Festival do Contrabando: ponte flutuante aproxima Portugal e Espanha

Festival do Contrabando: ponte flutuante aproxima Portugal e Espanha [fotogaleria]

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Foram milhares as pessoas que se deslocaram a Alcoutim para participar num dia diferente.
Animação, música, costumes e ofícios de outros tempos foram o mote para mais uma edição do Festival do Contrabando.

O evento realiza-se entre Alcoutim e Salúncar do Guadiana

A terceira edição do festival começou na sexta-feira, dia 29, e prolonga-se até hoje, dia 31. O evento realiza-se entre Alcoutim e Salúncar do Guadiana, através de uma ponte pedonal que une as duas povoações.

Para Osvaldo Gonçalves, presidente da Câmara Municipal de Alcoutim “este evento tem uma importância muito grande para Alcoutim, sendo que o próprio evento já tem uma expressão significativa no conjunto dos eventos que são organizados no Algarve. Um dos compromissos que nós temos é exatamente o de combater a sazonalidade que se faz sentir entre outubro e maio”.

Na edição do ano passado participaram 25 mil pessoas

No ano passado participaram no Festival do Contrabando cerca de 25 mil pessoas, número que a autarquia espera superar nesta terceira edição.

O edil disse ainda ao POSTAL que “a ponte acaba por ser a simbologia daquilo que é vontade dos dois povos em unir estas duas margens através de uma passagem fixa que sempre foi uma ambição” e garantiu que “estamos a tentar que alguém ao nível do governo central nos apoie porque aquilo que nós gostaríamos mesmo era de ter uma ponte fixa que unisse estas duas margens. Nós defendemos uma ponte pedonal que permita que estas duas margens estejam unidas de modo permanente, de forma a potenciar estes territórios ao nível daquilo que é o turismo-natureza, a questão das caminhadas e obviamente que tudo isto potencia a economia da região”.

Neste festival celebra-se a arte , a gastronomia o património natural e cultural

Neste festival celebra-se a arte , a gastronomia o património natural e cultural que é partilhado por estes dois povos. A atividade ilícita do comércio é tida como o mote para a (re)criação de tempos antigos e muitas são as estórias partilhadas de pessoas que atravessavam o rio e faziam contrabando.

Café, farinha, peças de vestuário são apenas alguns dos exemplos das coisas que se contrabandeavam na época.

João Coelho, é membro da animação do festival e referiu ao POSTAL que “o contrabando era uma atividade que era desenvolvida por povoações ribeirinhas nos anos 30, 40…  Como não havia trabalho, as populações  inventaram o método de trazer as coisas de Espanha para Portugal e vice-versa para vender, que era o chamado contrabando que não pagava impostos”.

“Eu tenho um familiar que fez contrabando, mas um tipo de contrabando diferente. Na Zona de Montalegre uma das maneiras de fazer contrabando era contrabandear pessoas, transportar pessoas, pois nessa altura era proibido emigrar para o estrangeiro e então existiam os contrabandistas que passavam pessoas de Portugal para Espanha e iam depois para França para irem trabalhar para outros locais”, acrescentou.

O Contrabando é o tema de destaque no festival

O Contrabando é o tema de destaque no festival e o POSTAL falou com Paulo Moreira que está intimamente ligado a esta temática: “Desde 2014 ando a fazer as recolhas dos últimos testemunhos do contrabando ao longo de toda a fronteira nacional e que tem uma ligação óbvia a Alcoutim. Nós fizemos um primeiro documentário intitulado “Contrabando”. Depois existiu interesse por parte do município em recolher os últimos testemunhos que existiam em Alcoutim e temos vindo a trabalhar ao longo do último ano nesta recolha. Neste momento temos 14 testemunhos desta vila. Ao longo de toda a raia fomos apanhando testemunhos e temos 70 no total. Decidimos ainda fazer uma série denominada “histórias do contrabando” que está disponível online e que nos conta um pouco mais sobre estes tempos antigos. Esperamos daqui a dois anos fazer um documentário com os testemunhos todos”.

Neste evento participaram milhares de pessoas, vindas de várias zonas do país e até do estrangeiro.

Para Maria Burki, “o festival está muito bem organizado. Eu vim de propósito da Suiça para participar no Festival do Contrabando porque é um evento singular. Estou a adorar e certamente estarei cá nas próximas edições”.

Por sua vez, José Silvério, também visitante referiu que “eu tenho ouvido falar muito no festival mas é a primeira vez que venho cá. O contrabando é dos tempos dos meus pais, dos meus avós. Eu tenho uma perspetiva diferente sobre o que é o contrabando, tendo em conta os relatos antigos que ouvia. Penso que este dia vai ser passado em beleza”.

O Festival do Contrabando é um evento onde existe a recriação de um mercado rural de época que se alia a diversas atividades do contrabando, tais como guarda-fiscal, ofícios e costumes antigos com um festival de artes de rua e recriações históricas, que incidem sobre temas como a ruralidade, a desertificação, o envelhecimento, os usos e costumes da região e outros ligados ao contrabando de sobrevivência, que era praticado naquela zona nas primeiras décadas do século passado.

Para Julio Cardoso, membro da organização “o Festival do Contrabando é um evento estratégico, um evento âncora para desenvolver o território. A ponte pedonal transformou-se no exlíbris do evento, pois toda a gente quer cruzar o Guadiana a pé nesta plataforma flutuante, e depois existe toda uma imensidão de espetáculos por todas as ruas, por todas as praças. Em todos os cantinhos da vila há sempre um pouco de animação. O mercado à moda antiga, os ofícios e costumes antigos, a animação acabam por ser fatores catalisadores do evento”.

Por sua vez, Anabela Afonso, comissária do programa 365 explicou ao POSTAL que “o programa 365 está intimamente ligado com a história do Festival do Contrabando porque é um festival que nasce precisamente com o surgimento do 365 Algarve. O Festival do Contrabando personifica e ilustra muito bem o que são os objetivos do programa que é exatamente apostar na programação cultural como qualificação da oferta turística da região. O contrabando ainda é um passado muito recente, e está muito presente nestas pessoas que habitam este território porque existe sempre alguém que tem na família ou conhece alguém que teve uma ligação com o lado da guarda fiscal ou com o lado dos contrabandistas. Este evento é um bom exemplo de como esta ligação entre a cultura e o turismo pode ser muito feliz”.

O Festival do Contrabando pretende levar todos os visitantes a viajar no tempo e recordar o passado

O Festival do Contrabando pretende levar todos os visitantes a viajar no tempo e recordar o passado. A plataforma flutuante no Rio Guadiana personifica exatamente o contrabando que se fazia outrora e o desejo que sempre existiu de aproximar estas duas culturas.

Osvaldo Gonçalves terminou dizendo que “este evento assume um papel importante que é o de preservar uma memória coletiva de uma parte importante da nossa história que nós achamos que deve ser preservada e que nos ajuda também a pensar e a olhar para o passado para percebermos melhor aquilo que é o presente e aquilo que vai ser o futuro”.

Os elementos do POSTAL também fizeram a travessia da ponte.

 

 

(Stefanie Palma / Henrique Dias Freire)

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