O apagar da chama

O apagar da chama

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Ilustração 1 – @ Lenea Andrade

Inaugurada há 75 anos, a Industrial Farense, L.da encerra o seu espaço na cidade de Faro para se transferir para os arredores.

As novas instalações permitirão, a uma indústria quase centenária, fazer frente aos desafios do século XXI, numa região em que a palavra indústria se associa, sobretudo, ao Turismo.

Refletir sobre o património industrial é o desafio lançado pela Direção Regional de Cultura do Algarve no mês em que a história desta indústria de transformação da semente de alfarroba se reformula.

Ilustração 2 – @ Luísa Melão

O progresso não pode ser interrompido, mas é necessário registar o legado de um passado ainda tão presente, valorizando a indústria como património, com os testemunhos dos modos de fazer tradicionais, ainda que industriais.

O pouco distanciamento temporal faz com que estes espaços/edifícios estejam muito presentes no nosso dia-a-dia, impedindo-os de ganhar dimensão enquanto espaços de memória, sendo que a preocupação em proteger e estudar o património industrial é relativamente recente.

Na maioria das vezes, ocupam edifícios de arquitetura funcional que dificulta um olhar crítico que os valorize enquanto património. No entanto, estes espaços são uma herança cultural que, no mínimo, vale a pena registar para mais tarde recordar: a arquitetura, o modo como o espaço se organiza, a simplicidade ou não da forma dando resposta a uma função, o saber fazer, os processos de produção, a maquinaria utilizada, a vivência do espaço, são testemunhos muito distantes da motivação generalizada de associar património a história (passado) ou beleza (arte).

Ilustração 3 – @ Cristina Fé Santos

Importante, também, é salvaguardar as memórias da matéria-prima e da mão-de-obra que lhes dão vida: seria restritivo pensar estes edifícios como “casas” vazias. Para muitos representam, mesmo, o espaço onde passaram grande parte da sua vida, lugares de memórias.

O património material, imaterial e, mesmo, natural da Industrial Farense, L.da congrega todos estes olhares: material (construído, industrial), imaterial (o saber fazer e a própria história da recolha da matéria prima) e o natural (todo o espaço em que a alfarrobeira se implanta na paisagem algarvia onde as culturas de sequeiro são ainda relevantes).

(Artigo publicado no Caderno Cultura.Sul de abril)

(CM)

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