, distinguida com o título Dame Commander of the Order of the British Empire, irmã da escritora A. S. Byatt, Margaret Drabble estreia-se em Portugal com este romance publicado pela Quetzal.

Apesar do título, retirado a uma citação em epígrafe de D. H. Lawrence («O corpo vai morrendo aos bocados e, tímida, a alma vê apagar-se a sua pegada quando sobe a maré negra.»), não se pense, contudo, que há aqui espaço para a melancolia. Quem quiser ler este livro como um canto de cisne desengana-se logo que desvenda as primeiras linhas, face ao humor negro que perpassa a narrativa: «Muitas vezes tem suspeitado que as suas últimas palavras para si e para o mundo virão a ser «Sua grandessíssima tola» (p. 11)

Margaret Drabble estreia-se em Portugal com este romance publicado pela Quetzal (Fotos: D.R.)

Fran, figura central que aglomera em torno de si directa e indirectamente um significativo rol de outras personagens, «já tem idade bastante para não morrer nova e demasiados anos para escapar aos joanetes e à artrite» (p. 11). Apesar de já poder gozar pacificamente a sua reforma, como algumas das suas amigas fazem, prefere andar constantemente atarefada, numa luta contra o tempo que lhe resta, a atravessar o país de carro a trabalhar para uma ONG preocupada com o alojamento para idosos, e a aproveitar ao máximo cada copo de vinho e cada momento de repouso nalgum quarto de hotel dos lugares por onde passa. Fran recusa-se a abrandar, ainda que veja as suas amizades se ficarem pelo caminho, e continua a intrigar os próprios filhos, ao mesmo tempo que cuida do ex-marido e observa o mundo com algum cinismo: «Podemos abster-nos de convidar pessoas para uma festa de aniversário, mas não podemos banir os membros da família dos funerais.» (p. 340)

A capa do livro de Margaret Drabble

A maré crescente das vagas de migrantes oriundos de África e do Médio Oriente, as maravilhas electrónicas e digitais deste Admirável Mundo Novo, o futuro do planeta e dos seus habitantes, os cuidados a prestar à terceira idade, o que fazer na reforma para não enlouquecer, para que serve realmente a literatura ou a arte na vida e para quê ensiná-la ou estudá-la, o criminoso baixo preço do álcool, as mudanças climatéricas, a comida de plástico e os corantes que a tornam irresistível, as relações entre marido e mulher, mãe e filhos, os homens que tomam as cunhadas viúvas como mulheres, a bênção de se morrer jovem e não ter de adoecer e envelhecer, a precariedade de relações entre pessoas do mesmo sexo que se apoiaram mutuamente toda a vida mas não são reconhecidas legalmente como cônjuge e eventual beneficiário, José Saramago e os seus romances em torno de possibilidades improváveis (E se…?)… Todos estes temas se entretecem neste romance onde se unem um sentimento de balanço de final de uma vida e uma arguta reflexão sobre o estado actual do mundo.

A autora esteve em Portugal entre os dias 21 e 23 de Janeiro para promoção do livro e concedeu uma brilhante entrevista a Isabel Lucas, no Público.

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