POSTAL do ALGARVE associa-se às comemorações dos 45 anos da “Revolução dos...

POSTAL do ALGARVE associa-se às comemorações dos 45 anos da “Revolução dos Cravos”

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25 DE ABRIL – “Um povo sem memória não perpetua um país, preenche um espaço sem identidade” – Carlos Esperança (Foto: D.R.)

Nos 45 anos da “Revolução dos Cravos”, o “POSTAL do ALGARVE” associa-se às comemorações e publica todos os dias, durante o mês de Abril, um texto ou poema alusivos ao 25 de Abril.

Uma iniciativa organizada por Rui Cabrita, que decorre em simultâneo no jornal “Terra Ruiva”, do concelho de Silves.

 

 

Poema de Parabéns 

A quem, pelos 40 (5) anos do 25 de Abril?
A ti, que como eu sofreste na pele
a orfandade da pátria
de acordar todos os dias
sem o seu colo materno
por mais pobre que fosse
sem o seu céu claro embora carregado
de ameaças.
A ti sobretudo que comeste o duro pão
da prisão
e a injúria de ser batido e humilhado
e impedido de dormir e até de te sentares no chão
desses dias sórdidos em que vomitavas
confissões até de coisas nunca acontecidas
para que deixassem o teu pobre corpo
se acoitar no sono.
A ti também, anónimo filho desta terra que então
ainda tinha aldeias e campos semeados
e rebanhos pastando e moinhos moendo
e pescadores pescando.
(Compraram te o barco para não pescares mais
a enxada para deixares de cavar
o moinho para deixares de moer
e largaram-te
errante
no campo de refugiados em que esta terra
se tornou
para que os ricos façam os seus ricos negócios
no monumental casino que é o mundo
dos que mandam no mundo.)
Vivias de tão pouco
homem pré histórico
de antes do 25 de Abril
moirejando do nascer ao pôr do Sol
mas vivo filho da Vida
com um lugar nesta terra e no mundo.
Um dia recebeste e carregaste o caixão
e o luto do filho morto em combate
lá nessas longínquas áfricas
de que só para tua desgraça ouviste falar.
Parabéns ah sim a ti também! que abalaste a salto
para a estranja
que viveste em bidonviles
atolado em lama e tristeza
a trabalhar mais duro ainda do que na tua aldeia
mas mantendo o hábito de assobiar durante a faina.
Parabéns também a ti
filho desses párias
a ter vergonha de dizer na escola onde moravas
e que língua falavas
e a ti também a ti a da mala de cartão
a emigrar como os homens
para ganhar o pão dos filhos sem pai
a todos vós a todos nós
parabéns!
Os cravos da nossa Liberdade continuam símbolos
mas não deram fruto!
Todas as flores deviam frutificar
não servir apenas para enfeitar e cheirar bem!
Os nossos cravos tornaram-se mortos
Símbolos de uma liberdade precária
que a história regista!
Os Capitães de Abril são para os mais novos
jovens heróis de lenda
como o Homem Aranha!
Envelhecemos, nós, os que vivemos esses dias
essas mágoas, opressões e alegrias!
As imagens que temos desse tempo são fotografias
a preto e branco
por isso mais intensas!
Mas a nostalgia não compensa:
O elo que nos une quando digo Nós o que é?
Uma bandeira? Um mapa? Uma bola de futebol?
O balbuciar de uma língua
Que testemunho passar aos jovens que nos perguntam
o que foi o 25 de Abril?
Que casa é esta que lhes faz de lar?
Que futuro lhes preparamos?
Que herança lhes legamos?
Que família somos nós?
Deixamos impunes os gatunos domésticos
que metem ao bolso os nossos pobres cobres!
E aceitamos
de braços caídos
a derrota perante a Finança Internacional
esse
Dragão das mil cabeças que governa o mundo.
Que Nós é este que nos faz de pátria?
Que Nós é este que nos faz de Mundo?

Teresa Rita Lopes – 2014

 

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