Macário Correia: Não confiar no Estado

Macário Correia: Não confiar no Estado

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Macário Correia
José Macário Correia;
Ex-presidente das Câmaras de Tavira e de Faro (Foto de arquivo: D.R.)

A organização, mas sobretudo o funcionamento dos serviços do Estado tem mecanismos da mais gritante incompetência e irresponsabilidade. Todos nos confrontamos no dia a dia com tratamentos estúpidos e arrogantes do funcionalismo público e dos seus dirigentes. Salvo boas exceções que as há, a maioria das estruturas são enredos burocráticos comandados por dirigentes que vivem á conta dos contribuintes de modo parasitário sem nada de bom acrescentarem á sociedade.

Tenho dezenas de casos caricatos ocorridos com serviços públicos onde a regra é a de usurpar o cidadão, complicar-lhe a vida e tratá-lo mal e sem qualquer explicação civilizada dos procedimentos.

E nos últimos anos as coisas pioraram bastante. Faltam recursos elementares, como consumíveis correntes, desde papel a tinta, computadores ou impressoras. E conheço, até em Tavira, como no resto do país, serviços onde os funcionários nem nada fazem a não ser passar o tempo para picar o ponto.

Os horários de trabalho são já de si curtos, muitos serviços só atendem até ás 15.30h, não têm vontade de fazer nada e tratam mal quem deles precisa. Apesar da simpatia genuína de muitos funcionários que até sabem da inutilidade das suas atividades. São os serviços centrais dirigidos por familiares de outros dirigentes com vínculos partidários e quase intocáveis. Assim se constitui uma cadeia de incompetência e de inoperacionalidade.

Há dias recebi uma carta no correio para pagar 65 cêntimos no Centro de Saúde de Tavira em nome do meu filho mais novo, divida antiga e que se percebia ser de radiologia.

Achei ridículo, decorrido tanto tempo, vários funcionários envolvidos, o caso submetido a Faro na ARS e depois com despesas de correio para me cobrarem 65 cêntimos. Porque não me pediram aquando do ato?

Como responsável, apesar do ridículo valor, fui ao Centro de Saúde a uma tal Unidade Balsa. Deparei com uma fila de gente com coisas semelhantes e no balcão estavam três cadeiras de atendimento, mas só estava uma funcionária a fazer algo, nas outras duas cadeiras estavam os casacos de duas pessoas que tinham ido tomar café. Assim foi dito tal e qual. Enquanto aguardava a minha vez na fila por tamanha divida, porque disse ao que ia, fui aconselhado a ir a outro piso onde seria talvez mais rápido o atendimento. Lá fui. Só que me deparei com mais três dificuldades: o computador que não funcionava, a falta de trocos e a impressora avariada para dar o recibo, coisa que exigi para prova de pagamento de tamanha dívida.

Finalmente consegui pagar e sair dizendo a quem encontrava a vergonhosa situação em que perdia o meu tempo e de tantos funcionários pelos 65 cêntimos.

Posto isto, acho que o caso merece ser divulgado, pois não acredito na hierarquia da ARS Algarve, nem no Ministério em si, nem no Estado em que se inserem.

Se os dirigentes fossem responsáveis e competentes não deixavam as coisas chegar a este ponto. Certamente que o sabem mas não querem ou não são capazes de resolver coisas destas.

Por estas e outras semelhantes, que poderia contar às dezenas, ficamos tristes pela miséria de serviços e de dirigentes que nos fazem perder tempo e gastar recursos inutilmente e ainda por cima temos que trabalhar para pagar os 700 mil funcionários do Estado e as suas mordomias crescentes, mais uns milhares de dirigentes com cargos políticos e partidários e primos uns dos outros certamente.

Triste sina a nossa, a de estarmos dependentes desta gente.

Por estas e outras não aconselho ninguém a confiar no Estado. Uma tristeza.

Mas não nos devemos resignar. Há que reclamar alto e bom som contra esta gente que nos rouba tempo e dinheiro a cada instante.

Servi o Estado durante 30 anos e não foi isto que fiz, nem aconselhei ninguém a não trabalhar ou trabalhar mal.

(CM)

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