A farmácia, a comunidade, o SNS

A farmácia, a comunidade, o SNS

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A OPINIÃO de BEJA SANTOS;
Assessor do Instituto de Defesa do Consumidor;
Consultor do POSTAL

Corre uma petição nas farmácias e na internet com o título “Salvar as farmácias, cumprir o SNS”, tem a ver com o facto de aproximadamente 25% das farmácias estarem sob penhora ou com o espectro da insolvência. O risco do seu desaparecimento é uma ameaça séria para a saúde pública, é um assunto de todos nós. Saberá o leitor que numa altura em que os cuidados de saúde têm um futuro incerto, e custos por vezes onerosos, o aconselhamento farmacêutico é totalmente gratuito e lhe possibilita escolhas corretas para o seu bem-estar, está ali mesmo ao seu alcance, é a instituição mais próxima que o cidadão tem com o sistema de saúde?

Diz a petição que “com mais de três farmacêuticos por farmácia, a rede portuguesa é uma das cinco melhores do mundo”. É, mas corre o risco de deixar de ser. Ninguém ignora que fecham delegações bancárias, quartéis, extensões de centros de saúdes, tribunais, correios, e fechar uma farmácia numa localidade do interior não é um mero transtorno ou uma perda de acessibilidade, é a perda, prática e afetuosa, de ter uma dispensa de medicamentos com conselho, questionar o farmacêutico, quando se sofre de uma doença crónica, se este ou aquele medicamento não prescrito tem compatibilidade com a terapêutica que segue, pois há sempre interações entre medicamentos.

Portugal devia ter orgulho na sua cobertura farmacêutica, um dos pilares do bem-estar dos utentes de saúde e doentes. A farmácia é um espaço de saúde, tanto para os doentes crónicos como para aqueles que sofrem de males ligeiros. A farmácia modernizou-se e é um agente seguro do SNS graças à sua tecnologia. À luz da lei, as farmácias não fazem parte do SNS e o doente associa SNS a urgências hospitalares, operações, atos médicos e de enfermagem, centros de saúde… esquecendo que a farmácia é a entidade de saúde mais próxima das pessoas, ali se trocam seringas, se fazem campanhas de saúde pública, há farmácias envolvidas em programas de cuidados farmacêuticos, as farmácias fazem parte do sistema integrado da gestão de resíduos e embalagens de medicamentos e não há nenhum relatório internacional que não destaque pela positiva o facto de as farmácias intervirem no programa de troca de seringas destinado a colaborar na prevenção de uma das maiores ameaças mundiais, acrescido agora o facto das farmácias dispensaram medicamentos para infetados com VIH e doentes com hepatites.

Se a cobertura farmacêutica encolher também encolhe o SNS. É assunto para debate público saber porque é que há prejuízos, porque é que faltam milhões de embalagens de medicamentos, porque é que está em risco esta garantia de todos os portugueses terem acesso aos medicamentos numa base de coesão territorial. Continuar a contar com esta cobertura farmacêutica é gozar de uma arma que permite melhorar os padrões de saúde, o uso racional do medicamento, um melhor lidar com os cuidados de saúde primários e os estilos de vida saudáveis. Salvar a cobertura farmacêutica é imperativo nacional.

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