Alguns dos nossos maiores na História Marítima de Portugal

Alguns dos nossos maiores na História Marítima de Portugal

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A OPINIÃO de BEJA SANTOS;
Assessor do Instituto de Defesa do Consumidor;
Consultor do POSTAL

“Homens do Mar, Os portugueses que se destacaram na História Marítima de Portugal”, por José António Rodrigues Pereira, A Esfera dos Livros, 2019, é um interessantíssimo levantamento de homens que pela sua obra guardam assento na História de Portugal. Como observa o autor logo na introdução, a nossa História está diretamente associada ao mar e às atividades marítimas, temos as fronteiras terrestres praticamente estabilizadas desde o final do século XIII, atendeu-se a um litoral com mais de 1100 quilómetros e a um passado que precedeu ao nascimento do Estado, pois fomos visitados por navegadores de diversas origens. Em consequência, a Marinha Portuguesa tem uma história que se confunde com a história da Nação.

Mesmo antecedendo o fenómeno expansionista que começou em Ceuta e se prolongou no projeto henriquino, o país dedicou-se ao desenvolvimento dos seus recursos no setor marítimo, como atesta o contrato que o rei D. Dinis fez com o genovês Manuel Pessanha que se tornou o Almirante-mor e criou bastante desassossego em portos árabes do Norte de África.

O investigador, que tem largas credenciais na Marinha e na investigação selecionou como primeira figura D. Fuas Roupinho, está historicamente demonstrado que foi um verdadeiro bravo do mar, atacou o porto de Ceuta em 1181, quis repetir a façanha, desta vez as esquadras de Sevilha e de Ceuta derrotaram-no. Segue-se o Almirante Manuel Pessanha e depois o elenco da gente ligada aos Descobrimentos, logo o Infante D. Henrique, é uma plêiada que se estende até D. João de Castro, temos depois nomes ilustres ligados à ciência náutica, o caso da família Homem e o matemático Pedro Nunes a quem devemos, entre outros, o instrumento de sombras (destinado a medir a altura do Sol) e o nónio, destinado a medir frações do grau, o qual, associado ao astrolábio, revelar-se-ia de grande utilidade para a ciência náutica portuguesa. Outros nomes graúdos relevam desta história marítima como Fernando de Oliveira e a família Teixeira Albernaz.

No século XVIII, Martinho de Melo e Castro é uma figura de proa na restruturação da Marinha Portuguesa com resultados que o autor destaca: “No virar do século, a Armada Real contava com 65 navios de alto bordo (14 naus, 23 fragatas, 3 corvetas, 17 brigues e 8 charruas), além de outros de menor porte. Isto significava, segundo os cálculos do comandante António Marques Esparteiro, um efetivo em pessoal de cerca de 800 oficiais e 20 mil homens numa população, à época, de 3.100.000 habitantes”.

A capa do livro de José António Rodrigues (Foto D.R.)

Quem visita a capital de Malta, Valeta, encontra em lugar de destaque um agradecimento do povo maltês ao Marquês de Nisa, D. Domingos Xavier de Lima, filho do 1.º Marquês de Ponte de Lima, e Marquês de Nisa pelo casamento com D.ª Eugénia Xavier Telles da Gama. Irá distinguir-se como comandante de uma esquadra que colaborou com a frota de Lorde Nelson no mediterrâneo. Protegeu Malta, combateu em Génova, acolheu na sua nau cardeais e princesas, esteve presente num bloqueio a Cádis, teve missões no Egito, Nápoles, Minorca, Sicília e Livorno. Depois de uma carreira excecional na Armada Real, foi nomeado embaixador na corte do czar Alexandre I da Rússia.

O autor não esquece nomes que não são de primeira plana na historiografia do mar, como Patrão Joaquim Lopes, um salvador fora de série, intrépido e abnegado, a quem foi concedida a graduação no posto de segundo-tenente da Armada.

No elenco destas centenas de personalidades, e saltando agora para o século XIX, há que salientar as figuras de D. Luís I, Brito Capelo, Roberto Ivens, D. Carlos I, um oceanógrafo brilhante, um oficial da Armada que teve papel determinante nas campanhas de África, João de Azevedo Coutinho, Gago Coutinho, Afonso Júlio de Cerqueira, Carvalho Araújo que se bateu destemidamente com submarino à mão para salvar um barco de passageiros, Sacadura Cabral, Sarmento Rodrigues, o comandante da Marinha que transformou a Guiné numa colónia-modelo, Pereira Crespo, que além de ter estado à frente, com raro brilhantismo, da Missão Geoidrográfica da Guiné, foi um exímio reformador das instituições da Marinha, que lhe deve um esforço modernizador; Avelino Teixeira da Mota desde cedo mostrou dotes excecionais na historiografia, logo no final do curso a sua memória de guarda marinha arrancou louvores, como ajudante de campo de Sarmento Rodrigues na Guiné foi obreiro do Centro de Estudos da Guiné Portuguesa, do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa e do Museu de Bissau. Da sua produção científica destacam-se as obras monumentais que realizou com Armando Cortesão no campo da cartografia e o seu trabalho sobre o descobrimento da Guiné em que deixou inequívoco que Nuno Tristão nunca ali arribara. No envolvimento do fim do Império, o autor destaca duas figuras, o segundo-tenente Oliveira e Carmo, o comandante da Vega que lutou contra as forças indianas, morrendo bravamente em combate. E Alpoim Calvão, o mais condecorado de todos os oficiais da Armada que ganhou as suas esporas na Operação Tridente como comandante de fuzileiros e depois de um conjunto de operações na Guiné.

O autor destaca a idealização e a execução da Operação Mar Verde, que tendo começado por ter objetivos limitados, foi crescendo nos seus objetivos estáticos, estratégicos e políticos: procurava-se a destruição do material naval do PAIGC, destruir os aviões MIG da Força Aérea da Guiné-Conacri e subverter o regime do ditador Sekou Touré para colocar no mando os seus opositores, o que daria um regime favorável à presença portuguesa. O autor descreve toda a operação e em jeito de conclusão dirá: “Do ponto de vista militar, o balanço da operação foi bastante positivo; a libertação dos prisioneiros de guerra portugueses, em poder do PAIGC, justificou o êxito desta operação”.

É incompreensível que um estudioso arrisque uma conclusão totalmente oposta à hecatombe que arrastou: a diplomacia portuguesa ficou doravante irremediavelmente isolada; as forças navais soviéticas passaram a ter uma presença permanente na região, foi uma ingerência num país soberano que arrastou definitivamente a política de Marcello Caetano para o descrédito internacional. Quando se ponderam os resultados, os investigadores não devem abstrair que há dois pesos na balança, o elogio cego a um grande desastre político acaba por ser a única nódoa ou calinada que se encontrou num livro de divulgação digno de encómios, cuja leitura é a todos aconselhada.

(CM)

 

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